Estudante universitário a escrever declaração de uso de inteligência artificial na tese académica com laptop e documentos
, ,

Transparência no Uso de IA em Contexto Académico | Guia 2025

Tesify Avatar

5 min de leitura

Imagina o seguinte cenário: passaste meses a trabalhar na tua tese. Usaste o ChatGPT para organizar algumas ideias, reformular parágrafos e até gerar sugestões de estrutura. Pareceu-te inofensivo. Afinal, não copiaste nada de ninguém, certo?

Errado.

Na defesa, o júri questionou algumas inconsistências de estilo. Uma análise posterior revelou padrões típicos de texto gerado por IA. Resultado? Suspensão do trabalho e processo disciplinar. E o pior: tudo isto poderia ter sido evitado com uma simples declaração.

Este não é um caso isolado. Em 2024, os casos de suspeita de utilização não declarada de inteligência artificial em trabalhos académicos aumentaram exponencialmente nas universidades portuguesas e europeias. A tendência é clara: quem não se adapta às novas regras, paga caro.

“A transparência no uso de inteligência artificial em contexto académico tornou-se o divisor entre aprovação e reprovação.”

Aqui está a verdade que poucos te dizem: usar IA não é o problema. O problema é não declarar que a usaste.

Neste artigo, vais descobrir o que universidades e editoras científicas de prestígio mundial já exigem — e que a maioria dos estudantes portugueses ainda desconhece. Vais aprender exactamente o que incluir numa declaração de uso de IA, onde a colocar, e como transformar esta obrigação numa verdadeira proteção para o teu trabalho.

Se estás a escrever a tua tese ou qualquer trabalho académico e já usaste (ou pensas usar) ferramentas de IA, continua a ler. O que vais descobrir pode literalmente salvar anos de trabalho.

👉 Leitura relacionada: Antes de avançares, recomendo que explores os 5 Erros de Transparência com IA que Reprovam Estudantes — vai ajudar-te a perceber a gravidade do que está em jogo.

O Novo Normal — Porque Usar IA Já Não é o Problema

Lembras-te quando a internet chegou às universidades? Houve quem dissesse que seria o fim da pesquisa “séria”. Que os estudantes iam apenas copiar e colar. Décadas depois, não conseguimos imaginar investigação académica sem acesso online.

Com a inteligência artificial, está a acontecer exatamente o mesmo. Estamos no meio de uma mudança de paradigma.

Ilustração de transparência académica com IA: estudante ao computador com ícones de documentos, escudo de proteção e símbolos de verificação

Nos primeiros meses após o lançamento do ChatGPT, muitas instituições reagiram com pânico. Proibições totais. Bloqueios de acesso em redes universitárias. Ameaças de expulsão. Mas esta abordagem rapidamente se revelou insustentável. Porquê?

  • As ferramentas de IA são demasiado acessíveis para serem bloqueadas eficazmente
  • Proibir completamente ignora os benefícios legítimos destas tecnologias
  • A detecção de uso de IA ainda não é 100% fiável
  • O mercado de trabalho já espera competências em IA

Por isso, as principais instituições académicas e editoras científicas do mundo mudaram de estratégia. Em vez de proibir, passaram a regular. E a palavra-chave dessa regulação é: transparência.

Aqui está o que realmente importa entender: quando submetes um trabalho académico, tu és o responsável por tudo o que lá está escrito. Não a IA. Não o ChatGPT. Tu.

Isto significa que podes usar IA como ferramenta auxiliar — tal como usas um corretor ortográfico ou uma calculadora — desde que declares que a utilizaste, expliques para que fim, confirmes que supervisionaste e validaste todo o conteúdo, e assumes responsabilidade total pelo resultado final.

As maiores editoras científicas do mundo já implementaram estas regras. A Elsevier exige explicitamente que autores descrevam a ferramenta utilizada, a finalidade e o nível de supervisão humana. LLMs (Large Language Models) não podem ser listados como autores.

De forma semelhante, a Nature/Springer Nature requer documentação obrigatória quando LLMs influenciam o conteúdo, tipicamente na secção de Metodologia.

A mensagem é clara: o problema não é usar IA — é não declarar que a usaste.

