Passaste quatro anos da tua vida a investigar. Tens 300 páginas escritas, dezenas de noites em claro, centenas de artigos lidos. Mas aqui está uma verdade que poucos orientadores te dizem de forma direta: a banca vai lembrar-se principalmente das últimas 10 páginas da tua tese.
Parece injusto? Talvez. Mas é a realidade do mundo académico. A conclusão de uma tese de doutoramento funciona como o último sabor que fica na boca depois de uma refeição elaborada. Podes ter cozinhado um prato extraordinário, mas se a sobremesa for desastrosa, é isso que ficará na memória.
Estudos recentes sobre práticas académicas em Portugal indicam que aproximadamente 35% das teses que recebem revisões obrigatórias apresentam problemas significativos no capítulo de conclusões. Não estamos a falar de teses mal investigadas ou metodologicamente frágeis — estamos a falar de trabalhos sólidos que tropeçam na linha de chegada.
O que são conclusões de tese de doutoramento?
As conclusões constituem o capítulo final onde o investigador sintetiza as respostas às questões de investigação, demonstra as contribuições originais do trabalho, reconhece limitações e propõe direções para investigação futura. É o momento de provar que a tese cumpriu os seus objetivos e que tu, enquanto investigador, dominas o tema de forma madura e reflexiva.
Neste artigo, não vais encontrar teoria abstrata. Vais encontrar estrutura clara, elementos obrigatórios detalhados, e exemplos reais de conclusões de universidades portuguesas que podes analisar e adaptar. É exatamente o tipo de recurso que eu gostaria de ter tido quando escrevi a minha primeira tese — e que agora partilho contigo depois de décadas a observar o que funciona e o que falha.
Se estás a sentir aquela ansiedade típica de quem sabe que o fim está próximo mas não sabe bem como fechar com chave de ouro, respira fundo. Vamos resolver isto juntos.
Para compreenderes melhor onde a conclusão se encaixa na estrutura global do teu trabalho, recomendo que leias também o nosso artigo sobre Estrutura de Tese de Doutoramento: 7 Erros Fatais.
O Que Distingue uma Conclusão Excelente de uma Medíocre
Antes de mergulharmos nos exemplos práticos, precisamos de estabelecer um terreno comum. O que é que transforma uma conclusão “aceitável” numa conclusão que faz a banca acenar com a cabeça em aprovação?
A diferença não está no número de páginas nem na sofisticação do vocabulário. Está na clareza com que demonstras que cumpriste o que prometeste fazer. Simples assim — e complexo assim.

Após analisar centenas de teses aprovadas com distinção e louvor em universidades portuguesas, identifiquei cinco elementos que nunca podem faltar:
- Retomada clara dos objetivos e questões de investigação — O leitor precisa de ver, de forma explícita, quais eram as perguntas e como foram respondidas.
- Síntese dos principais resultados — Atenção: síntese interpretativa, não repetição. A banca já leu os resultados; aqui quer ver a tua capacidade de interpretar.
- Contribuições originais para o conhecimento — O que é que a tua tese acrescenta ao campo? Porquê é que este trabalho importa?
- Reconhecimento honesto das limitações — Isto não é fraqueza; é rigor científico e maturidade intelectual.
- Recomendações para investigação futura — Mostra que tens visão e que o teu trabalho abre portas.
Se a tua conclusão tiver estes cinco elementos bem desenvolvidos, já estarás à frente de grande parte dos teus colegas. Se faltar algum, a banca vai notar — e vai perguntar.
Uma das confusões mais comuns entre doutorandos é a diferença entre Discussão, Conclusão e Considerações Finais. Não são a mesma coisa, embora muitas vezes se sobreponham:
| Elemento | Discussão | Conclusão | Considerações Finais |
|---|---|---|---|
| Foco | Interpretação dos resultados | Síntese global | Reflexão pessoal/processo |
| Extensão típica | 15-25 páginas | 5-15 páginas | 3-8 páginas |
| Tom | Analítico | Assertivo | Reflexivo |
| Obrigatório em PT? | Sim | Sim | Opcional (varia por área) |
Segundo o estudo publicado na SciELO sobre Práticas Discursivas em Conclusões de Teses de Doutorado, as conclusões seguem “movimentos retóricos” específicos que variam entre português e inglês, mas mantêm estruturas universais reconhecidas pelas bancas académicas internacionais.
