Estudante universitário a usar ferramentas de IA para escrita de tese académica no computador
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Ferramentas de IA para Tese Académica: 5 Verdades Ocultas

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5 min de leitura

Em 2024, mais de 56% dos estudantes universitários europeus admitiram usar alguma forma de IA generativa nos seus trabalhos académicos. Este número não é um alarme — é a realidade. E se estás a ler isto, provavelmente já pensaste (ou já usaste) ferramentas de IA para escrita de tese académica.

Mas aqui está o paradoxo que ninguém menciona: a mesma tecnologia que promete facilitar a tua tese pode destruir anos de trabalho num único clique. Um orientador desconfiado, uma banca atenta, um detetor de IA particularmente zeloso — e tudo o que construíste pode desmoronar.

A pergunta que realmente importa é: será que estás a usar ferramentas de IA para escrita de tese académica da forma certa — ou caminhas para a reprovação sem sequer perceber?

Neste guia, vou revelar as 5 verdades ocultas que universidades, orientadores e editoras científicas não dizem abertamente. Verdades que podem fazer a diferença entre defender a tua tese com orgulho ou enfrentar uma acusação de fraude académica.

Se procuras um guia completo sobre como usar estas ferramentas de forma segura, recomendo também consultar o nosso guia completo sobre IA para escrita académica.

O Que Ninguém Te Conta Sobre IA e Trabalhos Académicos

Antes de mergulharmos nas verdades ocultas, precisamos de entender como chegámos aqui. A maioria dos estudantes navega numa zona cinzenta — sem mapa, sem bússola, e muitas vezes sem consciência dos riscos.

Ilustração mostrando o equilíbrio entre inteligência artificial e integridade académica, com uma balança equilibrada entre símbolos de graduação e IA
O equilíbrio entre IA e trabalho académico é possível — quando usado com responsabilidade.

Tudo mudou em novembro de 2022. O lançamento do ChatGPT não foi apenas um marco tecnológico — foi um terramoto no mundo académico. Em menos de dois anos, passámos de “isto é uma curiosidade” para “toda a gente usa”.

A linha temporal é impressionante:

  • 2023: Primeiras reações de pânico — universidades proíbem, estudantes escondem
  • 2024: Normalização silenciosa — a IA torna-se ferramenta quotidiana, mas sem regras claras
  • 2025: Regulamentação em curso — instituições começam a definir políticas explícitas

As ferramentas mais populares entre estudantes em Portugal incluem o ChatGPT (para brainstorming e redação), o Elicit (para revisão bibliográfica), o Grammarly (para revisão gramatical) e o Jenni AI (para escrita assistida). Cada uma com os seus méritos — e os seus perigos.

Aqui está algo que poucos estudantes sabem: muitas universidades portuguesas já atualizaram os seus regulamentos sobre IA. O problema? Fizeram-no quase em silêncio.

A distinção atual entre instituições divide-se em três categorias:

  1. Proibição total: Uso de IA generativa para produção de texto é considerado fraude
  2. Tolerância condicionada: Permitido para pesquisa e organização, proibido para escrita final
  3. Uso incentivado (com declaração): Permitido em todas as fases, desde que declarado

O mais preocupante? Muitos estudantes não sabem em qual categoria a sua universidade se enquadra. E “não sabia” não é uma defesa aceite numa banca de tese.

📌 Referência-chave: Segundo as políticas de IA generativa da Elsevier, mesmo quando o uso de IA é permitido em artigos científicos, é obrigatória supervisão humana, verificação de factos e uma declaração explícita.

Para entender melhor estes limites, consulta o nosso artigo sobre os limites do uso de IA em teses académicas.

As 5 Verdades Ocultas Sobre Ferramentas de IA Para Escrita de Tese Académica

Chegou a altura de falar do que realmente interessa. Estas são as verdades que ninguém publica nos manuais universitários, mas que podem definir o destino da tua tese.

Verdade #1 — A IA Inventa Fontes (E Pode Destruir a Tua Credibilidade)

Vou ser direto: a IA mente. Não por malícia, mas por design. Os modelos de linguagem como o ChatGPT são treinados para gerar texto coerente e convincente — não necessariamente verdadeiro.

Ilustração mostrando documentos e fontes académicas, com algumas aparecendo desfocadas ou com pontos de interrogação, representando fontes falsas geradas por IA
Nem todas as fontes sugeridas pela IA existem — verifica sempre.

O fenómeno chama-se “alucinação” e é mais comum do que imaginas. Quando pedes à IA para citar fontes sobre um tema, ela pode inventar títulos de artigos que parecem reais mas não existem, criar autores fictícios com nomes credíveis, gerar DOIs completamente falsos, ou misturar informação verdadeira com dados fabricados.

Imagina o cenário: citas uma fonte “encontrada” pela IA na tua tese. A banca verifica. A fonte não existe. O resultado? Na melhor das hipóteses, perdes credibilidade. Na pior, enfrentas uma acusação de falsificação de referências.

É como construir uma casa sobre areia — pode parecer sólida, mas vai ruir quando menos esperas.

