Dados Judiciais para a Tese: Onde Estão os Números dos Tribunais Portugueses (2026)

Dados Judiciais para a Tese: Onde Estão os Números dos Tribunais Portugueses (2026)

Há uma diferença entre uma tese que argumenta que os tribunais portugueses são morosos e uma tese que demonstra quanto. A primeira cita doutrina e notícias; a segunda usa séries estatísticas. Quem tenta fazer a segunda descobre depressa que a jurisprudência é fácil de encontrar e os números não — porque estão noutro sítio, com outra lógica e outro vocabulário.

Este guia mostra onde estão as estatísticas judiciais portuguesas, que séries existem de facto, e quais os erros de interpretação que estragam análises que de resto estariam certas. Se o que procura são decisões e não números, o caminho é outro — está no nosso guia sobre como pesquisar jurisprudência no DGSI.

Resposta rápida: As estatísticas oficiais da justiça são da responsabilidade da Direção-Geral da Política de Justiça (DGPJ), do Ministério da Justiça, e há séries suas publicadas no catálogo nacional de dados abertos — movimento de processos nos tribunais judiciais superiores, recursos cíveis e penais findos, custas pagas, pessoal ao serviço. O Instituto Nacional de Estatística publica indicadores complementares, como a taxa de resolução processual e o número de juízes. Antes de analisar, distinga sempre entrados, findos e pendentes: são três coisas diferentes.

Quem produz as estatísticas da justiça

A DGPJ é o serviço do Ministério da Justiça que atua, entre outras áreas, no domínio da informação estatística na área da Justiça, a par do planeamento estratégico, dos meios de resolução alternativa de litígios e das relações internacionais. É, portanto, a entidade a citar como autor institucional quando usar séries judiciais oficiais.

Na prática, encontrará dados de duas proveniências, e convém não as misturar sem pensar:

  • Séries da DGPJ — produzidas a partir dos sistemas de informação dos tribunais. São as que descrevem o funcionamento interno da justiça: processos, recursos, custas, pessoal.
  • Indicadores do INE — que integram estatísticas da justiça no sistema estatístico nacional, frequentemente em formato de indicador já calculado.

A distinção importa porque um mesmo fenómeno pode aparecer nas duas fontes com definições ligeiramente diferentes. Se as combinar na mesma tabela sem verificar as definições, produzirá uma inconsistência que a banca notará antes de si.

Que séries existem

Consultando o catálogo nacional de dados abertos em agosto de 2026, uma pesquisa por «justiça» devolvia 88 conjuntos de dados e por «tribunais» 50. Entre as séries publicadas pela DGPJ encontram-se, com estes títulos:

  • Movimento de processos nos tribunais judiciais superiores
  • Recursos cíveis findos nos tribunais judiciais superiores
  • Recursos penais findos nos tribunais judiciais superiores
  • Custas pagas nos tribunais
  • Pessoal ao serviço nos tribunais a 31 de dezembro
  • Movimento de processos no Tribunal de Justiça da União Europeia
  • Justiça no mapa

Do lado do INE, aparecem indicadores como taxa de resolução processual, juízes/as (N.º) e a respetiva proporção, tribunais judiciais (N.º), tribunais administrativos e fiscais (N.º), pessoal ao serviço na justiça e séries de criminalidade, como crimes de homicídio voluntário consumado (N.º).

Repare no que esta lista permite e no que não permite. Permite caracterizar volume, fluxo, recursos humanos e custos. Não permite acompanhar processos individuais nem cruzar características das partes com desfechos — para isso seria necessário acesso a dados que não são públicos. Definir cedo o que é possível evita desenhar uma tese em torno de uma pergunta sem dados.

Os três indicadores que não se confundem

Representação do fluxo de processos judiciais entre entrados, findos e pendentes
Entrados e findos são fluxos medidos num período; pendentes é um stock medido numa data. Somá-los ou compará-los diretamente produz conclusões erradas.

Esta é a distinção que separa uma análise correta de uma análise que parece correta:

  • Processos entrados — quantos deram entrada durante um período. É um fluxo, e mede procura dirigida ao tribunal.
  • Processos findos — quantos terminaram durante um período. Também é um fluxo, e mede capacidade de resposta.
  • Processos pendentes — quantos estavam por concluir numa data concreta. É um stock, resultado acumulado do desequilíbrio entre os dois fluxos anteriores.

Consequências práticas. Um aumento de processos findos pode significar maior produtividade — ou apenas que entraram mais processos. Uma descida de pendentes pode refletir mais decisões — ou uma alteração de regras de contagem. E a taxa de resolução processual, que relaciona findos com entrados, aproxima-se de cem por cento quando o sistema apenas acompanha a procura, sem recuperar atraso acumulado. Interpretá-la como sinal de eficiência sem olhar para os pendentes é um erro comum.