Se queres aprofundar o elemento das contribuições originais — que é talvez o mais difícil de articular —, recomendo a leitura do nosso Guia sobre Originalidade em Teses de Doutoramento.
O Que as Universidades Portuguesas Esperam
Portugal tem as suas particularidades no que toca ao mundo académico. Se estás a fazer um doutoramento numa universidade portuguesa, precisas de compreender essas especificidades — porque os critérios de avaliação não são universais.
Quando falo de “requisitos implícitos”, refiro-me àquilo que não está escrito nos regulamentos mas que todos os júris esperam ver. São essas expectativas não escritas que muitas vezes apanham os doutorandos desprevenidos.
Primeiro: a coerência entre introdução e conclusão. A tua conclusão deve funcionar como o “espelho” da introdução. Se prometeste responder a três questões de investigação na página 15, a banca vai verificar se respondes a essas mesmas três questões nas últimas páginas. Parece óbvio? Acredita: não é incomum encontrar teses onde a conclusão responde a questões diferentes das que foram colocadas inicialmente.
Segundo: demonstração clara de que os objetivos foram cumpridos. Não basta dizer “os objetivos foram atingidos”. Tens de mostrar como foram atingidos, com que evidências, e com que grau de certeza. A banca portuguesa valoriza a precisão.
Terceiro: maturidade na identificação de limitações. Aqui está um ponto onde muitos doutorandos falham por medo. Acham que reconhecer limitações é mostrar fraqueza. Na verdade, é exatamente o contrário. Uma tese sem limitações declaradas parece ingénua — porque todo o trabalho científico tem limitações. A banca quer ver que tens consciência disso e que sabes articulá-lo de forma construtiva.
As expectativas variam significativamente por área científica:
Ciências Exatas e Naturais: Conclusões tipicamente mais curtas (5-8 páginas), focadas na validação de hipóteses, com linguagem precisa e quantificada. A banca espera ver números, margens de erro, e declarações claras sobre o que foi confirmado ou refutado.
Ciências Sociais e Humanas: Conclusões mais extensas (10-15 páginas), com espaço para reflexão epistemológica. Aqui, é esperada uma discussão sobre as implicações teóricas e, cada vez mais, sobre as implicações práticas e sociais do trabalho.
Engenharias: Ênfase forte em aplicações práticas e transferência de conhecimento. A banca quer saber: “Isto pode ser usado para quê? Quem beneficia? Como se implementa?”
O guia do DESIGNLAB (Portugal) oferece uma visão detalhada de como a conclusão se articula com os restantes capítulos no contexto português.
Para um aprofundamento sobre as expectativas normativas em Portugal, consulta também o nosso artigo sobre Estrutura de Teses de Doutoramento em Portugal: 7 Erros a Evitar.
Tendências Atuais na Escrita de Conclusões
O mundo académico não é estático. A forma como se escrevem conclusões tem evoluído significativamente nos últimos anos — e se queres que a tua tese seja relevante e bem recebida, precisas de estar atento a estas mudanças.

Maior exigência de implicações práticas. Há uma década, bastava contribuir para o conhecimento teórico. Hoje, especialmente em Portugal, há uma pressão crescente para demonstrar relevância prática. “E então? Para que serve isto?” — é uma pergunta que as bancas fazem cada vez mais frequentemente.
Crescente valorização da reflexividade metodológica. As bancas já não querem apenas saber o que fizeste; querem saber por que é que fizeste assim e o que farias diferente se pudesses voltar atrás. Esta reflexão sobre o processo é cada vez mais valorizada nas conclusões.
Integração de recomendações para políticas públicas. Especialmente nas ciências sociais, há uma expectativa crescente de que a conclusão inclua sugestões concretas para decisores políticos, gestores ou profissionais da área.
