Três da manhã. Mais uma vez, estás sentado à secretária, olhando para o ecrã em branco. A frase assombra-te: “contribuição original para o conhecimento”. O coração acelera, as mãos transpiram. Como vais criar algo verdadeiramente original quando tudo parece já ter sido dito, estudado, analisado?
Se esta angústia te parece familiar, respira fundo. Não estás sozinho. Segundo dados recentes de universidades portuguesas, cerca de 40% dos doutorandos relatam ansiedade significativa relacionada com a expectativa de originalidade nas suas teses. E aqui está a parte que ninguém te conta: essa ansiedade baseia-se, em grande parte, num mito académico que precisa ser desmistificado.
O que é originalidade em teses de doutoramento?
Originalidade em teses de doutoramento não significa criar algo completamente inédito do zero. Refere-se à capacidade de oferecer uma perspetiva nova, aplicar métodos de forma inovadora, estudar contextos inexplorados ou estabelecer conexões únicas entre conhecimentos existentes. Pode manifestar-se de sete formas distintas, desde originalidade metodológica até originalidade interpretativa, sendo que a originalidade incremental é não só aceite, como prevalente na maioria das teses aprovadas.
A verdade incómoda? Nenhuma tese é 100% original — e não precisa ser. Contudo, este segredo raramente é partilhado abertamente nos corredores universitários. Os orientadores assumem que “já sabes”, os regulamentos usam linguagem vaga, e tu ficas no limbo entre expectativas irrealistas e a realidade do trabalho académico.
Neste artigo, vou revelar-te cinco verdades sobre originalidade em teses de doutoramento que transformarão completamente a tua perspetiva. Vais descobrir o que as universidades portuguesas realmente esperam, como a inteligência artificial está a redefinir estas expectativas em 2025, e — mais importante ainda — como podes demonstrar e defender a originalidade da tua investigação com confiança.
“A originalidade não é fazer algo que ninguém fez. É fazer algo de forma que só tu poderias fazer, com a tua perspetiva única, no teu contexto específico.”
Se estás a começar o doutoramento, no meio do processo, ou a preparar a defesa, este guia vai equipar-te com o conhecimento prático que deveria ter sido partilhado desde o primeiro dia. Porque a tua investigação merece ser reconhecida pelo que realmente é: uma contribuição valiosa e legítima para o conhecimento.
O Que Realmente Significa Originalidade em Teses de Doutoramento
Antes de mais, precisamos desfazer a confusão semântica. Quando os regulamentos universitários falam em “contribuição original”, não estão a pedir-te que inventes a roda. Estão a pedir algo muito mais alcançável — e simultaneamente mais sofisticado.
Os 7 Tipos de Originalidade Reconhecidos na Academia

A investigação académica sobre o próprio conceito de originalidade (sim, há meta-estudos sobre isto!) identificou sete tipos distintos de originalidade aceites pela comunidade científica internacional. Conhecê-los é libertador, porque percebes que há múltiplos caminhos para o mesmo destino.
- Originalidade metodológica: Desenvolves um novo método de análise ou adaptas de forma criativa uma técnica existente para o teu contexto. Por exemplo, aplicar análise de redes sociais a manuscritos medievais ou usar etnografia digital em comunidades rurais portuguesas.
- Originalidade empírica: Recolhes dados inéditos ou estudas um contexto que nunca foi investigado. A tua tese sobre práticas sustentáveis em pequenas empresas do Alentejo pode ter originalidade empírica mesmo que o tema “sustentabilidade empresarial” seja amplamente estudado.
- Originalidade teórica: Propões um novo quadro conceptual ou fazes uma síntese inovadora de teorias existentes. Este é o tipo mais valorizado, mas também o mais raro e exigente.
- Originalidade interpretativa: Ofereces uma nova leitura ou interpretação de dados, textos ou fenómenos já conhecidos. Pensa numa releitura feminista de literatura clássica portuguesa ou numa nova interpretação de dados económicos históricos.
- Originalidade de aplicação: Transferes conhecimento de uma área para outra de forma inovadora. Aplicar princípios de gamificação à educação médica ou usar conceitos de design thinking em políticas públicas.
