Como Definir o Problema de Investigação da Tese Passo a Passo 2026
Um problema de investigação mal definido é a razão mais comum para um orientador devolver o primeiro capítulo com a nota “reformular”. Como definir o problema de investigação de forma que resista a essa primeira leitura crítica? A resposta está em três elementos que têm de estar presentes ao mesmo tempo: uma lacuna real na literatura, um enunciado claro dessa lacuna e uma justificação de por que vale a pena investigá-la agora, no seu contexto académico.
Resposta direta: definir o problema de investigação exige identificar uma lacuna, contradição ou dificuldade prática na literatura existente, formulá-la num enunciado de três a seis frases apoiado em fontes recentes e verificar se cumpre três critérios — relevância, exequibilidade e delimitação — antes de a transformar em pergunta e objetivos.

O Que É o Problema de Investigação numa Tese?
O problema de investigação é a descrição de uma lacuna, contradição ou dificuldade no conhecimento existente sobre um tema, que a sua tese se propõe a reduzir. Não é o tema em si — “gestão do stress em enfermeiros”, por exemplo, é um tema, não um problema — nem é ainda a pergunta que orienta a recolha de dados. É o elo entre os dois: explica por que o tema, tal como está estudado hoje, deixa algo por resolver.
Em termos práticos, o problema de investigação costuma assentar em um de quatro tipos de lacuna: uma lacuna de conhecimento (o fenómeno nunca foi estudado nesta população ou contexto), uma lacuna metodológica (foi estudado, mas com métodos limitados), uma lacuna de contradição (estudos anteriores chegam a resultados divergentes) ou uma lacuna prática (existe conhecimento teórico, mas falta aplicação num setor ou organização concretos).
Qual a Diferença entre Problema, Pergunta e Objetivos?
Estes três elementos formam uma sequência lógica dentro da introdução da tese e é comum confundi-los. O problema de investigação é o enunciado da lacuna; a pergunta de investigação é essa lacuna transformada numa questão específica e respondível; os objetivos são as ações concretas — descrever, comparar, avaliar, propor — que a tese vai executar para responder à pergunta.
Um erro frequente é escrever os três elementos como se fossem sinónimos, repetindo a mesma frase com pequenas variações. O júri nota isso rapidamente. Para aprofundar esta distinção com exemplos de verbos e estrutura, consulte o guia sobre como definir os objetivos e hipóteses da tese depois de ter o problema fechado.
Como Definir o Problema de Investigação Passo a Passo?
Siga esta sequência para chegar a um enunciado sólido, testável junto do orientador antes de avançar para os capítulos seguintes.
- Escolha um tema amplo que já domine ou que lhe interesse genuinamente. A motivação pessoal sustenta meses de trabalho; um tema escolhido apenas por conveniência tende a esgotar-se a meio do processo.
- Faça uma leitura exploratória de 15 a 20 fontes recentes (artigos, teses e revisões sistemáticas dos últimos cinco a oito anos) para mapear o que já se sabe sobre o tema.
- Registe, para cada fonte, o que ainda não foi respondido — normalmente numa secção de “limitações” ou “estudos futuros” no final do artigo. É aqui que as lacunas começam a aparecer.
- Cruze as lacunas encontradas e escolha aquela que é simultaneamente mais relevante para a sua área e mais exequível com os recursos e o tempo que tem disponíveis.
- Escreva um primeiro enunciado do problema em três a seis frases: contexto, o que já se sabe, o que falta saber e por que isso importa.
- Delimite o problema no tempo, no espaço geográfico e na população ou amostra a estudar, para que não fique demasiado amplo.
- Teste o enunciado junto do orientador antes de avançar para a pergunta de investigação e os objetivos — é mais barato corrigir aqui do que depois de escrever três capítulos.
- Reescreva a introdução da tese integrando o problema já validado, seguindo a estrutura em funil habitual nos programas de mestrado e doutoramento.
Como Identificar a Lacuna na Literatura (Research Gap)?
A lacuna na literatura raramente aparece de forma explícita num único artigo. Costuma emergir do cruzamento entre várias fontes. Três técnicas ajudam a encontrá-la de forma sistemática:
- Ler as secções de limitações e recomendações futuras dos artigos mais citados na área — é onde os autores costumam apontar o que ainda falta investigar.
- Comparar resultados contraditórios entre estudos com metodologias ou amostras diferentes, o que revela zonas de incerteza ainda não resolvidas.
- Verificar se um fenómeno bem estudado noutro país ou setor nunca foi replicado no seu contexto nacional ou organizacional — uma lacuna de aplicação, comum em teses de gestão, educação e saúde em Portugal.