Uma nota adicional sobre a unidade de contagem: o processo não equivale ao caso nem à pessoa. Um mesmo litígio pode gerar vários processos, e um processo pode envolver várias partes. Escrever «X portugueses recorreram ao tribunal» a partir de contagens de processos é uma inferência que os dados não sustentam.

Perguntas de tese que estes dados suportam

  1. Morosidade e recuperação de pendências. Como evoluiu a relação entre entrados, findos e pendentes numa jurisdição ao longo de um período?
  2. Recurso como filtro. Que volume de recursos cíveis e penais chega aos tribunais superiores, e como evoluiu?
  3. Custo do acesso à justiça. Como evoluíram as custas pagas, e o que isso sugere sobre barreiras económicas ao acesso?
  4. Recursos humanos. Que relação existe entre o pessoal ao serviço e o volume processual?
  5. Justiça europeia. Como se compara o movimento de processos no Tribunal de Justiça da União Europeia com o dos tribunais nacionais?

Qualquer uma delas é uma tese empírica em Direito — uma abordagem menos comum em Portugal do que a dogmática, e por isso mesmo com espaço para contributos originais. Sobre como enquadrar metodologicamente uma investigação jurídica empírica, veja o nosso guia sobre metodologia de investigação em Direito, que trata da distinção entre abordagem dogmática e zetética.

Erros de interpretação frequentes

  • Ignorar reformas do mapa judiciário. Reorganizações alteram o número e a área de competência dos tribunais. Uma série que atravesse uma reforma pode mostrar «quedas» que são apenas reclassificação. Verifique a nota técnica antes de interpretar um salto.
  • Comparar jurisdições sem ajustar. Um tribunal administrativo e um juízo criminal têm tempos de tramitação estruturalmente diferentes. Comparações entre jurisdições exigem justificação explícita.
  • Confundir duração média com duração mediana. A duração dos processos é fortemente assimétrica: alguns casos muito longos puxam a média para cima. Verifique qual medida a fonte publica antes de escrever «o processo típico demora».
  • Tratar valores em euros ao longo do tempo sem deflacionar. Séries de custas ao longo de vários anos exigem correção pela inflação, com o índice e o ano-base identificados.
  • Assumir que criminalidade registada é criminalidade real. As séries de crimes medem o que é participado e registado; variações podem refletir mudanças de propensão à denúncia, e não do fenómeno.

Como em qualquer fonte administrativa, guarde o ficheiro original sem edições, registe a data de descarregamento e cite a entidade produtora — a DGPJ ou o INE — e não o catálogo onde encontrou o conjunto. Os critérios gerais para avaliar se um conjunto de dados serve à sua pergunta estão reunidos no nosso guia sobre como encontrar e avaliar dados abertos portugueses.

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Perguntas frequentes

Quem produz as estatísticas oficiais da justiça em Portugal?

A Direção-Geral da Política de Justiça, do Ministério da Justiça, que atua no âmbito da informação estatística na área da Justiça, além do planeamento estratégico, dos meios de resolução alternativa de litígios e das relações internacionais. O Instituto Nacional de Estatística publica indicadores complementares dentro do sistema estatístico nacional.

Qual a diferença entre processos entrados, findos e pendentes?

Entrados e findos são fluxos medidos ao longo de um período — quantos deram entrada e quantos terminaram. Pendentes é um stock medido numa data concreta, resultante da acumulação do desequilíbrio entre os dois fluxos. São grandezas diferentes e não devem ser somadas nem comparadas diretamente.

A taxa de resolução processual mede eficiência?

Mede a relação entre processos findos e entrados num período. Um valor próximo de cem por cento significa que o sistema está a acompanhar a procura, mas não que esteja a recuperar atraso acumulado. Para avaliar recuperação é necessário observar a evolução dos pendentes em paralelo.

Posso obter dados sobre processos individuais?

Não através destas séries, que são agregadas. Permitem caracterizar volumes, fluxos, custos e recursos humanos, mas não acompanhar processos concretos nem cruzar características das partes com desfechos. Perguntas desse tipo exigiriam acesso a dados não públicos, com autorização própria.

As séries de criminalidade medem a criminalidade real?

Medem criminalidade registada, ou seja, o que foi participado e registado pelas autoridades. Variações podem refletir alterações na propensão à denúncia, em campanhas de sensibilização ou em procedimentos de registo, e não necessariamente no fenómeno em si. Essa distinção deve constar da discussão da tese.

Uma reforma judiciária estraga a minha série temporal?

Pode introduzir quebras de comparabilidade, porque reorganizações alteram o número de tribunais e as respetivas competências. Antes de interpretar um salto na série, verifique a nota técnica da fonte para confirmar se corresponde a variação real ou a reclassificação, e assinale a quebra no texto.

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