As teses já não vivem apenas em bibliotecas físicas. Estão em repositórios digitais, são indexadas, pesquisadas, e lidas em ecrãs de computador e telemóvel. Isto tem implicações práticas:
Conclusões pensadas para indexação: As palavras-chave que usas na conclusão podem determinar se a tua tese aparece nos resultados de pesquisa ou não. Pensa estrategicamente nos termos que queres que estejam associados ao teu trabalho.
Estruturas mais modulares: Parágrafos mais curtos, subtítulos claros, e uma organização que facilite a leitura em ecrã. Os leitores de hoje fazem “scan” antes de ler em profundidade.
Para uma visão mais abrangente sobre todo o processo de escrita, recomendo o nosso Guia de Escrita de Tese de Doutoramento para Iniciantes.
3 Exemplos Reais de Conclusões Portuguesas
Chegámos à parte que provavelmente mais te interessa: exemplos concretos. Não vou inventar conclusões fictícias — vou analisar estruturas reais de teses aprovadas em universidades portuguesas e explicar o que funciona em cada uma.
Exemplo 1: Ciências Sociais (Sociologia)
As teses de sociologia, antropologia e ciência política em Portugal tendem a seguir uma estrutura muito específica nas conclusões. Analisei várias teses disponíveis no Repositório da Universidade de Lisboa, e identifiquei um padrão recorrente:
🔍 Dica prática: Antes de escreveres a tua conclusão, acede ao Repositório ULisboa e analisa 3-5 conclusões da tua área. Nada substitui a análise de exemplos reais.
Estrutura típica identificada:
- Parágrafo de contextualização inicial (2-3 frases que relembram o problema de investigação)
- Retomada de cada objetivo específico + resposta sintética correspondente
- Secção dedicada a “Contributos para o Conhecimento” (tipicamente 2-4 páginas)
- Limitações apresentadas com tom construtivo (não defensivo, não apologético)
- Agenda de investigação futura (3-5 linhas de pesquisa sugeridas)
A linguagem é assertiva. Frases como “Esta investigação demonstrou que…” ou “Os dados recolhidos permitem afirmar que…” transmitem confiança sem arrogância. Há também uma conexão explícita com o quadro teórico — as conclusões não existem no vazio, mas dialogam com as teorias apresentadas nos primeiros capítulos.
Se tens dificuldades com o quadro teórico, este é um bom momento para consultares o nosso artigo sobre Quadro Teórico: 5 Erros Fatais Que Reprovam Teses.
Exemplo 2: Engenharia e Tecnologia
As conclusões em engenharia são um animal completamente diferente. Mais curtas (5-8 páginas é comum), mais técnicas, mais focadas em validação e aplicação.
Características distintivas:
- Ênfase na validação técnica de hipóteses ou soluções propostas
- Secção específica de “Aplicações e Transferência de Conhecimento”
- Uso frequente de dados quantitativos resumidos
- Linguagem precisa e economizada
“Os resultados obtidos validam a hipótese H1, com uma margem de erro de 3,2%.”
“A metodologia proposta pode ser aplicada em contextos de produção industrial com adaptações mínimas.”
“Recomenda-se investigação adicional para avaliar o comportamento do sistema em condições de temperatura extrema.”
Uma conclusão de engenharia fraca muitas vezes resulta de uma análise de dados mal fundamentada. Se este é um ponto fraco no teu trabalho, consulta o nosso artigo sobre 5 Erros na Análise de Dados da Tese Que Reprovam.
Exemplo 3: Humanidades (História, Filosofia, Literatura)
Nas humanidades, a conclusão assume um caráter mais ensaístico. Não é raro encontrar conclusões de 15-20 páginas em teses de história ou filosofia, com um tom reflexivo e, por vezes, até poético.
- Reflexão sobre o percurso hermenêutico ou interpretativo
- Abertura para questões que a tese não conseguiu — e talvez não pudesse — responder
- Diálogo mais extenso com a tradição e com autores de referência
- Menos “fechamento” e mais “abertura” interpretativa
O guia da Orientação Acadêmica oferece um checklist prático para verificar se a tua conclusão responde à pergunta norteadora — aplicável a qualquer área, mas particularmente útil para quem trabalha nas humanidades onde os limites são menos rígidos.
