Como Fazer Questionário para Tese: Design, Escala Likert e Validação

Como Fazer Questionário para Tese: Design, Escala Likert e Validação

O questionário é o instrumento de recolha de dados mais utilizado em teses de mestrado nas ciências sociais, da educação, da saúde e da gestão — e também o mais mal construído. Perguntas ambíguas, escalas inadequadas e ausência de validação são erros que os revisores e os júris de defesa detectam rapidamente e que podem comprometer toda a secção empírica. Este guia ensina como fazer questionário para tese de forma rigorosa, desde a definição dos constructos até à análise da consistência interna com alfa de Cronbach.

Construir um bom questionário é um processo mais demorado do que parece — tipicamente 4 a 6 semanas desde o design inicial até à recolha efectiva de dados. Mas este investimento de tempo paga-se: dados de qualidade produzem resultados sólidos que resistem à revisão científica e sustentam conclusões válidas.

Resposta rápida: Para fazer um questionário para tese válido: (1) defina os constructos a medir com base na revisão de literatura; (2) opte por escalas existentes e validadas sempre que possível; (3) use a escala Likert de 5 ou 7 pontos para medir atitudes e percepções; (4) realize um pré-teste com 5–10 participantes; (5) verifique a fiabilidade com alfa de Cronbach (α ≥ 0.70 é aceitável).

Antes de começar: definir os constructos

Um constructo é um conceito abstracto que não pode ser medido directamente — por exemplo, “satisfação com o trabalho”, “auto-eficácia académica” ou “percepção de qualidade do serviço”. O primeiro passo no design de qualquer questionário é mapear os constructos que pretende medir e operacionalizá-los em dimensões mensuráveis.

Este mapeamento decorre directamente da revisão de literatura: o que dizem os estudos anteriores sobre como este constructo é definido e medido? Usar escalas já validadas e publicadas tem uma vantagem enorme — poupa tempo de validação e permite comparar os seus resultados com os de outros estudos. Bases de dados como o PsycTESTS (APA), o PROQOLID ou o repositório de instrumentos do RCAAP em Portugal são bons pontos de partida. Consulte o nosso guia sobre revisão de literatura para saber como fazer esta pesquisa de forma sistemática.

Tipos de perguntas: fechadas, abertas e escalas

Perguntas fechadas

Têm opções de resposta predefinidas. São as mais adequadas para análise quantitativa. Os principais tipos são:

  • Dicotómicas: Sim/Não; Verdadeiro/Falso. Simples, mas limitam a nuance.
  • Escolha múltipla: Seleccione uma ou várias opções. Úteis para dados sociodemográficos e variáveis categóricas.
  • Escala de avaliação: Escala numérica de 1 a 10, estrelas ou emojis. Mais intuitiva, mas com menos propriedades métricas.
  • Escala de concordância (Likert): Veja a secção seguinte.

Perguntas abertas

Permitem respostas livres. Geram dados ricos e imprevistos, mas são difíceis de analisar quantitativamente. Use-as com moderação num questionário maioritariamente quantitativo — por exemplo, uma pergunta aberta final para “outros comentários” pode captar informação que os itens fechados não cobriram.

Questões de classificação (ranking)

Pedem ao respondente para ordenar itens por ordem de preferência ou importância. Úteis para perceber prioridades, mas cognitivamente mais exigentes e difíceis de analisar estatisticamente.

A escala Likert: como usar correctamente

A escala Likert é o formato mais utilizado em questionários de ciências sociais para medir atitudes, percepções, satisfação e concordância. Foi desenvolvida por Rensis Likert em 1932 e mantém-se como o padrão de facto para medição de constructos psicológicos.

Como funciona

Cada item Likert apresenta uma afirmação (não uma pergunta) e pede ao respondente que indique o seu grau de concordância numa escala ordenada. Exemplo:

“As metodologias activas utilizadas nas aulas melhoram a minha aprendizagem.”
1 — Discordo totalmente   2 — Discordo   3 — Não concordo nem discordo   4 — Concordo   5 — Concordo totalmente

Escala de 5 ou 7 pontos?

A escala de 5 pontos é a mais comum e adequada para a maioria das teses. A de 7 pontos oferece maior variância e é recomendada quando a precisão é crítica (e.g., ensaios clínicos). Evite a escala de 10 pontos em contexto académico — os respondentes tendem a usar menos de metade dos pontos. Independentemente do número de pontos, mantenha a mesma escala ao longo de toda a dimensão para garantir consistência.

