A Teoria de Wanda Horta no TCC de Enfermagem: Necessidades Humanas Básicas e o Processo de Enfermagem Atual (2026)
Se existe um referencial teórico «da casa» na enfermagem brasileira, é o de Wanda de Aguiar Horta. A sua Teoria das Necessidades Humanas Básicas, sistematizada no livro Processo de Enfermagem (1979), formou gerações — e continua a ser o referencial mais escolhido em TCCs de Enfermagem. O problema é que boa parte desses TCCs comete o mesmo par de erros: usa Horta como etiqueta (cita e esquece) e ancora o processo de enfermagem numa norma que já foi revogada.
Sim, revogada: a Resolução Cofen n.º 358/2009, citada há mais de uma década como «a» norma do Processo de Enfermagem, foi expressamente revogada pela Resolução Cofen n.º 736, de 17 de janeiro de 2024 — o próprio site do Cofen sinaliza a revogação na página da norma antiga, e o artigo 14.º da nova resolução revoga a anterior de forma expressa. Verificámos ambas as páginas diretamente em agosto de 2026. Um TCC que em 2026 cite a 358/2009 como norma vigente perde credibilidade na primeira página da banca.
O que a Teoria das Necessidades Humanas Básicas propõe
Horta construiu a sua teoria sobre uma ideia simples e poderosa: a enfermagem existe para assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas — e, quando possível, torná-lo independente dessa assistência, pelo ensino do autocuidado. As necessidades, na classificação que adotou, organizam-se em três níveis:
- Psicobiológicas — oxigenação, hidratação, nutrição, eliminação, sono e repouso, atividade física, integridade da pele, entre outras;
- Psicossociais — segurança, comunicação, amor e aceitação, autoestima, aprendizagem, lazer;
- Psicoespirituais — a dimensão religiosa, ética e de sentido.
Três consequências práticas para o TCC. Primeira: o olhar de Horta é integral — um estudo que só liste necessidades fisiológicas está usando meia teoria. Segunda: as necessidades manifestam-se por problemas de enfermagem, e é sobre eles que o processo atua — o vocabulário liga a teoria diretamente à prática assistencial. Terceira: a teoria é brasileira e historicamente situada; citá-la exige a fonte primária (o livro de 1979, nas edições disponíveis), não apenas apostilas.
O Processo de Enfermagem em vigor: Resolução 736/2024

A Resolução Cofen 736/2024 dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto em que ocorre o cuidado de enfermagem, e o seu artigo 4.º organiza o processo em cinco etapas inter-relacionadas, interdependentes, recorrentes e cíclicas:
- Avaliação de Enfermagem — coleta de dados subjetivos (entrevista) e objetivos (exame físico), inicial e contínua;
- Diagnóstico de Enfermagem — o julgamento clínico sobre as respostas da pessoa, família ou coletividade;
- Planejamento de Enfermagem — a definição dos resultados esperados e das intervenções;
- Implementação de Enfermagem — a execução das intervenções planejadas;
- Evolução de Enfermagem — a análise da resposta e o replanejamento.
Dois detalhes da norma interessam diretamente ao TCC: a resolução enquadra o processo como método que orienta o pensamento crítico e o julgamento clínico do enfermeiro, e prevê o uso de Sistemas de Linguagem Padronizadas de Enfermagem — o que dá cobertura normativa a TCCs que trabalhem com taxonomias diagnósticas. Repare também na mudança de vocabulário face à norma revogada: quem copiar de TCCs antigos os nomes das etapas da 358/2009 estará citando etapas que a norma atual renomeou e reorganizou. É exatamente o fenômeno de versões de normas que explicamos em qual versão da lei citar no TCC — e que aqui se aplica a uma resolução profissional.
Como articular teoria e norma no TCC
O erro estrutural mais comum é tratar Horta e a resolução como a mesma coisa. São camadas diferentes, e o TCC fica mais forte quando as distingue:
- Horta é o referencial teórico: diz o que é o ser humano para a enfermagem, o que são necessidades e por que o cuidado se organiza em torno delas. Vive no capítulo teórico e nas categorias de análise.
- A Resolução 736/2024 é o quadro normativo: regula a implementação do processo e o registro formal. Vive na contextualização e na metodologia (especialmente em estudos documentais sobre registros de enfermagem).
- A articulação é o seu trabalho: por exemplo, mostrar como a Avaliação de Enfermagem (etapa normativa) operacionaliza o levantamento de necessidades (conceito teórico) no seu campo específico. Essa ponte — teoria → norma → prática observada — é o que dá espinha ao TCC.