A Tendência Global — Disclosure Obrigatório É o Novo Padrão

Se ainda pensas que esta questão da transparência é uma “moda passageira” ou algo que só acontece em universidades estrangeiras, prepara-te para uma surpresa. A exigência de disclosure está a tornar-se o padrão global — e Portugal não está imune a esta realidade.

Ilustração de padrões académicos globais: globo terrestre rodeado por ícones de documentos, instituições universitárias e símbolos de integridade académica

Vejamos os principais organismos que definem as regras do jogo na academia mundial:

Em 2023, o ICMJE atualizou as suas recomendações, tornando a divulgação do uso de IA uma expectativa editorial formal. Isto afecta milhares de revistas científicas em medicina e ciências da saúde — e está a servir de modelo para outras áreas.

A UNESCO publicou orientações globais que enquadram a transparência como pilar fundamental de integridade académica. As recomendações abrangem não só publicação científica, mas também educação, avaliação e investigação em geral.

Elsevier, Springer Nature, Wiley, Taylor & Francis — todas implementaram ou estão a implementar políticas de disclosure obrigatório. O que antes era “recomendável” está rapidamente a tornar-se “obrigatório”.

As universidades portuguesas estão em diferentes fases de adaptação. Algumas já têm regulamentos específicos sobre uso de IA em trabalhos académicos. Outras ainda estão a definir políticas. Mas a tendência é inequívoca: quem esperar pelas regras oficiais para se adaptar, arrisca-se a ser apanhado de surpresa.

👉 Para perceberes exactamente quais são as regras atuais e os limites do que é permitido, lê o nosso guia completo: ChatGPT na Tese: Uso Permitido e Regras 2025.

Aqui está algo que muitos estudantes não percebem: a falta de transparência pode ser interpretada como intenção de fraude. Mesmo que não tenhas copiado nada, mesmo que todo o conteúdo seja original e válido academicamente. A omissão do uso de ferramentas de IA pode ser vista como tentativa de esconder algo. E isso é muito mais grave do que simplesmente ter usado a ferramenta.

Transparência É Proteção, Não Confissão

Chegamos agora ao ponto central deste artigo — a “revelação” que realmente muda a forma como vês esta questão toda.

Declarar que usaste IA não é uma admissão de culpa. É uma proteção.

Sei que parece contra-intuitivo. A nossa primeira reação é pensar: “Se disser que usei IA, vão achar que fiz batota.” Mas é exactamente o oposto que acontece na prática.

Vamos usar uma analogia simples. Quando citas uma fonte bibliográfica no teu trabalho, estás a “admitir” que não inventaste aquela informação. Estás a mostrar que foste buscar conhecimento a outro lado. Isso diminui o valor do teu trabalho? Claro que não. Na verdade, fortalece-o — mostra rigor, honestidade intelectual e capacidade de pesquisa.

Com a declaração de uso de IA, passa-se exactamente o mesmo. Estás a demonstrar honestidade, consciência metodológica, responsabilidade e maturidade académica.

Aqui está o que os dados mostram: a maioria das reprovações e processos disciplinares relacionados com IA acontece por omissão, não por uso.

Estudantes que usaram IA de forma limitada e declararam correctamente? Passaram sem problemas. Estudantes que usaram IA extensivamente mas declararam com detalhe? Na maioria dos casos, também passaram — desde que o conteúdo fosse válido e supervisionado. Estudantes que usaram IA e não declararam? Mesmo em casos de uso mínimo, enfrentaram consequências graves.

A declaração funciona literalmente como um escudo legal e académico.

Checklist de declaração de IA: documento com caixas de verificação, ícones de ferramentas de IA, lupa de revisão e figura humana representando supervisão

Chegou a hora de ser prático. O que é que exactamente deves declarar? Aqui está o essencial:

  • Nome da ferramenta (ex.: ChatGPT-4, Claude, Grammarly)
  • Versão utilizada (se aplicável)
  • Data ou período de utilização
  • Finalidade específica (brainstorming, revisão linguística, estruturação)
  • Secções onde foi utilizada
  • Confirmação de revisão e validação humana
  • Declaração de responsabilidade total pelo conteúdo final

A ScienceDirect disponibiliza um exemplo de “Declaration of Generative AI” que podes adaptar para a tua tese ou artigo académico.

👉 Para evitares os erros mais comuns na citação de IA, consulta: 5 Erros ao Citar IA na Tese Que Reprovam Seu Trabalho.