Erros a evitar

  • Itens com dupla negação: “Não acho que a disciplina não contribuiu para a minha formação” — confuso e inválido.
  • Itens ambíguos: “O ambiente da escola é bom” — o que significa “bom”? Para quem?
  • Escala de Likert vs. escala tipo Likert: A verdadeira escala de Likert mede um constructo através da soma de múltiplos itens. Usar um único item não é uma escala de Likert — é apenas uma pergunta com resposta ordinal.
  • Ponto médio: Incluir a opção “Não concordo nem discordo” é recomendado na maioria dos casos — forçar os respondentes a tomar posição quando genuinamente não têm opinião produz dados distorcidos.

Google Forms: criar e distribuir o questionário

O Google Forms é a ferramenta gratuita mais usada para aplicar questionários académicos — é acessível a partir de qualquer conta Google, funciona em qualquer dispositivo e exporta directamente para Google Sheets ou Excel para análise.

Como criar uma escala Likert no Google Forms

  1. Adicione uma nova pergunta e seleccione o tipo “Grelha de escolha múltipla” (para múltiplos itens numa única escala) ou “Escala linear” (para um único item).
  2. Na grelha, insira os itens nas linhas e os pontos da escala (1 a 5) nas colunas. Adicione etiquetas descritivas nos extremos (“Discordo totalmente” e “Concordo totalmente”).
  3. Active a opção “Limitar a uma resposta por coluna” para evitar que o respondente marque o mesmo ponto para todos os itens.
  4. Use a secção de Validação de dados para exigir que todos os itens sejam respondidos antes de avançar.

Distribuição e amostragem

Para garantir uma amostra representativa, distribua o questionário através de canais com acesso ao seu público-alvo. Em estudos com estudantes universitários, as plataformas das universidades, os grupos de turma e as redes sociais académicas são os canais mais eficazes. Defina o número de respostas necessário com base num cálculo de tamanho de amostra (use calculadoras como a do SurveyMonkey ou o G*Power). Para metodologia de amostragem, veja o nosso artigo sobre metodologia quantitativa na dissertação.

O pré-teste: antes de avançar

O pré-teste é a fase em que o questionário é aplicado a um grupo reduzido de 5–10 pessoas com perfil semelhante aos respondentes finais. O objectivo é identificar perguntas confusas, ambíguas, com tempo de preenchimento excessivo ou com problemas técnicos na plataforma.

No pré-teste, peça aos participantes que pensem em voz alta enquanto respondem (protocolo de think-aloud) ou que identifiquem as questões em que sentiram dificuldade. Anote o tempo de preenchimento — questionários com mais de 15–20 minutos têm taxas de abandono significativamente mais altas. Após o pré-teste, revise os itens problemáticos e repita o processo se as alterações foram substanciais.

Validação do conteúdo e validade de constructo

A validade é a propriedade mais importante de um instrumento — garante que está a medir o que afirma medir. Existem três tipos principais relevantes para teses:

Validade de conteúdo

Verifica se os itens cobrem adequadamente todos os aspectos relevantes do constructo. O método mais rigoroso é o painel de peritos: 3–5 especialistas na área avaliam a adequação de cada item numa escala de 1 a 4 e o investigador calcula o Content Validity Index (CVI). Um CVI ≥ 0.80 é geralmente considerado aceitável.

Validade de face

Avaliação informal de se os itens parecem, à primeira vista, adequados para medir o constructo. Menos rigorosa que a validade de conteúdo, mas mais rápida — é útil como primeiro filtro na fase de design.

Validade de constructo

Verifica se o instrumento mede o constructo teórico subjacente. Avalia-se com análise factorial confirmatória (AFC) ou exploratória (AFE) usando SPSS ou R. A AFC testa se a estrutura factorial do instrumento corresponde à estrutura teórica esperada. Para escalas adaptadas de inglês para português, é obrigatório apresentar evidências de validade de constructo. Para um enquadramento metodológico completo, consulte o nosso guia de metodologia de investigação.

Fiabilidade: alfa de Cronbach e consistência interna

A fiabilidade mede a consistência das respostas — se o instrumento produz resultados estáveis e replicáveis. O indicador mais comum é o alfa de Cronbach (α), que varia entre 0 e 1.

