Revistas e Bases de Dados para uma Dissertação de Economia: RePEc, EconLit e Fontes Abertas (2026)
Em Economia, a literatura não vive apenas em revistas. Uma parte importante da investigação aparece primeiro como working paper, em séries de bancos centrais, universidades e redes de investigação, e só anos depois como artigo. Quem pesquisa a bibliografia de uma dissertação de Economia como se fosse de Psicologia ou de Direito perde estudos centrais ou cita versões desatualizadas. Este guia mostra onde procurar (bases de dados, revistas e séries de working papers), como usar os códigos JEL para delimitar a pesquisa, como distinguir uma versão preliminar de um artigo publicado, como organizar o que lê e como combinar fontes abertas com as bases a que a sua biblioteca dá acesso.
Os tipos de fonte numa dissertação de Economia
| Tipo | O que é | Cuidado |
|---|---|---|
| Artigo em revista com revisão por pares | Versão publicada, avaliada por pares | Verifique volume, ano e se existe correção ou retratação |
| Working paper | Versão preliminar numa série institucional | Confirme se existe versão publicada posterior e cite a mais recente |
| Relatório institucional | Documento de um banco central, organismo internacional ou instituto de estatística | Cite a edição e a data; os valores são revistos |
| Livro ou capítulo | Manuais e volumes coletivos | Útil para enquadramento; verifique a edição |
| Dissertação ou tese | Trabalhos académicos já defendidos | Use para ideias e referências; cite o original, não a tese |
Bases de dados e portais que deve conhecer
Nenhuma base cobre tudo. A estratégia habitual combina um portal aberto de Economia, uma base indexada de subscrição (se a sua instituição a assinar) e as séries de working papers das instituições relevantes para o seu tema.
- IDEAS/RePEc. Portal aberto dedicado à literatura económica. Permite pesquisar artigos, working papers, capítulos, livros e software, e ordenar os resultados por relevância, por data ou por citações. A página inicial permite navegar por working papers, revistas e por classificação JEL. É um bom ponto de partida e não exige subscrição.
- EconLit. Base bibliográfica da American Economic Association. Segundo a descrição oficial, abrange artigos de revistas com revisão por pares, working papers, teses de doutoramento, livros e volumes coletivos, com mais de dois milhões de registos de literatura económica publicada ao longo de 140 anos, de instituições de 75 países. É de subscrição: confirme na biblioteca da sua instituição se tem acesso e por que plataforma.
- NBER Working Papers. A série do National Bureau of Economic Research, organizada por programas temáticos (como economia do trabalho, finanças empresariais, economia internacional e economia da saúde). Útil para temas de investigação aplicada recente.
- BCE Working Papers. A série de documentos de trabalho do Banco Central Europeu, relevante para política monetária, estabilidade financeira e economia da área do euro.
- Revistas de acesso aberto. O diretório de revistas de acesso aberto DOAJ inclui, por exemplo, a revista Notas Económicas, da Imprensa da Universidade de Coimbra, com o assunto Economia.
- Bases e portais da sua instituição. Os recursos assinados pela biblioteca (por exemplo, através de um portal nacional de conhecimento científico) variam por instituição; o artigo sobre bases de dados académicas em Portugal: b-on, RCAAP, Scopus e como aceder explica como verificar o acesso.

Códigos JEL: a forma mais rápida de delimitar um tema
A classificação JEL (Journal of Economic Literature) é o sistema de códigos que organiza a literatura económica por área. A American Economic Association publica a classificação, com as categorias gerais: A (Economia Geral e Ensino), B (História do Pensamento Económico, Metodologia e Abordagens Heterodoxas), C (Métodos Matemáticos e Quantitativos), D (Microeconomia), E (Macroeconomia e Economia Monetária), F (Economia Internacional), G (Economia Financeira), H (Economia Pública), I (Saúde, Educação e Bem-Estar), J (Economia do Trabalho e Demografia), K (Direito e Economia), L (Organização Industrial), M (Gestão e Economia Empresarial, incluindo Marketing, Contabilidade e Economia do Pessoal), N (História Económica), O (Desenvolvimento Económico, Inovação, Mudança Tecnológica e Crescimento), P (Economia Política e Sistemas Económicos Comparados), Q (Economia Agrícola e dos Recursos Naturais, e Economia do Ambiente), R (Economia Urbana, Rural, Regional, Imobiliária e dos Transportes), Y (Categorias Diversas) e Z (Outros Tópicos Especiais).
