Escrita Académica em Português: 15 Erros Comuns em Teses e Como Corrigi-los
A escrita académica em português tem regras próprias — mais formais, mais precisas e mais exigentes do que a escrita jornalística ou coloquial. Mas o problema é que ninguém as ensina de forma sistemática. Resultado: as mesmas falhas repetem-se tese após tese, relatório após relatório, e os júris e orientadores corrigem as mesmas coisas ano após ano. Este artigo reúne os 15 erros mais apontados por orientadores e júris em dissertações e teses portuguesas — com exemplos do erro, da correção e da regra subjacente.
Para uma base mais sólida na escrita académica, consulte o nosso artigo sobre escrita académica — regras e boas práticas. Este artigo foca-se especificamente nos erros mais difíceis de detetar.
Erros de registo: linguagem informal na tese
A tese deve ser escrita num registo formal. Estes são os 5 erros de registo mais comuns:
Erro 1: Contrações e expressões coloquiais
| Errado | Correto |
|---|---|
| “é muito importante…” | “assume particular relevância…”, “constitui um elemento central…” |
| “como foi dito” | “conforme referido anteriormente”, “tal como mencionado” |
| “a coisa mais importante é…” | “o principal contributo reside em…”, “o elemento determinante é…” |
| “e também” | “adicionalmente”, “além disso”, “acrescente-se que” |
| “mas” no início de frase | “Contudo”, “No entanto”, “Todavia” |
Erro 2: Uso da primeira pessoa no singular
O debate sobre a voz em escrita académica mudou. A APA 7 permite e até recomenda o uso da primeira pessoa (“eu fiz”, “neste estudo, examinei”) para evitar a voz passiva forçada. No entanto, em Portugal, muitas faculdades ainda preferem a terceira pessoa ou a primeira do plural (“este estudo analisa…”, “os autores propõem…”). Confirme a preferência do seu orientador e seja consistente.
Erro 3: Adjetivos avaliativos sem suporte
Errado: “Este método é excelente para…” — o adjetivo “excelente” é avaliativo e subjetivo. Precisa de suporte empírico.
Correto: “Este método apresenta uma taxa de fiabilidade superior a 90 % em estudos de validação (Smith & Jones, 2023), o que o torna adequado para…”
Erros de estrutura: parágrafos sem coesão
Erro 4: Parágrafos sem frase tópico
Cada parágrafo académico deve ter uma frase tópico — a primeira frase que anuncia o assunto do parágrafo. O restante do parágrafo desenvolve, exemplifica ou fundamenta essa frase.
Errado: Um parágrafo que começa com um exemplo ou dado estatístico sem introdução conceptual.
Correto: “A motivação intrínseca correlaciona-se positivamente com o desempenho académico. Segundo uma meta-análise de Ryan e Deci (2020) que incluiu 147 estudos e 68.000 participantes, a correlação média é r = .43. Este efeito é particularmente robusto em contextos educativos com elevada autonomia do estudante.”
Erro 5: Transições pobres entre parágrafos
Os parágrafos não devem ser ilhas — devem fluir. Use conectores de transição que mostrem a relação lógica entre ideias:
- Adição: “Além do exposto…”, “Acrescente-se ainda que…”, “De igual modo…”
- Contraste: “Em contraposição…”, “Apesar disso…”, “Não obstante…”
- Causa: “Em consequência…”, “Daqui decorre que…”, “Por esta razão…”
- Exemplificação: “A título de exemplo…”, “Ilustrando este ponto…”, “Nomeadamente…”
- Síntese: “Em suma…”, “Em síntese…”, “Os dados apresentados sugerem que…”
Erro 6: Parágrafos demasiado longos ou curtos
Um parágrafo académico deve ter entre 100 e 250 palavras. Parágrafos com apenas 1 a 2 frases indicam desenvolvimento insuficiente de uma ideia. Parágrafos com mais de 400 palavras devem ser divididos em subcategorias ou subdivididos com marcador lógico.
Erros de citação: patchwriting e citação excessiva
Erro 7: Patchwriting (pseudo-paráfrase)
O patchwriting é a prática de substituir palavras de uma citação por sinónimos, mantendo a estrutura frásica original. É considerado uma forma de plágio e é detetado pelos sistemas antiplágio modernos.
Original (Smith, 2023): “Motivation is a key factor in academic achievement, as students with higher intrinsic motivation tend to perform better in examinations.”
Patchwriting (errado): “A motivação é um fator crucial no desempenho académico, pois alunos com maior motivação intrínseca tendem a ter melhores resultados nos exames.”
Paráfrase correta: “De acordo com Smith (2023), a relação entre motivação interna e rendimento escolar é consistente: estudantes orientados por objetivos pessoais apresentam vantagem nos momentos de avaliação formal.”
Erro 8: Citação direta em excesso
Em ciências sociais, ciências da saúde e gestão, as citações diretas longas (mais de 40 palavras) devem ser raras — reservadas para definições canónicas ou textos fundadores do campo. O padrão é parafrasear e citar. Uma tese com mais de 10 % de citações diretas no texto sugere falta de apropriação do conteúdo pelo autor.
Erro 9: Citação sem discussão
Citar um autor e não comentar a relevância para o seu argumento é um dos erros mais apontados por júris. Cada citação deve ser acompanhada de uma frase que explique porque é relevante para o seu ponto.