Que Critérios Deve Cumprir um Bom Problema de Investigação?
| Critério | O que significa | Pergunta a fazer |
|---|---|---|
| Relevância | Interessa à comunidade científica, à sociedade ou a uma organização concreta | Quem beneficia se este problema for respondido? |
| Exequibilidade | É possível investigá-lo com o tempo, o orçamento e o acesso a dados que tem | Consigo recolher os dados necessários no prazo da tese? |
| Delimitação | Tem fronteiras claras de tempo, espaço e população | O âmbito é suficientemente restrito para ser tratado a fundo? |
| Originalidade | Acrescenta algo que ainda não existe na literatura consultada | Alguém já respondeu exatamente a isto? |
| Coerência metodológica | Pode ser respondido com os métodos disponíveis na sua área científica | O método que domino permite responder a esta pergunta? |

Exemplos de Tema, Problema e Pergunta por Área
A tabela seguinte ilustra a transição de um tema genérico para um problema delimitado e, depois, para a pergunta de investigação correspondente.
| Área | Tema | Problema de investigação | Pergunta de investigação |
|---|---|---|---|
| Gestão | Teletrabalho em PME | Falta de estudos sobre o impacto do teletrabalho na produtividade em PME portuguesas do setor dos serviços | Como é que o teletrabalho influencia a produtividade percebida em PME de serviços em Portugal? |
| Educação | Uso de ferramentas de IA em sala de aula | Desconhecimento sobre como os professores do ensino secundário integram ferramentas de IA generativa nas suas práticas pedagógicas | Que estratégias adotam os professores do ensino secundário ao integrar ferramentas de IA generativa nas aulas? |
| Saúde | Adesão à terapêutica em doentes crónicos | Resultados contraditórios entre estudos sobre os fatores que mais influenciam a adesão à terapêutica em doentes com diabetes tipo 2 | Quais os fatores com maior peso na adesão à terapêutica em doentes com diabetes tipo 2 acompanhados em cuidados primários? |
| Direito | Contratos digitais | Enquadramento jurídico ainda pouco claro sobre a validade de assinaturas eletrónicas simples em contratos de consumo em Portugal | Que garantias jurídicas oferece a assinatura eletrónica simples em contratos de consumo à luz da legislação portuguesa em vigor? |
Quais os Erros Mais Comuns ao Definir o Problema?
- Confundir tema com problema. Escrever “o problema deste estudo é o marketing digital” não é um problema, é um tema sem lacuna identificada.
- Escolher um problema demasiado amplo. “Melhorar a educação em Portugal” não pode ser respondido numa tese de mestrado com um ano de trabalho de campo.
- Não apoiar o enunciado em fontes. Um problema sem referências parece uma opinião pessoal, não uma lacuna comprovada na literatura.
- Ignorar a exequibilidade. Definir um problema que exige acesso a dados confidenciais de uma organização que ainda não autorizou a recolha.
- Repetir o problema como pergunta. Copiar o enunciado do problema e apenas adicionar um ponto de interrogação no fim, sem o tornar operacional.
- Não delimitar o contexto. Deixar por definir o período temporal, a população ou o setor, o que torna a investigação impossível de fechar.
Depois de fechar o problema, o passo seguinte lógico é escrever a introdução da tese integrando-o na estrutura em funil, e redigir a justificação e relevância do estudo que sustenta por que esse problema merece ser investigado agora. Para os fundamentos teóricos que apoiam o enunciado, vale também a pena rever como fazer a revisão de literatura de forma sistemática antes de fechar a versão final do problema.
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Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre problema de investigação e pergunta de investigação?
O problema de investigação é o enunciado mais amplo de uma dificuldade, lacuna ou contradição no conhecimento existente. A pergunta de investigação é a tradução operacional desse problema numa questão específica, respondível através de dados recolhidos no estudo.
O problema de investigação pode mudar depois de começar a escrever a tese?
Sim, é frequente ajustar o enunciado à medida que a revisão de literatura avança ou que o orientador sugere alterações. O importante é que a versão final seja coerente com os objetivos, a metodologia e as conclusões apresentadas.
Quantas linhas deve ter o enunciado do problema de investigação?
Não existe um número fixo, mas a maioria dos programas de mestrado e doutoramento espera um parágrafo de três a seis frases, suficiente para contextualizar a lacuna sem se alongar em detalhes que pertencem à revisão de literatura.
É preciso citar fontes ao definir o problema de investigação?
Sim. Um bom enunciado do problema apoia-se em referências que demonstrem a lacuna, normalmente em formato APA 7ª edição, para provar que a dificuldade identificada é real e reconhecida na literatura académica.
Como sei se o meu problema de investigação é exequível no tempo que tenho?
Avalie o acesso a dados ou participantes, os recursos metodológicos disponíveis e o prazo definido pela universidade. Se qualquer um destes elementos for incerto, vale a pena delimitar o problema em vez de o abandonar.
O problema de investigação é igual em teses qualitativas e quantitativas?
A estrutura do enunciado é semelhante, mas a formulação muda: estudos quantitativos tendem a apontar para relações entre variáveis, enquanto estudos qualitativos apontam para a compreensão de um fenómeno pouco explorado num contexto específico.
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