📌 O plugin do Paperpile para ChatGPT permite pesquisar em bases académicas reais (PubMed, Semantic Scholar, Crossref), garantindo que cada referência existe e pode ser verificada.

A solução: Nunca confies cegamente nas fontes geradas por IA. Verifica cada citação manualmente. Usa ferramentas como o Paperpile ou o Zotero para garantir rastreabilidade.

Para mais exemplos de erros relacionados com fontes, lê o nosso artigo sobre os 5 erros que arruínam o teu TCC.

Verdade #2 — Os Detetores de IA Estão Mais Sofisticados (E Com Falsos Positivos)

Se pensas que podes usar IA sem que ninguém descubra, tenho más notícias. As ferramentas de deteção evoluíram dramaticamente — e estão a ser adotadas por cada vez mais universidades.

Ilustração de um documento a ser analisado por uma ferramenta de deteção, com partes do texto destacadas em cor diferente
Os detetores de IA analisam padrões — mas não são infalíveis.

O Turnitin, a plataforma de deteção de plágio mais usada no mundo académico, lançou funcionalidades específicas para identificar texto gerado por IA. Funciona analisando padrões de escrita, previsibilidade de palavras e estruturas sintáticas típicas de modelos de linguagem.

Mas aqui está o problema que ninguém discute abertamente: os falsos positivos existem. Texto perfeitamente original pode ser marcado como “suspeito de IA” se tiver estrutura muito organizada e formal, usar vocabulário técnico de forma consistente, ou apresentar argumentação linear e previsível.

Ironia das ironias: escrever “bem demais” pode levantar suspeitas.

📌 A Turnitin explica na sua página oficial que a deteção de escrita por IA é uma ferramenta de apoio à integridade académica — mas reconhece limitações e a importância do julgamento humano.

O que acontece quando a banca suspeita? Na maioria dos casos, és convocado para uma entrevista ou defesa oral adicional. Terás de demonstrar domínio profundo do conteúdo — algo impossível se a IA escreveu por ti.

Descobre mais sobre como evitar estes problemas no nosso guia sobre erros fatais ao usar IA na dissertação.

Verdade #3 — Copiar/Colar da IA É o Erro Mais Comum (E Mais Perigoso)

Confessa: já copiaste texto diretamente do ChatGPT para um documento, certo? Não estás sozinho. É o erro mais comum — e potencialmente o mais devastador.

O problema não é apenas a deteção. É que o texto gerado por IA tem características que o tornam inadequado para trabalhos académicos: falta de voz autoral (o texto é genérico, sem personalidade), argumentação superficial (a IA apresenta ideias, mas não as defende com profundidade), incoerência estrutural (parágrafos podem contradizer-se subtilmente), e ausência de contributo original.

A diferença entre usar IA como assistente versus como autor é crucial. Um assistente ajuda-te a organizar ideias, encontrar fontes, revisar gramática. Um autor escreve por ti — e isso não é uma tese tua.

📌 O próprio Elicit recomenda não copiar/colar o texto gerado, sugerindo usar os outputs como ponto de partida para escrita própria.

Pensa assim: a IA é como um GPS. Pode indicar-te o caminho, mas tu é que tens de conduzir. Se deixares o GPS conduzir por ti… bem, não temos ainda carros autónomos na academia.

Para mais informações sobre o uso correto do ChatGPT, vê o nosso guia sobre ChatGPT para dissertações de mestrado.

Verdade #4 — A IA Não Substitui o Pensamento Crítico (E a Banca Sabe Disso)

Aqui está uma verdade desconfortável: a IA não pensa. Processa. Sintetiza. Reformula. Mas não cria conhecimento novo.

A IA faz bem a síntese de grandes volumes de informação, a estruturação de tópicos, a correção de erros gramaticais e as sugestões de reformulação para clareza. Contudo, não consegue produzir interpretações originais de dados, desenvolver argumentos teóricos inovadores, fazer conexões não-óbvias entre conceitos, ou demonstrar domínio profundo de um campo.

E a banca sabe distinguir. Avaliadores experientes reconhecem quando um texto tem “alma” — quando reflete anos de estudo, reflexão e maturação intelectual — versus quando é uma compilação bem organizada mas vazia.

A “voz” do aluno é insubstituível. É o resultado de um percurso único, de leituras específicas, de conversas com o orientador, de falhas e descobertas pessoais. A IA pode imitar estilos, mas não pode replicar a tua jornada intelectual.

Consulta também o nosso artigo sobre os 7 erros fatais a evitar com IA na tese.

Verdade #5 — Há Um Limite Legal e Ético (Mesmo Que Ninguém Te Diga Qual É)

Se há algo que caracteriza o momento atual, é a confusão. A maioria das universidades portuguesas ainda não tem políticas claras e públicas sobre IA em trabalhos académicos. Isto coloca-te numa posição difícil: como cumprir regras que não estão escritas?