Como usar os códigos na prática:
- Escolha duas ou três categorias que correspondem ao seu tema (por exemplo, G para um tema de finanças e J para um de mercado de trabalho).
- Pesquise por palavras-chave num portal como o IDEAS e use a navegação por classificação JEL para ver o que existe na área.
- Nos artigos relevantes, leia os códigos JEL atribuídos: indicam outras áreas onde pesquisar e termos que não tinha considerado.
- Se a sua instituição tem acesso ao EconLit, use os códigos JEL como campo de pesquisa para cruzar com as palavras-chave.
Como pesquisar: uma estratégia em cinco passos
- Formule a pergunta em termos económicos. Identifique a variável explicada, as variáveis explicativas, a população e o período.
- Liste palavras-chave em inglês e em português. A maior parte da literatura está em inglês; use também termos em português para trabalhos nacionais.
- Pesquise primeiro no portal aberto. Ordene por citações para encontrar os trabalhos de referência e por data para encontrar os mais recentes.
- Alargue com as séries de working papers. Procure no NBER, no BCE e nas séries de instituições relevantes para o seu tema e país.
- Siga as referências. Dos artigos centrais, leia as listas de referências e os artigos que os citam.
Para decidir quando parar, o artigo sobre quantos artigos ler para a revisão de literatura propõe critérios, e o guia sobre como escrever a revisão de literatura da tese mostra como organizar o que encontrou.
Working paper ou artigo publicado: qual citar
Em Economia é comum o mesmo trabalho existir primeiro como working paper e depois como artigo, às vezes com alterações importantes nos resultados. Duas situações aparecem nas bases: o artigo publicado e a versão preliminar do mesmo trabalho, com títulos semelhantes. A regra prática é citar a versão publicada quando existe e, se citar o working paper, indicar a série, o número e o ano. Um exemplo de ligação entre as duas formas: o artigo de Lusardi e Mitchell sobre a importância económica da literacia financeira circulou como working paper do NBER (número 18952, 2013) e foi publicado depois no Journal of Economic Literature (2014, vol. 52, n.º 1, pp. 5–44). Se citar o working paper em vez do artigo, o júri pode perguntar porquê.
Revistas portuguesas e lusófonas: onde encontrar trabalho nacional
Se o seu tema tem uma dimensão nacional, procure também em revistas portuguesas. Dois exemplos de artigos de Economia e Finanças publicados em revistas portuguesas encontráveis por pesquisa em bases abertas são o estudo de Silva e Lopes (2018) sobre estrutura de capital em empresas exportadoras portuguesas, na Egitania Sciencia, e o de Tavares, Almeida e Soares (2022) sobre literacia financeira, no Portuguese Journal of Finance, Management and Accounting. A pesquisa nestas fontes complementa as bases internacionais, mas deve sempre ser acompanhada de uma avaliação crítica da qualidade do estudo. Para escolher a teoria que sustenta a sua dissertação depois de ler a literatura, veja o guia sobre enquadramento teórico de uma tese de Economia.
Como ler um artigo de Economia para a revisão
Para a revisão, não é preciso ler cada artigo do princípio ao fim. Uma leitura em camadas poupa tempo:
- Resumo e códigos JEL: decide se o artigo é relevante.
- Introdução: a pergunta, a contribuição e um resumo dos resultados.
- Dados e método: amostra, período, variáveis e estimador; é o que precisa de comparar com o seu.
- Resultados principais: a tabela central e a interpretação dos autores.
- Robustez e limitações: o que os autores testaram e o que reconhecem não resolver.
Registe cada artigo numa tabela com: referência, pergunta, dados, método, resultado principal e limitações. Quando os resultados divergirem, procure a explicação nos dados e nos métodos, não só nos autores.
Combinar fontes abertas e fontes de subscrição
As fontes abertas permitem começar sem depender de licenças, mas nem todo o texto integral está aberto. Para um artigo que só encontra por título, tente por esta ordem: o texto integral na página do autor ou da instituição; a versão em working paper em portais abertos; o acesso através da biblioteca da sua instituição; e, em último caso, o pedido de empréstimo entre bibliotecas. Evite sites que oferecem cópias de origem duvidosa; para além do risco de qualidade, podem violar direitos de autor.