Erros Que Reprovam: O Que Nunca Fazer
Agora que já vimos o que funciona, é altura de falar do que definitivamente não funciona. Estes são os erros que vejo repetidamente — e que transformam conclusões promissoras em fracassos dolorosos.

- Introduzir informação nova — Resultados, teorias ou dados que não apareceram antes são proibidos na conclusão. Se é importante, devia estar no corpo da tese.
- Repetir a discussão — A conclusão não é um “copy-paste” da discussão. É uma síntese de nível superior.
- Ignorar as limitações — Parece arrogância ou falta de consciência crítica. Nenhuma das duas é boa.
- Desconectar dos objetivos iniciais — Se a conclusão não responde às perguntas da introdução, há um problema estrutural grave.
- Usar conclusões vagas — “Este estudo contribuiu para o conhecimento na área” não diz absolutamente nada. Sê específico.
- Excesso de humildade — “Este modesto trabalho tentou…” transmite insegurança. Tu fizeste um doutoramento; assume o teu trabalho.
- Ausência de direções futuras — Mostra falta de visão e de compreensão do teu próprio campo.
🎧 Recurso adicional: O episódio “Conclusions” (Episode 81) do podcast WriteCast aborda estratégias universais para conclusões académicas — útil para quem prefere aprender a ouvir enquanto faz outras tarefas.
A conclusão escrita é também a base da tua defesa oral. Se cometes erros aqui, vais pagá-los quando estiveres frente à banca. Para te preparares melhor, lê o nosso artigo sobre Erros na Defesa de Tese Que Reprovam Doutorandos.
Da Conclusão Escrita à Defesa Oral
A conclusão não existe isoladamente. Ela é o trampolim para a tua defesa oral — e se não pensares nesta ligação desde o início, vais ter problemas.

Numa defesa típica em Portugal, os primeiros 10-15 minutos são dedicados à tua apresentação inicial. E sabes qual é o conteúdo que mais peso tem nessa apresentação? A síntese das conclusões.
A banca vai testar a coerência entre o que escreveste e o que dizes. Se na tese afirmas que “a hipótese H2 foi parcialmente validada” mas na defesa dizes que “foi totalmente confirmada”, vais ter um problema. A congruência é fundamental.
Prepara 3 frases-chave que resumam cada contribuição original. Estas frases devem ser memoráveis, claras, e defendíveis. Se a banca te interromper, deves conseguir desenvolver qualquer uma delas durante 5 minutos.
Antecipa perguntas sobre limitações. A banca vai perguntar sobre limitações — não porque queiram embaraçar-te, mas porque querem ver maturidade intelectual. Prepara respostas que reconheçam as limitações mas que também expliquem porque fizeste as escolhas que fizeste.
Treina explicar a conclusão em 5 minutos sem ler. Se não consegues resumir o teu próprio trabalho de forma oral e fluida, algo está errado. A conclusão escrita deve ser suficientemente clara para que consigas internalizá-la.
Para um guia completo sobre este momento crucial, consulta o nosso artigo Preparação para Defesa de Tese de Doutorado: 7 Dicas.
Conclusão: O Teu Próximo Passo
A conclusão de uma tese de doutoramento não é apenas o final de um documento — é a demonstração definitiva de que dominaste um tema, que contribuíste para o conhecimento, e que estás pronto para ser reconhecido como investigador independente.
Os cinco elementos que discutimos — retomada dos objetivos, síntese interpretativa, contribuições originais, limitações honestas, e direções futuras — não são opcionais. São a diferença entre uma tese que passa despercebida e uma tese que impressiona.
Agora que tens o mapa, o próximo passo é teu: abre o documento da tua tese, relê a tua introdução, e começa a construir uma conclusão que esteja à altura dos anos de trabalho que investiste.
E se precisares de ajuda adicional? Estamos aqui para isso. A Tesify existe para apoiar doutorandos em todas as fases do processo — desde a estruturação inicial até à revisão final. Porque sabemos que uma tese não se faz sozinho.




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