A realidade é que existem diferentes níveis de uso, com diferentes implicações éticas:

Tipo de Uso Risco Recomendação
Pesquisa e descoberta de fontes Baixo Geralmente aceite
Organização de ideias e estrutura Baixo-Médio Aceite com declaração
Revisão gramatical e estilística Baixo Amplamente aceite
Geração de texto para inclusão Alto Geralmente proibido
Escrita integral de secções Muito Alto Fraude académica

A tendência clara é para a exigência de declaração de uso de IA em todas as submissões académicas. Se usaste IA de alguma forma, declara. A transparência protege-te — a ocultação pode destruir-te.

Para uma checklist completa, consulta o nosso guia com checklist sobre limites de IA na tese.

Ferramentas de IA Para Escrita de Tese Académica: Quais Usar e Como

Agora que conheces os riscos, falemos de soluções práticas. Porque a IA, usada corretamente, pode ser uma aliada poderosa na tua jornada académica.

A revisão de literatura é uma das fases mais trabalhosas de qualquer tese. É aqui que a IA pode ajudar de forma legítima e eficaz. Elicit é provavelmente a ferramenta mais útil neste contexto — permite pesquisar em bases de dados académicas, extrair informação-chave de artigos e organizar a tua revisão de forma sistemática.

📌 O Elicit para revisão sistemática permite pesquisar, filtrar e extrair informação de milhares de papers — mas a interpretação e critérios de inclusão continuam a ser responsabilidade do aluno.

Outras ferramentas úteis incluem o Semantic Scholar (descoberta de literatura relacionada através de IA), o Research Rabbit (mapeamento visual de conexões entre artigos) e o Connected Papers (visualização de redes de citações).

Para gestão de referências, o Zotero continua a ser a referência — gratuito, open-source, e extremamente poderoso. O leitor de PDF do Zotero permite anotar, destacar e criar citações diretamente do documento, garantindo rastreabilidade total das tuas fontes.

Na fase de revisão, ferramentas como Grammarly, LanguageTool (com bom suporte para português) e ProWritingAid podem ser particularmente úteis — e com menos riscos éticos. A chave é usá-las para melhorar o teu texto, não para o substituir.

Para mais informações sobre revisão de tese com IA, consulta o nosso artigo sobre verdades ocultas na revisão de tese com IA.

O que evitar: Existem ferramentas comercializadas como “geradores de ensaios” ou “escritores de tese automatizados”. Evita-as. Produzem texto genérico, argumentação inconsistente, fontes frequentemente inventadas e são facilmente detetáveis. Mais importante: usá-las para gerar secções inteiras é, na maioria das instituições, considerado fraude académica.

O Futuro da IA na Escrita Académica: O Que Esperar

O cenário atual é de transição. A era da “zona cinzenta” está a terminar. Universidades em todo o mundo desenvolvem políticas explícitas sobre uso de IA em trabalhos académicos.

Espera-se que nos próximos anos todas as instituições de ensino superior tenham políticas publicadas, a declaração de uso de IA se torne obrigatória em todas as submissões, e sejam criadas categorias claras de uso “permitido” vs. “proibido”.

A próxima geração de ferramentas vai focar-se na rastreabilidade — IA que automaticamente liga cada afirmação à fonte original, histórico de interações disponível para auditoria, e integração nativa com bases de dados académicas verificadas.

Aqui está a ironia final: num futuro próximo, saber usar IA de forma ética e eficaz será uma competência valorizada, não um estigma. Orientadores vão preferir estudantes que conhecem as ferramentas disponíveis, sabem os limites éticos e práticos, e conseguem aumentar produtividade sem comprometer qualidade.

Como Usar Ferramentas de IA Na Tua Tese Sem Arriscar Tudo

Depois de tudo o que discutimos, aqui está a síntese prática — uma checklist que pode salvar a tua tese.

Ilustração de uma checklist com marcas de verificação, rodeada por símbolos de lâmpada, livro e colaboração, representando o uso ético de IA
O uso responsável de IA segue um processo organizado e transparente.

✅ Checklist: Uso Seguro de IA na Tese

  1. Nunca copies/coles texto gerado por IA — usa como rascunho ou ponto de partida
  2. Verifica todas as fontes citadas pela IA manualmente antes de incluir
  3. Declara o uso de IA ao teu orientador e na submissão final
  4. Usa ferramentas de gestão de referências (Zotero, Paperpile) para garantir rastreabilidade
  5. Passa o texto final por ti — a voz autoral é insubstituível e a banca nota
  6. Consulta o regulamento da tua universidade sobre IA antes de começar
  7. Documenta o teu processo — guarda prompts e interações relevantes
  8. Revê criticamente tudo o que a IA sugere — erros são responsabilidade tua

Esta checklist não é apenas uma lista de regras — é a diferença entre usar ferramentas de IA para escrita de tese académica como um profissional responsável ou como alguém que corre riscos desnecessários.

A verdade oculta mais importante? A IA é uma ferramenta, não um atalho. Usada com consciência, pode acelerar o teu trabalho e melhorar a qualidade. Usada sem critério, pode destruir anos de esforço num instante. A escolha é tua.


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