Posso Escrever a Tese na Primeira Pessoa? Voz Académica e Impessoalidade em 2026
“Posso escrever eu considero ou tenho de usar considera-se?” Esta dúvida sobre escrever a tese na primeira pessoa surge em quase todas as orientações de mestrado e doutoramento em Portugal. A resposta depende de três fatores: a norma de citação adotada, a área científica e o estilo da própria universidade. Em 2026, a tendência aponta para uma maior aceitação da primeira pessoa — mas com regras claras por capítulo.
Durante décadas, a tradição académica portuguesa favoreceu a voz impessoal, herdada de uma noção de objetividade científica que pressupõe a ausência do investigador no texto. Expressões como verificou-se que, os dados indicam que ou procedeu-se à análise tornaram-se marcas da escrita universitária clássica em Portugal e no Brasil. Porém, a adoção crescente da norma APA 7 — que recomenda explicitamente a primeira pessoa — está a transformar essa convenção, sobretudo nas ciências sociais, psicologia e educação.
Este guia responde de forma direta a cada caso: quando usar “eu” ou “nós”, quando preferir a voz impessoal e como adaptar a voz consoante o capítulo — com exemplos concretos para cada secção da tese.
Sim, pode escrever a tese na primeira pessoa — a norma APA 7 recomenda-o expressamente para ações do próprio investigador. Em Portugal, a tradição académica ainda prefere a voz impessoal, especialmente nas ciências exatas e da saúde. A decisão final cabe ao orientador e às normas da instituição. Confirme antes de começar a redigir.
O que são “primeira pessoa” e “voz impessoal” numa tese?
A primeira pessoa do singular (“eu”) e do plural (“nós”) coloca o investigador como sujeito explícito das frases: “Optei por uma abordagem qualitativa” ou “Analisámos os dados com NVIVO”. A voz impessoal apaga esse sujeito, usando construções passivas ou reflexas: “Optou-se por uma abordagem qualitativa” ou “Os dados foram analisados com NVIVO”.
Nenhuma das duas formas é intrinsecamente mais “científica”. Ambas são convenções disciplinares com raízes históricas distintas. A escolha afeta a clareza, a fluidez e o posicionamento epistemológico do texto — não a qualidade do argumento nem o rigor da investigação.
| Aspeto | Primeira Pessoa | Voz Impessoal |
|---|---|---|
| Clareza da autoria | Alta — sujeito explícito | Baixa — pode gerar ambiguidade |
| Norma que recomenda | APA 7, MLA | Tradição PT/BR clássica, Vancouver |
| Áreas mais comuns | Humanidades, Ciências Sociais, Psicologia | Ciências Exatas, Saúde, Engenharia |
| Risco principal | Subjetividade excessiva se mal gerida | Frases longas, texto pesado e ambíguo |
O que diz a norma APA 7 sobre a primeira pessoa?
A APA 7.ª edição (publicada em 2019 e adotada em Portugal em programas de psicologia, educação e ciências sociais) introduziu uma recomendação explícita: os autores devem usar a primeira pessoa para referir as suas próprias ações, em vez de locuções como “o investigador” ou “a autora deste trabalho”. A justificação é precisa — em textos que citam múltiplos autores, a terceira pessoa cria ambiguidade: o leitor não sabe se “o investigador verificou” se refere ao mestrando ou a um autor citado.
A APA 7 define assim as regras:
- Tese individual: usar “eu” ao referir decisões e ações metodológicas próprias.
- Trabalho em coautoria: usar “nós”.
- Proibição explícita: não usar “o autor” nem “a investigadora” para se referir a si próprio — cria confusão com os autores citados ao longo do texto.
Para quem adota APA 7, a primeira pessoa é, portanto, a escolha tecnicamente correta. Pode consultar as regras completas de citação e estilo no guia de Normas APA 7 em 2026, disponível no site pt.tesify.pro.
Qual é a tradição das universidades portuguesas?
Em Portugal, a norma histórica é a impessoalidade. Expressões como verificou-se que, os dados indicam que ou procedeu-se à análise dominam as teses de engenharia, medicina, bioquímica e direito. Esta convenção reflete uma conceção de objetividade científica em que o investigador “desaparece” do texto para não contaminar, aparentemente, a validade dos resultados.
Contudo, a paisagem está a mudar:
- Humanidades e Ciências Sociais: a Universidade de Lisboa, a Universidade Nova de Lisboa e o ISCTE aceitam ou encorajam a primeira pessoa em dissertações de sociologia, antropologia, ciências da educação e estudos culturais.
- Ciências Exatas e da Saúde: a preferência pela voz impessoal mantém-se sólida, ainda que a APA 7 esteja a ganhar terreno em enfermagem e psicologia clínica.