Interpretação do alfa de Cronbach
Valor de α Interpretação Adequação para teses
< 0.60 Inaceitável Rever os itens
0.60 – 0.69 Questionável Aceitável apenas com justificação
0.70 – 0.79 Aceitável Adequado para teses de mestrado
0.80 – 0.89 Bom Robusto para publicação
≥ 0.90 Excelente Óptimo (pode indicar redundância de itens)

No SPSS, calcule o alfa de Cronbach em Analyze → Scale → Reliability Analysis. Active a estatística “Item-Total Correlation” para identificar itens que, se removidos, aumentariam o alfa — um item com correlação item-total abaixo de 0.30 é candidato a eliminação.

Análise dos dados do questionário

Após a recolha, exporte os dados do Google Forms para Excel e importe para o SPSS. Antes de analisar, codifique os itens inversos (itens formulados na direcção oposta da escala) — por exemplo, num item negativo de 5 pontos, o valor 1 torna-se 5 e vice-versa (use Transform → Recode into Different Variable). Depois, crie variáveis compostas somando ou calculando a média dos itens de cada dimensão. Para orientações detalhadas sobre como reportar os resultados em formato de tese, leia o nosso artigo sobre análise de dados na tese.

Exemplos de questões por área

Educação — satisfação com o ensino

“Os métodos de ensino utilizados pelo professor facilitam a minha compreensão dos conteúdos.” (escala Likert 5 pontos: 1 = Discordo totalmente, 5 = Concordo totalmente)

Gestão — compromisso organizacional

“Sinto-me orgulhoso de trabalhar nesta organização.” (adaptado da escala OCQ de Mowday, Porter & Steers, 1979)

Saúde — qualidade de vida

“Com que frequência sente dores físicas que o/a impedem de fazer o que precisa de fazer?” (adaptado da escala SF-36)

Perguntas Frequentes

Posso usar um questionário já publicado noutro estudo?

Sim, e é frequentemente recomendado — usar escalas validadas fortalece a qualidade metodológica da tese. Deve, no entanto, citar a fonte original, verificar se existe adaptação para a língua portuguesa, e apresentar as propriedades psicométricas na sua amostra (fiabilidade e, idealmente, validade de constructo). Se o instrumento está protegido por direitos de autor, pode ser necessária autorização dos autores para uso em contexto não comercial.

Quantas perguntas deve ter um questionário de tese?

Não existe um número ideal, mas um questionário de tese de mestrado tem tipicamente entre 20 e 50 itens (excluindo dados sociodemográficos), o que corresponde a 8–15 minutos de preenchimento. Questionários mais longos têm taxas de abandono e resposta descuidada mais elevadas. O número de itens por constructo deve ser suficiente para garantir fiabilidade — um mínimo de 3 itens por dimensão é geralmente recomendado.

Que plataformas alternativas ao Google Forms posso usar?

As principais alternativas são: LimeSurvey (open-source, frequentemente disponível nas universidades portuguesas com servidor próprio — preferível por razões de privacidade e RGPD), Microsoft Forms (incluído no Microsoft 365, comum em instituições com licença Microsoft), Qualtrics (padrão em investigação internacional, com funcionalidades avançadas de lógica de ramificação e gestão de amostras) e JotForm (interface intuitiva, plano gratuito com limitações).

Preciso de aprovação ética para aplicar questionários?

Depende da instituição e do tipo de participantes. Em Portugal, estudos com dados anonimizados sobre adultos em contexto académico geralmente não requerem aprovação formal de comissão de ética, mas devem incluir um consentimento informado no início do questionário (explicando o objectivo, a confidencialidade e o carácter voluntário). Estudos com menores, dados sensíveis (saúde, dados pessoais identificáveis) ou em contexto hospitalar requerem aprovação da comissão de ética da instituição.

Como garantir o anonimato dos respondentes?

Desactive a recolha de e-mails nas definições do Google Forms (por omissão, o Forms pode recolher o e-mail do respondente). Não inclua perguntas que permitam identificação indireta quando combinadas (e.g., departamento + cargo + faixa etária muito específica). Se recolher dados de acesso à plataforma, separe a identidade do respondente dos dados de resposta. Em contextos mais sensíveis, use o LimeSurvey com tokens anónimos que permitem controlar duplicados sem identificar o respondente.

Precisa de ajuda com a análise dos dados?

Depois de recolher as respostas, o Tesify pode ajudá-lo a estruturar a secção de resultados e a formatar as tabelas segundo as normas APA ou ABNT. Consulte também o nosso guia completo sobre como fazer entrevistas semi-estruturadas para complementar os dados do questionário com perspectivas qualitativas.