Depois de 18 meses a trabalhar na tua dissertação, imagina receber um email da secretaria a dizer que a submissão foi recusada. O motivo? O resumo.
Parece absurdo, não é? Afinal, são apenas 300 palavras num trabalho de dezenas de páginas. No entanto, esta é a realidade que assola centenas de estudantes portugueses todos os anos. Dados de várias universidades indicam que cerca de 15% a 25% das primeiras submissões são devolvidas por problemas nos elementos pré-textuais — e o resumo lidera esta lista negra.
Na nossa experiência a apoiar centenas de estudantes de mestrado e doutoramento em Portugal, identificámos um padrão preocupante: o mesmo erro fatal aparece em mais de 60% dos resumos rejeitados. E o mais frustrante? É um erro que leva menos de uma hora a corrigir — se souberes identificá-lo.

Lembro-me de um caso que me marcou profundamente. A Mariana (nome fictício para proteger a privacidade) era uma estudante brilhante de Psicologia no Porto. Entregou a sua dissertação com três meses de antecedência, confiante de que tudo estava perfeito. Três semanas depois, recebeu a temida notificação: “Resumo não conforme com as normas vigentes.” Resultado? Perdeu a data de defesa, atrasou a entrega em 3 meses e quase perdeu uma oportunidade de emprego que exigia o grau concluído.
O erro fatal mais comum no resumo de tese académica é escrever um resumo indicativo (que apenas descreve o tema) em vez de um resumo informativo (que apresenta objetivos, metodologia, resultados e conclusões). Este erro, segundo a NBR 6028:2021, invalida o resumo para fins académicos e pode atrasar a defesa em semanas ou meses.
Neste guia completo, vais descobrir exatamente qual é este erro, por que acontece com tanta frequência, e — mais importante — como corrigi-lo com um método passo-a-passo validado pelas normas mais recentes. Também te mostro como outros erros na estrutura da tese podem comprometer o teu trabalho, tema que aprofundamos no nosso artigo sobre erros críticos em resumos de doutoramento.
Preparado para garantir que o teu resumo não te atrasa? Vamos a isso.
O Que Define um Resumo Académico e Por Que Ele Decide Tudo
Antes de mergulharmos no erro fatal, precisamos estabelecer uma base sólida. Afinal, não podes corrigir o que não compreendes verdadeiramente. E acredita: a maioria dos estudantes nunca aprendeu formalmente a escrever um resumo de tese — simplesmente assume que sabe.
A NBR 6028:2021 é cristalina na distinção entre tipos de resumo. Pensa nisto como a diferença entre um trailer de filme e uma crítica cinematográfica:
| Tipo de Resumo | Função | Aceite em Teses? |
|---|---|---|
| Indicativo | Descreve o tema sem revelar resultados | ❌ |
| Informativo | Apresenta objetivo, método, resultados e conclusões | ✅ |
| Crítico | Inclui análise avaliativa do autor | ❌ |
Para dissertações e teses, apenas o resumo informativo é aceite. Ponto final. Isto não é uma sugestão ou preferência — é uma exigência normativa que, se ignorada, resulta em devolução automática do trabalho.