Errado: “A liderança transformacional correlaciona-se positivamente com o desempenho organizacional (Bass & Avolio, 1994).”
Correto: “Bass e Avolio (1994) demonstraram que a liderança transformacional se correlaciona positivamente com o desempenho organizacional — uma descoberta que sustenta a hipótese central deste estudo de que os líderes da amostra partilham características transformacionais.”
Uso abusivo de voz passiva
Erro 10: Voz passiva desnecessária que obscurece o agente
A voz passiva é útil quando o agente é desconhecido, irrelevante ou demasiado óbvio. Usá-la em excesso torna o texto pesado e ambíguo.
Voz passiva desnecessária: “Os dados foram recolhidos por meio de questionário e foram analisados com recurso ao SPSS.”
Ativa (mais claro): “Recolhemos os dados por questionário e analisámos com SPSS.” OU (terceira pessoa): “O investigador recolheu os dados por questionário e analisou-os com SPSS.”
Imprecisão terminológica
Erro 11: Usar “dados” e “informação” indiscriminadamente
Em metodologia científica: dados são os valores brutos recolhidos (números, respostas); informação é o resultado do processamento e interpretação dos dados. Não são intercambiáveis.
Erro 12: “Estudo” vs. “investigação” vs. “pesquisa”
Em Portugal, prefere-se “investigação” a “pesquisa” (que é mais comum no Brasil). “Estudo” é neutro e aceitável em ambos os contextos. “Pesquisa” não é errado, mas pode parecer informal em teses de universidades portuguesas.
Erro 13: Referir teorias sem especificar a versão ou o autor
“A Teoria da Motivação” é ambígua — existem dezenas. Seja específico: “A Teoria da Autodeterminação (Ryan & Deci, 2000)” ou “A Teoria das Necessidades de Maslow (1943)”.
Erros gramaticais frequentes em português académico
Erro 14: Concordância verbal em estruturas complexas
Errado: “Os resultados desta análise, bem como das análises precedentes, demonstra que…”
Correto: “Os resultados desta análise, bem como das análises precedentes, demonstram que…” — o sujeito principal é plural.
Erro 15: “O qual” vs. “que” vs. “o que”
“O qual” (e variantes: a qual, os quais, as quais) refere-se a um antecedente específico quando há risco de ambiguidade. “Que” é relativo geral. “O que” é neutro e refere-se a uma ideia ou ação, não a um substantivo concreto.
Exemplo: “O investigador aplicou o questionário, o qual foi validado previamente.” (correto — o qual = o questionário).
“O investigador aplicou o questionário, o que aumentou a validade do estudo.” (correto — o que = o facto de ter aplicado o questionário).
Como rever a sua própria escrita
Rever a própria escrita é difícil porque o cérebro lê o que acha que escreveu, não o que está escrito. Estas estratégias ajudam:
- Leitura em voz alta: os erros de fluidez, repetições e frases longas demais tornam-se imediatamente evidentes
- Deixar “arrefecer” antes de rever: aguarde pelo menos 24 horas após escrever antes de rever — o distanciamento temporal é fundamental
- Rever por camadas: primeiro estrutura (parágrafos e secções), depois argumentação (cada afirmação está sustentada?), depois linguagem (registo, gramática)
- Usar o antiplágio como ferramenta de revisão: o Tesify Antiplágio não só detetar plágio como ajuda a identificar zonas de patchwriting
Para mais recursos sobre escrita de teses, veja o nosso artigo sobre referências bibliográficas e o guia de normas APA.
Perguntas frequentes
Posso usar “eu” numa tese em português?
Depende da universidade e do orientador. A APA 7 (2019) recomenda o uso da primeira pessoa para evitar frases passivas forçadas. No entanto, em Portugal, a maioria dos orientadores ainda prefere a terceira pessoa ou formas impessoais (“o presente estudo analisa…”, “os dados sugerem…”). Confirme a preferência com o orientador antes de começar a escrever e seja absolutamente consistente ao longo de todo o documento.
Qual o número de palavras recomendado para uma dissertação de mestrado em Portugal?
A maioria das universidades portuguesas define entre 15.000 e 30.000 palavras para dissertações de mestrado (excluindo referências, anexos e índices). Programas mais técnicos (Engenharia, Matemática) tendem a aceitar dissertações mais curtas; programas de Ciências Sociais e Humanidades tendem para o limite superior. Verifique sempre o regulamento específico do seu programa — o limite varia significativamente por instituição e área.
É correto usar reticências (…) em escrita académica?
Em escrita académica, as reticências só devem ser usadas para indicar omissão dentro de uma citação direta: “[…] quando incorporadas numa citação, as reticências entre parêntesis retos indicam que o autor omitiu parte do texto original”. Fora das citações, as reticências são consideradas informais e não devem aparecer em teses ou dissertações.
Qual o comprimento ideal de uma frase em escrita académica?
Não existe um comprimento único ideal, mas frases com mais de 40 palavras são frequentemente difíceis de seguir e devem ser divididas. A APA 7 recomenda variar o comprimento das frases para melhorar a legibilidade. Uma boa regra prática: se precisar de reler uma frase duas vezes para compreendê-la, é demasiado longa.
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O Tesify Antiplágio deteta plágio, patchwriting e citações mal formatadas — e sugere reformulações para tornar a sua escrita mais original e academicamente rigorosa.