- Regulamentos internos: várias faculdades publicaram guias de estilo que remetem a decisão para o orientador — o que significa que a pergunta deve ser feita antes de começar a redigir, e não após 60 páginas escritas.
Devo usar “eu”, “nós” ou a voz passiva?
A escolha entre “eu”, “nós” e voz passiva depende de três variáveis: o número de autores, a norma adotada e o capítulo em causa.
- “Eu” — tese individual com norma APA 7 ou com orientador que aceita a primeira pessoa explicitamente.
- “Nós” — dissertações com mais de um autor, ou quando a investigação foi conduzida em equipa: “Nós recolhemos os dados em parceria com a equipa de campo do projeto.”
- Voz passiva / reflexa — tradição clássica portuguesa, teses sem norma explícita definida, áreas de saúde e engenharia, ou quando o orientador prefere distância autoral.
Qualquer que seja a escolha, a regra de ouro é a consistência. Alternar entre “eu analisei” e “verificou-se” dentro do mesmo capítulo sem critério editorial sinaliza falta de revisão e prejudica a coesão do texto. O leitor perde o fio estilístico e o orientador nota o problema imediatamente.
Como adaptar a voz a cada capítulo da tese?
Mesmo dentro de uma mesma tese, a voz pode — e deve — variar consoante a função de cada capítulo. Eis as convenções mais aceites em Portugal em 2026:
Introdução
Primeira Pessoa
Demarcação do problema, justificação e estrutura do trabalho — ações claramente do investigador.
Revisão de Literatura
Impessoal (preferência)
Foco nos autores citados; 1.ª pessoa ao posicionar a perspetiva adotada.
Metodologia
Primeira Pessoa (APA 7)
Decisões do investigador: recolha, amostra e análise dos dados.
Resultados
Impessoal (dominante)
Os dados “falam por si”; construções reflexas e passivas.
Discussão
Primeira Pessoa
Interpretação e argumentação do investigador sobre os dados obtidos.
Conclusão
Primeira Pessoa
Síntese, reflexão crítica e avaliação do trabalho realizado.
Como escrever a introdução — primeira ou terceira pessoa?
A introdução é o capítulo onde a primeira pessoa é mais natural e amplamente aceite, mesmo em teses com tradição impessoal. É aqui que o investigador delimita o problema, justifica a relevância e apresenta a estrutura do trabalho — ações que pertencem claramente ao próprio autor.
Com primeira pessoa: “Neste trabalho, proponho-me a investigar de que forma as políticas de habitação afetam a mobilidade social em Lisboa entre 2018 e 2026.”
Com voz impessoal: “O presente trabalho propõe-se a investigar de que forma as políticas de habitação afetam a mobilidade social em Lisboa entre 2018 e 2026.”
Ambas são corretas. A diferença é de posicionamento — a primeira versão é mais direta e clara quanto à autoria. Para saber o que deve constar em cada parágrafo da introdução, consulte o guia sobre como escrever a introdução da tese em 2026.
Como escrever a revisão de literatura?
A revisão de literatura descreve o estado da arte. Aqui, a voz impessoal é mais frequente porque o foco está nos autores citados, e não nas ações do investigador. A primeira pessoa aparece apenas quando se comenta explicitamente a posição adotada perante o debate teórico.
Exemplo híbrido: “Vários autores documentaram a relação entre segregação residencial e desigualdade educativa (Silva, 2021; Costa, 2024). Neste trabalho, adopto a perspetiva de Costa (2024), por ser a mais adequada ao contexto urbanístico português.”
Como escrever a metodologia?
A metodologia descreve decisões do investigador — quem escolheu o método, quem recolheu os dados, quem definiu a amostra. A APA 7 recomenda a primeira pessoa precisamente aqui, porque aumenta a clareza e a reprodutibilidade: “Realizei entrevistas semiestruturadas com 12 participantes recrutados via amostragem intencional” é mais preciso do que “Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 12 participantes” — a versão impessoal não deixa claro quem as realizou.
Como escrever os resultados e a discussão?
Nos resultados, a voz impessoal domina porque os dados “falam por si”: “Os resultados indicam que…”, “Verificou-se uma correlação positiva entre…”. Na discussão, a primeira pessoa regressa para interpretar e argumentar: “Estes resultados sugerem, na minha perspetiva, que a relação entre variáveis X e Y é mediada por…”
Como escrever a conclusão?
A conclusão é o espaço de síntese e reflexão crítica — o capítulo onde o investigador avalia o que fez, o que encontrou e o que ficou por fazer. A primeira pessoa é amplamente aceite neste espaço, mesmo em teses de tradição impessoal. Para saber o que incluir e o que evitar, leia o artigo sobre o que pôr na conclusão da tese em 2026.