Segundo orientações de universidades de referência, incluindo a University of South Florida, um resumo académico completo deve conter:
- Problema/Propósito da investigação — O que motivou o estudo e qual a questão central
- Racional teórico — Enquadramento conceptual que sustenta a investigação
- Metodologia — Como foi conduzido o estudo (tipo, amostra, instrumentos)
- Resultados principais — O que se descobriu (com dados, sempre que possível)
- Conclusões e implicações — O que significa e para que serve
Se faltar qualquer um destes elementos, o teu resumo está incompleto. Se tiveres apenas os dois primeiros, estás a escrever um resumo indicativo — o erro fatal que discutiremos em detalhe.
Deixa-me ser brutalmente honesto contigo: muitos avaliadores decidem a sua impressão inicial da tua tese lendo apenas o resumo. Não é justo? Talvez. Mas é a realidade académica.
Um resumo mal escrito não apenas atrasa a tua defesa — compromete a visibilidade futura do teu trabalho. Se estás a pensar em carreira académica, isto é particularmente crítico. Para garantir que o teu resumo alinha com a estrutura global da tese, consulta também o nosso guia completo para terminar a tese mais rápido.
Por Que Tantos Resumos Estão a Ser Devolvidos em 2025
Há algo estranho a acontecer nas universidades portuguesas em 2025. Estudantes que seguiram “à risca” modelos de colegas mais velhos estão a ver os seus trabalhos devolvidos. Orientadores experientes estão confusos com novas exigências. O que mudou?
Em maio de 2021, a ABNT atualizou a NBR 6028 com mudanças que pegaram muita gente desprevenida. E o mais problemático: muitos estudantes em 2025 ainda estão a usar modelos de 2018 ou 2019.
As principais alterações incluem:
- Separação de palavras-chave: Agora usa-se ponto e vírgula (;), não vírgula
- Eliminação de ambiguidades: Definição mais clara do que constitui resumo informativo
- Requisitos de extensão: Reforço dos limites de 150-500 palavras para teses
Parece um detalhe menor, certo? Errado. Palavras-chave separadas por vírgula podem fazer o teu resumo ser devolvido para correção em muitas instituições que aplicam as normas rigorosamente.
Existe uma tradição perigosa no meio académico português: passar modelos de tese de colega para colega, de geração para geração. Embora a intenção seja boa, o resultado é devastador quando as normas mudam. Identificámos que mais de 70% dos estudantes que apoiamos começaram com modelos desatualizados.
Este problema de modelos desatualizados também afeta outras partes da tese. Se quiseres verificar se a tua formatação está em dia, recomendo o nosso artigo sobre formatação académica para iniciantes.
Vídeo explicativo sobre a diferença entre resumo e resenha — um erro comum é confundir estes géneros textuais
O Erro Fatal Revelado: A Análise Que Precisas de Ler
Chegou o momento de dissecar o problema que tens vindo a esperar. Depois de analisar centenas de resumos rejeitados, posso afirmar com confiança: existe um erro que aparece em mais de 60% dos casos. E provavelmente estás a cometê-lo agora mesmo.
O erro fatal é surpreendentemente simples de descrever, mas persistentemente difícil de evitar: escrever um resumo que descreve o trabalho em vez de resumir os seus resultados.

Deixa-me mostrar-te a diferença com um exemplo concreto. O resumo indicativo diz coisas como “Este estudo analisa o impacto das redes sociais na ansiedade de jovens universitários. São apresentadas diferentes perspetivas teóricas sobre o tema.” Parece profissional, mas não diz nada sobre o que realmente descobriste.
Já o resumo informativo correto apresenta dados: “Este estudo investigou o impacto das redes sociais na ansiedade de 342 universitários portugueses. Através de questionário validado (BAI), identificou-se correlação positiva significativa (r=0.67, p<0.001) entre uso diário superior a 3 horas e níveis elevados de ansiedade."
Consegues ver a diferença? O primeiro exemplo fala sobre o estudo. O segundo resume o estudo. É a diferença entre dizer “vou contar-te uma história sobre um dragão” e realmente contar a história do dragão.
O erro fatal raramente vem sozinho. Quase sempre é acompanhado por três “filhos” igualmente problemáticos:
Ausência de resultados quantificáveis: “Os resultados foram positivos” não significa nada. “Os resultados mostraram melhoria de 34% no grupo experimental” significa tudo. Se a tua investigação produziu dados, eles precisam de aparecer no resumo.
Metodologia vaga ou inexistente: Compara “Foi feita pesquisa bibliográfica e entrevistas” com “Realizou-se revisão sistemática em 3 bases de dados (n=127 artigos) complementada por 12 entrevistas semiestruturadas a especialistas.” A segunda versão permite ao leitor avaliar a robustez do teu método.
Conclusões genéricas: “Concluiu-se que o tema é importante e merece mais investigação” aparece em 40% dos resumos que revemos. É o equivalente académico de dizer “o filme foi bom.” Que filme? Bom em quê? Para quem?
A introdução da tese muitas vezes sofre do mesmo problema de genericidade. Para garantir consistência entre resumo e introdução, consulta o nosso guia sobre erros de introdução que reprovam dissertações.
Checklist de Auto-Diagnóstico
Usa esta lista para avaliar o teu resumo atual. Se responderes “não” a mais de duas perguntas, tens um problema sério:
- ☐ O resumo menciona especificamente o objetivo da investigação?
- ☐ A metodologia está identificada (tipo de estudo, amostra, instrumentos)?
- ☐ Os resultados principais estão quantificados ou claramente descritos?
- ☐ As conclusões respondem diretamente ao objetivo inicial?
- ☐ O resumo tem entre 150-500 palavras?
- ☐ As palavras-chave estão separadas por ponto e vírgula?
- ☐ Evitou-se citações diretas e referências bibliográficas no resumo?
Segue este esqueleto para nunca mais errares:
[CONTEXTO – 1-2 frases] Estabelecer o problema/lacuna de investigação
[OBJETIVO – 1 frase] Declarar claramente o que a investigação pretendeu
[METODOLOGIA – 2-3 frases] Descrever abordagem, amostra, instrumentos
[RESULTADOS – 2-4 frases] Apresentar descobertas principais com dados
[CONCLUSÕES – 1-2 frases] Sintetizar contribuição e implicações
[PALAVRAS-CHAVE] termo1; termo2; termo3; termo4; termo5
Depois de corrigir o resumo, garante que a estruturação da introdução conta a mesma história — a coerência entre estas duas secções é fundamental.
Para além do erro fatal de conteúdo, existem erros de formatação que parecem insignificantes mas geram devoluções imediatas: palavras-chave com vírgula em vez de ponto e vírgula, resumo e abstract com informações diferentes, exceder o limite de palavras da instituição, usar citações dentro do resumo, ou incluir abreviaturas não definidas no corpo principal da tese.
Outros elementos “pequenos” que reprovam incluem a lista de abreviaturas e a distinção entre apêndice e anexo. São detalhes que a maioria ignora — até serem motivo de devolução.
O Futuro da Avaliação de Resumos Académicos
O mundo académico está a mudar rapidamente. O que hoje é “apenas uma recomendação” amanhã será exigência absoluta. Deixa-me partilhar contigo as tendências que estamos a observar — e como te podes preparar.