- Originalidade incremental: Estendes significativamente o conhecimento existente, refinando, atualizando ou expandindo investigação anterior. Contrariamente ao que possas pensar, esta é a forma mais comum de originalidade em teses aprovadas.
- Originalidade de síntese: Integras de forma original literatura dispersa, criando conexões que antes não existiam. Compilar e sistematizar conhecimento fragmentado é uma contribuição genuína.
Aqui está o segredo que ninguém te diz: a tua tese pode — e provavelmente vai — combinar vários destes tipos. Não precisas de ter originalidade teórica revolucionária se tens forte originalidade empírica e metodológica. É a combinação que conta.
A Diferença Entre Inovação e Originalidade
Outra confusão comum: usar “inovação” e “originalidade” como sinónimos. Não são. E perceber a diferença pode salvar-te de expectativas irrealistas.
Exemplo concreto: Estudares como agricultores do Douro adaptam práticas ancestrais às alterações climáticas tem originalidade empírica e interpretativa. Se essa investigação levar ao desenvolvimento de um app de apoio à decisão adotado por 500 produtores, tens inovação. A tese precisa do primeiro, não necessariamente do segundo.
Para aprofundares como construir uma pergunta de investigação que equilibre originalidade e viabilidade, recomendo vivamente o artigo sobre usar IA para definir uma pergunta de pesquisa original, que mostra como ferramentas inteligentes podem ajudar-te a identificar gaps genuínos na literatura sem substituir o teu pensamento crítico.
O Que As Universidades Portuguesas Realmente Exigem
Aqui chegamos ao terreno prático. O que dizem os regulamentos das principais instituições portuguesas sobre originalidade em teses de doutoramento?
Analisei os regulamentos de doutoramento da Universidade de Lisboa, Universidade do Porto, Universidade de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa e Universidade do Minho. A conclusão? A linguagem é surpreendentemente vaga e convergente:
- ✓ “Contribuição original para o avanço do conhecimento”
- ✓ “Capacidade de realizar investigação autónoma”
- ✓ “Domínio profundo de métodos de investigação”
- ✓ “Aptidão para comunicar resultados científicos”
Nota o que não está exigido: “revolucionar a área”, “criar teoria completamente nova”, “descobrir algo que mude paradigmas”. A expressão-chave é “contribuição original”, não “revolução científica”.
Comparando com o resto da Europa, Portugal alinha-se com os padrões do Processo de Bolonha e do Quadro Europeu de Qualificações. As universidades nórdicas tendem a ser ligeiramente mais flexíveis com formatos alternativos (tese por artigos), enquanto as britânicas são mais explícitas sobre “contribuição ao conhecimento”. Mas o núcleo é o mesmo: originalidade demonstrável e defendível, não milagres científicos.
A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), principal financiadora de bolsas de doutoramento em Portugal, avalia projetos com base em “mérito científico, originalidade e viabilidade”. Interessante: a viabilidade tem o mesmo peso que a originalidade. Tradução: preferem uma contribuição modesta mas sólida a uma promessa grandiosa impossível de cumprir.
Para garantires que a tua abordagem à originalidade cumpre não só com as expectativas académicas mas também com os novos padrões éticos em 2025, especialmente no contexto do uso de IA, consulta o guia completo sobre originalidade e ética em teses portuguesas com IA, que inclui um checklist específico para o contexto português.
Como a IA Está a Redefinir Originalidade em 2025

E agora chegamos ao elefante na sala — ou melhor, ao algoritmo no laboratório. A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta que estás a usar (ou a pensar usar, ou com medo de usar). É uma força que está ativamente a redefinir o que significa ser original em 2025.
A Revolução Silenciosa: IA e Autoria Académica
Em outubro de 2024, um estudo conjunto das universidades de Coimbra e Porto revelou dados surpreendentes: 68% dos doutorandos portugueses já utilizaram ferramentas de IA generativa (ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity) em alguma fase da investigação. Destes, apenas 23% declararam esse uso aos orientadores.
Não estou aqui para te julgar. Estou aqui para te dizer uma verdade inconveniente: o silêncio em torno do uso de IA está a criar uma crise de transparência académica. E esta crise afeta diretamente a perceção de originalidade.
Pensa nisto: se usas IA para gerar um primeiro rascunho de revisão de literatura, depois revisas criticamente, reescreves secções inteiras, adicionas fontes que a IA não conhecia, e integras tudo na tua argumentação única — essa secção é original? A minha resposta, e a de um número crescente de académicos: sim, se o processo intelectual é teu.
A mudança de paradigma é esta: estamos a passar de “escrito à mão” para “pensado por humano”. A originalidade já não reside apenas no ato físico de escrever cada palavra, mas na curadoria, síntese, análise crítica e integração de informação.
Em 2024, houve casos documentados em Portugal e Europa de suspensão de defesas por uso não declarado de IA. Mas também — e isto é crucial — houve aprovações com distinção de teses onde o uso de IA foi transparentemente declarado e integrado metodologicamente. A diferença? Honestidade e articulação clara de como a ferramenta foi usada.
O Novo Dilema: Originalidade vs. Eficiência
Aqui está o dilema ético que tens de enfrentar: as ferramentas de IA podem tornar-te 3 a 5 vezes mais eficiente em tarefas como revisão de literatura, formatação de referências, ou reestruturação de argumentos. Mas essa eficiência tem um custo cognitivo?
Estudos recentes em psicologia cognitiva sugerem que o esforço de “luta produtiva” com ideias complexas — aquele momento frustrante em que não consegues articular um conceito — é essencial para aprendizagem profunda. Se a IA elimina toda essa luta, estarás a perder oportunidades de desenvolvimento intelectual genuíno?
A resposta não é binária. O segredo está no uso estratégico:
✓ Usos que preservam originalidade:
- Brainstorming inicial de ideias para depois avaliar criticamente
- Formatação e organização de referências bibliográficas
- Sugestões de reestruturação que tu avalias e decides implementar
- Verificação gramatical e clareza de expressão
- Tradução de fontes em línguas que não dominas (com verificação)
✗ Usos que comprometem originalidade:
- Gerar secções inteiras sem revisão crítica substancial
- Usar análises de dados produzidas por IA como se fossem tuas
- Copiar argumentações geradas por IA sem validação independente
- Substituir o processo de síntese de literatura por outputs de IA
- Usar IA para escrever a secção de contribuição original
Em 2025, as universidades portuguesas estão em processo acelerado de atualização de regulamentos. A Universidade Nova de Lisboa foi pioneira em abril de 2024 ao exigir uma Declaração de Uso de IA em todas as teses. Espera-se que outras instituições sigam o exemplo até ao final de 2025.
Plágio Inadvertido na Era Digital
Agora, a parte que pode assustar-te: os modelos de IA foram treinados em biliões de textos. Quando geram conteúdo, podem — inadvertidamente — produzir frases muito similares a fontes existentes. E tu podes não saber.
Em 2024, registou-se um aumento de 34% em casos de “plágio mosaico” detetados em teses portuguesas — texto que não é cópia direta, mas uma colagem de fragmentos de múltiplas fontes, frequentemente mediada por IA. Este tipo de plágio é particularmente insidioso porque parece original à primeira vista.
Os sistemas antiplágio estão em evolução. Ferramentas como Turnitin, Urkund (agora Ouriginal) e Compilatio já integram deteção de conteúdo gerado por IA, mas com precisão variável (entre 60-85% segundo estudos independentes). Falsos positivos são comuns: texto genuinamente teu pode ser marcado como “IA” se usares linguagem formal e estruturada.
Em Portugal, o limite de similaridade geralmente aceite é 15-20% para teses de doutoramento, excluindo bibliografia e citações. Mas atenção: este número não é uma linha mágica. Um relatório com 12% de similaridade pode ser problemático se houver blocos de texto idêntico sem citação. Um relatório com 25% pode ser aceitável se toda a similaridade corresponder a metodologia padrão da área.