Quais são os erros mais comuns na voz académica?
- Misturar registos na mesma secção sem critério — alternar “eu analisei” e “foi analisado” no mesmo parágrafo cria incoerência formal que os orientadores identificam imediatamente.
- Usar “nós” num trabalho individual para parecer mais impessoal — o plural majestático existe, mas em contexto português soa artificial e levanta questões sobre o número real de autores.
- Substituir “eu” por “o autor” — em APA 7 isto é explicitamente desaconselhado porque cria ambiguidade com os autores citados ao longo do texto.
- Voz passiva em cascata — frases como “foi verificado que foi observado que foi concluído que” tornam o texto denso e difícil de seguir.
- Não confirmar a preferência do orientador antes de começar — é o erro mais custoso: implica revisão global de um documento que pode ter 80 a 150 páginas.
Como a Tesify ajuda a manter a consistência de voz?
Manter a mesma voz ao longo de 80 a 150 páginas escritas ao longo de meses é um desafio real. O capítulo de metodologia, redigido em março, pode ter uma voz diferente da revisão de literatura escrita em setembro. A Tesify apoia a revisão de consistência estilística ao longo do documento: sinaliza quando uma frase muda inadvertidamente de registo e sugere alternativas reformuladas em português europeu — seja em primeira pessoa (APA 7) ou em voz impessoal, consoante a configuração do utilizador.
Tesify é uma ferramenta de apoio à escrita responsável: todas as decisões de conteúdo, argumento e interpretação permanecem do investigador. A plataforma assiste na forma, não no fundo.
FAQ — Perguntas Frequentes
Posso usar “eu” numa tese de mestrado em Portugal?
Sim, pode — desde que o orientador e o regulamento da faculdade o permitam. Em áreas como psicologia, educação e ciências sociais, a primeira pessoa é amplamente aceite. Em engenharia, saúde e direito, a voz impessoal continua a ser a convenção dominante. Confirme sempre com o orientador antes de começar a redigir.
A norma APA 7 obriga à primeira pessoa?
A APA 7.ª edição recomenda a primeira pessoa para referir ações próprias e proíbe expressamente o uso de “o autor” ou “a investigadora” para se referir a si mesmo, por criar ambiguidade com os autores citados. Não é uma obrigação absoluta, mas é a orientação oficial — e a prática recomendada quando se adota esta norma.
Qual é a diferença entre “voz ativa” e “primeira pessoa”?
São conceitos distintos. A voz ativa refere-se à estrutura da frase (o sujeito pratica a ação), enquanto a primeira pessoa diz respeito ao pronome usado. É possível escrever na voz ativa sem usar a primeira pessoa: “Os dados mostram que X” é voz ativa mas não é primeira pessoa. A APA 7 recomenda ambas — voz ativa e primeira pessoa —, mas são escolhas independentes.
Posso misturar primeira pessoa e voz impessoal na mesma tese?
Sim, desde que a mistura seja intencional e consistente por secção ou capítulo. É aceitável usar a primeira pessoa na introdução e na discussão, e a voz impessoal nos resultados. O que é problemático é alternar aleatoriamente dentro do mesmo parágrafo, sem critério editorial aparente.
E se o meu orientador preferir a voz impessoal mas eu usar APA 7?
A preferência do orientador prevalece. A APA 7 recomenda a primeira pessoa, mas as indicações do orientador e as normas da instituição têm precedência. Se houver conflito, discuta explicitamente antes de redigir o capítulo de metodologia, onde a tensão entre as duas convenções é mais visível.
Usar “nós” num trabalho individual é correto?
Depende da tradição. O “nós” científico (plural de modéstia ou majestático) é aceite em algumas áreas e países, incluindo parte da tradição académica francesa. Em Portugal, é menos comum e pode parecer artificial em trabalhos claramente individuais. A APA 7 recomenda “eu” para autores individuais. Consulte o orientador.
A primeira pessoa é mais subjetiva e prejudica a tese?
Não necessariamente. A objetividade científica depende da metodologia, da fundamentação e da argumentação — não do pronome usado. A ideia de que a voz impessoal é mais “objetiva” é uma convenção disciplinar, não uma lei da epistemologia. Muitas das melhores teses em humanidades e ciências sociais usam a primeira pessoa com rigor total.
Nos trabalhos escritos em inglês, que voz devo usar?
Em trabalhos académicos em inglês, a primeira pessoa é amplamente aceite e recomendada pela APA 7. A tradição britânica — frequente em universidades portuguesas com cotutela internacional — aceita “I” ou “we” com naturalidade na metodologia e na discussão, tornando o texto mais claro e menos ambíguo.
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