Várias universidades europeias já estão a implementar sistemas automatizados de verificação de conformidade. Antes de um humano sequer olhar para a tua tese, um algoritmo verifica se o resumo tem a extensão correta, se as palavras-chave estão formatadas corretamente, se existem os elementos obrigatórios, e se não há citações ou referências indevidas.
A implicação é clara: resumos fora do padrão serão rejeitados automaticamente antes de chegarem à banca. Não haverá margem para “explicar” ou “justificar” — o sistema diz não, e acabou.
Prevemos também um aumento significativo de requisitos de abstract em 2-3 idiomas nas universidades portuguesas. Algumas já exigem português e inglês; outras estão a adicionar espanhol para programas ibéricos. Isto significa que precisas de dominar tanto as normas ABNT quanto as normas APA — os erros que já reprovam hoje serão ainda mais penalizados no futuro.
Com a crescente importância de métricas académicas (citações, h-index, visibilidade), o resumo torna-se cada vez mais crucial. Um resumo bem escrito aparece corretamente em buscas do RCAAP e Google Scholar, atrai mais leitores para o trabalho completo, e aumenta a probabilidade de citação. Resumos mal escritos são praticamente invisíveis nas bases de dados.
Como Corrigir Este Erro Hoje: O Teu Plano de Ação
Chegámos ao momento mais importante deste artigo: a ação. Saber o que está errado não vale nada se não corrigires. Aqui está o teu plano em três passos:
Passo 1 – Diagnóstico (30 minutos): Pega no teu resumo atual e usa o checklist de auto-diagnóstico acima. Marca honestamente cada item. Se tiveres mais de 2 “nãos”, precisas de reescrever.
Passo 2 – Correção (2-4 horas): Usando o modelo comentado que partilhei, reescreve o teu resumo do zero. Não tentes “remendar” — começa de novo. Garante que cada frase acrescenta informação concreta.
Passo 3 – Validação (1-2 dias): Verifica o regulamento específico da tua instituição. Pede feedback ao teu orientador. Se possível, mostra a um colega de outra área — se ele conseguir perceber o que fizeste e descobriste, o resumo está bom.
O tempo que investires agora a corrigir o resumo vai poupar-te semanas de frustração mais tarde. Uma hora de revisão hoje pode significar a diferença entre defender em julho ou em outubro.
Não deixes que 300 palavras mal escritas destruam 18 meses de trabalho árduo. O teu futuro académico e profissional merece esse cuidado extra.




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