Exemplo de pesquisa passo a passo (ilustrativo)
Suponha uma dissertação sobre os determinantes do endividamento das pequenas e médias empresas. Um percurso possível: (1) escolher os códigos JEL das áreas de finanças empresariais e de organização empresarial; (2) pesquisar, no portal aberto, palavras-chave como “capital structure”, “leverage” e “SMEs”, ordenando por citações para identificar os trabalhos de referência; (3) repetir a pesquisa ordenando por data para encontrar estudos recentes e working papers ainda não publicados; (4) acrescentar termos em português, como “estrutura de capital” e “endividamento”, para encontrar estudos de empresas portuguesas; (5) abrir as listas de referências dos três ou quatro artigos centrais e anotar os autores e os trabalhos que se repetem; (6) registar tudo na tabela de leitura. No fim, deve conseguir identificar as teorias mais usadas, os dados e os métodos típicos e uma lacuna para a sua dissertação.
Tabela de registo da pesquisa
| Campo | O que registar |
|---|---|
| Base ou portal | Nome, endereço e data da pesquisa |
| Termos e filtros | Palavras-chave, códigos JEL, anos, idioma |
| Resultados | Número de resultados e critério de seleção |
| Trabalhos selecionados | Referência completa e se é artigo ou working paper |
| Versão | Existência de versão publicada e referência |
| Uso na tese | Enquadramento, metodologia ou discussão |
Esta tabela, guardada desde o primeiro dia, é o que permite atualizar a pesquisa perto da entrega e responder ao júri quando perguntar como encontrou os estudos.
Erros frequentes na pesquisa de literatura em Economia
- Procurar só em revistas e ignorar as séries de working papers.
- Citar um working paper quando já existe o artigo publicado, sem o declarar.
- Usar apenas literatura em português e perder a literatura de referência.
- Não usar os códigos JEL e fazer pesquisas demasiado largas ou demasiado estreitas.
- Ler só resumos e atribuir ao estudo resultados que o texto qualifica.
- Não registar a estratégia de pesquisa: bases, termos, datas e número de resultados.
- Esquecer a atualização: uma pesquisa feita no início do trabalho pode estar desatualizada na entrega.
Estes e outros erros metodológicos que o júri costuma apontar numa tese de Economia estão reunidos em os 10 erros que os júris mais apontam numa tese de Economia.
Checklist antes de fechar a pesquisa de literatura
- Pesquisei num portal aberto de Economia e numa base indexada a que a minha biblioteca dá acesso.
- Procurei working papers do meu tema em séries de instituições relevantes.
- Usei códigos JEL para delimitar e alargar a pesquisa.
- Verifiquei se os working papers citados têm versão publicada.
- Registei a pesquisa: bases, termos, datas e número de resultados.
- Li no original, e não só no resumo, os artigos centrais.
Perguntas Frequentes
O IDEAS/RePEc é uma fonte fiável para a dissertação?
É um portal de pesquisa que indexa literatura económica, e é adequado para localizar artigos e working papers. A fiabilidade de cada trabalho depende da revista ou da série: cite a versão publicada, quando existe, e avalie a qualidade do estudo.
Preciso do EconLit?
Não é obrigatório, mas é uma base de referência em Economia. Se a sua instituição tem acesso, é útil para pesquisas mais completas, sobretudo com códigos JEL. Confirme na biblioteca.
Posso citar working papers?
Pode, e em Economia é comum. Indique a série, o número e o ano, e verifique se existe versão publicada mais recente, que deve ser a preferida.
Como escolho os códigos JEL do meu tema?
Consulte a classificação oficial e escolha as categorias mais próximas da sua pergunta. Depois, confirme nos artigos centrais do tema que códigos os autores atribuíram.
Onde encontro dados para além da literatura?
As bases de literatura não são fontes de dados. Para dados de empresas, mercados ou estatísticas oficiais, o artigo sobre dados em painel: efeitos fixos ou aleatórios mostra um caso de uso e remete para as fontes mais habituais.
A literatura em português chega para uma dissertação de Economia?
Raramente. Use-a para o contexto nacional, mas apoie a revisão em literatura internacional de referência, na maior parte em inglês.
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