Um exemplo concreto de como a articulação aparece no texto: num estudo de caso sobre um paciente em pós-operatório, o capítulo teórico apresenta as necessidades de Horta; a metodologia declara que a coleta seguiu a etapa de Avaliação de Enfermagem da Resolução 736/2024, com roteiro construído a partir das três dimensões de necessidades; os resultados organizam os achados por necessidade afetada; e a discussão pergunta se o plano de cuidados respondeu às necessidades identificadas — incluindo as psicossociais e psicoespirituais que os registros costumam omitir. Cada camada tem função própria, e a banca consegue seguir o fio da teoria do primeiro ao último capítulo.
Desenhos de TCC que Horta sustenta bem
- Estudo de caso clínico com plano de cuidados organizado por necessidades — o desenho clássico, sólido quando as necessidades estruturam de fato a análise.
- Análise documental de registros: os registros do serviço contemplam as três dimensões de necessidades? As etapas da 736/2024 estão documentadas? É um TCC viável, atual e com relevância prática imediata.
- Revisão sobre necessidades específicas (sono em UTI, comunicação em cuidados paliativos) usando Horta como lente de recorte.
- Educação em saúde e autocuidado — o fim último da assistência em Horta é a independência; intervenções educativas conversam naturalmente com a teoria.
Para a escolha do tema e a estrutura formal do trabalho, o guia geral está em TCC de Enfermagem: temas e estrutura; e o capítulo de análise — onde a teoria tem de reaparecer — em análise e discussão de resultados no TCC.
Os erros que a banca identifica em segundos
- Citar a Resolução Cofen 358/2009 como vigente. Foi revogada pela 736/2024 — e a banca de Enfermagem sabe disso melhor do que ninguém.
- Horta-etiqueta: a teoria aparece na fundamentação e as necessidades nunca estruturam a coleta nem a análise.
- Só necessidades psicobiológicas: reduzir a teoria à dimensão fisiológica contradiz o seu núcleo integral.
- Confundir teoria com taxonomia: Horta não é uma lista diagnóstica; taxonomias padronizadas são instrumentos que a norma admite, com papel próprio.
- Fonte primária ausente: citar Horta só por apostilas e artigos de terceiros. O livro existe e é curto — leia-o.
Do referencial ao TCC entregue
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Perguntas frequentes
O que é a Teoria das Necessidades Humanas Básicas de Wanda Horta?
É o referencial teórico brasileiro sistematizado por Wanda de Aguiar Horta no livro Processo de Enfermagem (1979), segundo o qual a enfermagem assiste o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas — psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais — buscando, quando possível, torná-lo independente pelo ensino do autocuidado.
Qual resolução do Cofen rege o Processo de Enfermagem em 2026?
A Resolução Cofen n.º 736, de 17 de janeiro de 2024, que revogou expressamente a Resolução 358/2009. Ela organiza o Processo de Enfermagem em cinco etapas inter-relacionadas, recorrentes e cíclicas: Avaliação, Diagnóstico, Planejamento, Implementação e Evolução de Enfermagem. Um TCC atual deve citar a 736/2024 — e pode mencionar a 358/2009 apenas como histórico.
Horta e o Processo de Enfermagem são a mesma coisa?
Não. A teoria de Horta é o referencial que explica o cuidado em torno das necessidades humanas; o Processo de Enfermagem é o método sistematizado — hoje regulado pela Resolução Cofen 736/2024 — pelo qual o cuidado é planejado, executado e registrado. O TCC ganha qualidade quando distingue as camadas e mostra como se articulam no seu campo.
Posso usar Horta junto com uma taxonomia diagnóstica padronizada?
Pode — a própria Resolução 736/2024 prevê o uso de Sistemas de Linguagem Padronizadas de Enfermagem. Nesse desenho, Horta fornece a lente teórica (necessidades) e a taxonomia fornece o instrumento de nomeação diagnóstica; o TCC deve explicar o papel de cada camada em vez de as fundir.
Que fontes devo citar num TCC com referencial de Horta?
A fonte primária — o livro Processo de Enfermagem, de Wanda de Aguiar Horta (1979, nas edições disponíveis) —, a Resolução Cofen 736/2024 consultada no site do Cofen (com data de acesso), e literatura recente que aplique a teoria ao seu campo específico. Evite construir o capítulo teórico só com apostilas e citações de segunda mão.
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