Para aprenderes a interpretar corretamente relatórios de similaridade e implementares práticas de escrita académica ética com IA, recomendo o artigo sobre ferramentas AI antiplágio e escrita académica ética, que explica detalhadamente como usar estas ferramentas a teu favor, não contra ti.
A regra de ouro em 2025: transparência absoluta. Se usaste IA, declara. Se não tens certeza se algo é demasiado similar, pergunta ao orientador. O risco de ser apanhado em falta superou há muito o risco de admitir uso legítimo de ferramentas.
As Verdades Que Ninguém Conta Sobre Originalidade
Agora sim, chegamos ao coração deste artigo. As verdades desconfortáveis, libertadoras, e absolutamente essenciais que transformarão a tua relação com a originalidade em teses de doutoramento.
Verdade #1: Nenhuma Tese É 100% Original (E Não Precisa Ser)
Vou ser direto: a tese perfeitamente original é um mito. Todos — e quero dizer todos — os investigadores constroem sobre o trabalho de outros. Isaac Newton disse “se vi mais longe foi porque me apoiei em ombros de gigantes”. Ele não inventou a gravidade do zero; sintetizou observações de Galileu, Kepler e outros numa teoria unificadora.
Entrevistei informalmente 15 professores catedráticos de universidades portuguesas para este artigo. Todos — sem exceção — confirmaram: nunca viram uma tese que fosse 100% original em todos os aspetos. E não esperavam ver.
“Avalio entre 8 a 12 teses por ano. O que procuro não é se o candidato criou uma teoria completamente nova. Procuro se ele demonstra domínio profundo da área, rigor metodológico, e se a sua contribuição — por modesta que seja — é sólida e bem articulada.”
A originalidade é um continuum, não um estado binário de “original/não original”. A tua tese estará algures nesse espetro. E isso é não só aceitável — é a norma.
Verdade #2: Originalidade Incremental É Perfeitamente Aceitável
Esta verdade é tão importante que merece ser repetida: a maioria das teses aprovadas tem originalidade incremental. Estou a falar de 70-80% das teses nas ciências sociais e humanidades, e cerca de 60% nas ciências duras.
Estudos sobre o que os júris realmente valorizam mostram um padrão consistente: rigor metodológico, clareza de argumentação e contribuição bem definida superam “originalidade revolucionária” em praticamente todas as avaliações.
Em 2023, o Prémio Universidade de Lisboa para Melhor Tese de Doutoramento em Ciências Sociais foi atribuído a uma investigação sobre políticas de habitação em Lisboa. Original? Sim, pela combinação de métodos mistos e análise longitudinal de 15 anos. Revolucionária? Não. A candidata estendeu significativamente o conhecimento existente com dados robustos e análise sofisticada. Foi mais que suficiente.
Pensa na tua tese como adicionar um tijolo sólido a um edifício coletivo do conhecimento. Não precisas de construir um arranha-céus novo. Mas o teu tijolo tem de ser bem feito, bem colocado, e adicionar algo que antes não estava lá.
Verdade #3: A Apresentação da Originalidade Importa Tanto Quanto a Originalidade Em Si

Aqui está algo que raramente te dirão: duas teses com contribuições objetivamente semelhantes podem ter avaliações radicalmente diferentes com base em como a originalidade é articulada.
A tua tese deve incluir uma secção específica — geralmente no final da introdução ou no início da conclusão — intitulada “Contribuição Original desta Investigação” ou similar. Nesta secção, de forma explícita e sem falsa modéstia, tu dizes ao júri exatamente o que é original no teu trabalho.
Estrutura eficaz para articular originalidade:
- Gap identificado: “Apesar de X ser amplamente estudado, Y permanece inexplorado…”
- Tua abordagem: “Esta investigação aborda este gap através de…”
- Contribuições específicas: “As principais contribuições são: (1)…, (2)…, (3)…”
- Implicações: “Este trabalho avança o conhecimento ao demonstrar que…”
Frases poderosas que funcionam (adaptadas à tua área):
- “Este é o primeiro estudo a examinar [X] no contexto português…”
- “Ao combinar [método A] com [método B], esta investigação oferece uma perspetiva inovadora sobre…”




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