O Que Vem Aí: Previsões Para os Próximos Anos

Se o que descrevi até agora te parece exigente, prepara-te: estamos apenas no início. As tendências atuais apontam para um futuro onde a transparência no uso de IA será ainda mais detalhada e automatizada.

Futuro da IA na educação: caminho para o horizonte com marcos, estudante a caminhar, ícones de aprendizagem assistida por IA e escudo de verificação

Os sistemas de deteção de texto gerado por IA estão em constante evolução. Embora ainda não sejam perfeitos, a precisão aumenta a cada atualização. Contar que “ninguém vai descobrir” é uma aposta cada vez mais arriscada.

Já existem plataformas de submissão académica que incluem campos específicos para declaração de uso de IA. Esta tendência vai generalizar-se. Em breve, não vais conseguir submeter um artigo ou tese sem preencher este campo.

Imagina um sistema que regista automaticamente todas as interações com ferramentas de IA durante a escrita do teu trabalho. Os “audit trails” (históricos de utilização) podem tornar-se parte integrante dos processos de submissão. Algumas universidades já estão a implementar módulos obrigatórios sobre uso ético de IA.

Perante este cenário, tens duas opções: esperar que as regras cheguem e correr para te adaptar à última hora, ou antecipar e adoptar já as melhores práticas, ganhando vantagem competitiva.

Quem se adaptar agora, lidera amanhã.

Para uma discussão mais aprofundada sobre as implicações éticas da IA em contexto educativo, recomendo este webinar da UNESCO IITE:

Guia Prático: Implementa Transparência Hoje

Chega de teoria. Vamos à ação.

Documenta Enquanto Usas. O erro mais comum é tentar reconstruir o histórico de uso de IA depois de terminar o trabalho. Cria um “diário de uso de IA” onde registas que ferramenta usaste, o prompt que introduziste, o output que obtiveste, as edições que fizeste e em que secção foi aplicado.

Escolhe a Secção Correta. Uso substantivo (geração de conteúdo, análise de dados) vai na Metodologia. Uso menor (correção gramatical, formatação) vai nos Agradecimentos. Se o regulamento exigir, cria uma Declaração específica de IA.

Usa Linguagem Clara e Específica. Evita frases vagas como “Usei IA para ajudar na escrita deste trabalho.” Prefere algo como: “Utilizei o ChatGPT-4 (versão de março de 2024) para gerar sugestões de estrutura do capítulo 3 e para revisão gramatical do resumo em inglês. Todo o conteúdo foi posteriormente reescrito, verificado e validado pelo autor, que assume total responsabilidade pelo texto final.”

Verifica o Regulamento da Tua Instituição. Consulta as regras da tua faculdade, verifica se existem templates obrigatórios e esclarece dúvidas com os serviços académicos.

Consulta o Teu Orientador. Este passo é fundamental. Mostra como usaste IA, apresenta a declaração que pretendes incluir, pede feedback e validação. Um orientador informado é o teu melhor aliado.

💡 Dica Tesify: A plataforma tesify.pt ajuda-te a estruturar a tua tese com transparência integrada — incluindo templates de declaração de IA prontos a usar e orientação sobre como documentar o uso de ferramentas de forma ética e completa.

Conclusão: A Transparência É o Teu Maior Aliado

Chegamos ao fim desta jornada — mas o teu trabalho de implementação está apenas a começar.

Primeiro, a transparência no uso de inteligência artificial em contexto académico é obrigatória — não opcional. As principais editoras e instituições do mundo já exigem declarações específicas.

Segundo, declarar protege-te; esconder expõe-te. A maioria das penalizações acontece por omissão, não por uso. A declaração é o teu escudo.

Terceiro, o padrão global está definido. ICMJE, UNESCO, Elsevier, Nature — todos convergem na mesma direção. Quem se adaptar agora, lidera amanhã.

Usar inteligência artificial de forma inteligente, ética e transparente não é sinal de fraqueza ou de “batota”. É sinal de maturidade académica. É demonstrar que entendes as ferramentas do teu tempo e que sabes usá-las com responsabilidade.

A IA veio para ficar. A questão não é se vais usá-la, mas como a vais usar. E a transparência é a chave que transforma uso potencialmente problemático em prática académica exemplar.

Agora, a decisão é tua.


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *