Teoria Fundamentada (Grounded Theory) na Tese 2026: Guia

Teoria Fundamentada (Grounded Theory) na Tese 2026: Guia

A teoria fundamentada (grounded theory) na tese é uma das escolhas metodológicas mais exigentes — e mais recompensadoras — que um investigador qualitativo pode fazer. Desenvolvida originalmente por Barney Glaser e Anselm Strauss em 1967, esta abordagem propõe construir teoria diretamente a partir dos dados, sem partir de um quadro conceptual predefinido. Passadas quase seis décadas, o método evoluiu para três correntes distintas, cada uma com pressupostos filosóficos e procedimentos de codificação próprios. Saber qual escolher — e como justificá-la perante a comissão de avaliação — é o que separa uma dissertação sólida de uma que oscila entre paradigmas sem reconhecer isso.

Este guia explica as três escolas principais (Glaser, Strauss/Corbin e Charmaz), detalha as etapas de codificação, define saturação teórica e amostragem teórica, e indica quando este método é a escolha certa para o seu projeto.

Resposta rápida: A teoria fundamentada (grounded theory) é um método qualitativo que gera teoria a partir de dados empíricos através de codificação sistemática e comparação constante. Existem três versões: clássica (Glaser), sistemática (Strauss/Corbin) e construtivista (Charmaz). A escolha determina os procedimentos de codificação e os critérios de rigor aplicáveis à sua tese.

O que é a teoria fundamentada

Fonte: Acadêmica — Pesquisa na Prática #83 (canal sobre metodologia de investigação)

A teoria fundamentada — tradução de grounded theory — é uma metodologia de investigação qualitativa que tem por objetivo gerar teoria substantiva enraizada nos dados. O ponto de partida não é uma hipótese a testar, mas uma questão de investigação aberta sobre um processo ou fenómeno social ainda pouco explicado na literatura.

O núcleo do método é o método comparativo constante: cada novo dado é comparado sistematicamente com os anteriores, permitindo identificar semelhanças e diferenças que conduzem à formação de categorias cada vez mais abstractas. Este ciclo iterativo — recolha, codificação, análise, nova recolha — prolonga-se até atingir a saturação teórica, ponto em que dados adicionais já não acrescentam categorias novas.

A teoria resultante não é uma grande teoria formal de âmbito universal; é uma teoria substantiva, válida para o contexto e a população estudados, e transferível para contextos com características semelhantes. Esta distinção é fundamental para enquadrar adequadamente a contribuição da sua tese.

Segundo a revisão publicada no Revista de Administração Mackenzie (SciELO), a grounded theory continua a ser um dos métodos qualitativos mais citados em ciências sociais, gestão e saúde, precisamente pela sua capacidade de gerar teoria nova em vez de confirmar a existente.

As três escolas: Glaser, Strauss/Corbin e Charmaz

Falar de “grounded theory” como se fosse um método único é um erro frequente nas teses de mestrado e doutoramento. Existem três versões com diferenças filosóficas e procedimentais relevantes:

Comparação das três escolas de grounded theory
Dimensão Glaser (Clássica) Strauss & Corbin (Sistemática) Charmaz (Construtivista)
Ontologia Realismo crítico Realismo pragmatista Relativismo construtivista
Epistemologia Objetivista — a teoria emerge dos dados sem interferência Objetivista com uso de paradigma analítico Interpretativista — investigador co-constrói a teoria
Tipos de codificação Substantiva + Teórica Aberta + Axial + Seletiva Inicial + Focada + Teórica
Papel da literatura Evitar antes da análise (não contaminar) Usar para sensibilização teórica Usar como recurso reflexivo ao longo
Memorandos Central e constante desde o início Importante mas mais estruturado Central, com dimensão reflexiva e pessoal
Perfil de uso na tese Doutoramento com maior experiência metodológica Mais comum em dissertações de mestrado Adequada a temas de identidade, experiência, subjetividade

Fases de codificação por escola — síntese comparativa

Glaser: Codificação substantiva (linha a linha) → Codificação teórica (integração conceptual)
Strauss/Corbin: Codificação aberta → Codificação axial (paradigma analítico) → Codificação seletiva (categoria nuclear)
Charmaz: Codificação inicial (incidente a incidente) → Codificação focada → Codificação teórica (integração)

Baseado em: Glaser (1978), Strauss & Corbin (1998), Charmaz (2014). Consulte o regulamento da sua instituição para verificar qual versão é aceite pelo seu programa.

Glaser: a versão clássica

Barney Glaser defende que o investigador deve entrar no campo sem hipóteses nem revisão de literatura extensa, para evitar contaminar o processo de emergência teórica. A codificação divide-se em substantiva (codificação de primeira ordem, próxima dos dados) e teórica (integração em categorias abstratas). Esta versão é a mais exigente em termos de disciplina analítica e adequa-se melhor a projetos de doutoramento com tempo suficiente para ciclos iterativos prolongados.

Strauss e Corbin: a versão sistemática

Anselm Strauss (co-autor original) desenvolveu, com Juliet Corbin, uma versão mais estruturada que propõe três tipos distintos de codificação — aberta, axial e seletiva — e um “paradigma analítico” (condições causais, fenómeno, contexto, condições intervenientes, estratégias de ação, consequências) que guia a análise axial. Esta versão é a mais ensinada nos programas de mestrado em Portugal e no Brasil pela sua operacionalização clara, tal como descreve a análise metodológica publicada na Redalyc sobre teorização com Grounded Theory.

Charmaz: a versão construtivista

Kathy Charmaz reformulou a grounded theory à luz do construtivismo social. Para Charmaz, o conhecimento não é descoberto nos dados, mas co-construído entre investigador e participantes. A codificação divide-se em inicial (linha a linha ou incidente a incidente), focada (seleção dos códigos mais significativos) e teórica (integração conceptual). Charmaz rejeita a codificação axial de Strauss/Corbin por a considerar excessivamente prescritiva. Esta versão é especialmente indicada para teses sobre experiências vividas, identidade profissional ou processos de mudança subjetiva.

A escolha entre versões tem de estar explicitamente justificada no capítulo de metodologia da sua tese. Uma declaração do tipo “utilizou-se a grounded theory” sem especificar a escola é insuficiente e frequentemente motivo de crítica nas provas.

Fases de codificação passo a passo

Independentemente da escola, a codificação na grounded theory segue uma lógica de progressiva abstração. O exemplo que se segue usa a versão Strauss/Corbin, por ser a mais comum nas teses de mestrado, mas as diferenças com as outras versões são assinaladas.

1. Codificação aberta

O investigador trabalha muito próximo dos dados — transcrições de entrevistas, notas de campo, documentos — e fragmenta-os em unidades de significado denominadas códigos. Cada código nomeia um conceito identificado nos dados. Nesta fase é fundamental transcrever os dados de forma completa e fiel antes de iniciar a análise, pois qualquer omissão compromete a saturação posterior.

Na versão de Glaser, esta fase corresponde à codificação substantiva. Na versão de Charmaz, denomina-se codificação inicial e pode ser feita palavra a palavra, linha a linha ou incidente a incidente.

2. Codificação axial

Exclusiva da versão Strauss/Corbin, esta fase relaciona categorias entre si usando o paradigma analítico. O investigador identifica a categoria central (o fenómeno principal) e estabelece relações com as condições que o causam, o contexto em que ocorre, as estratégias de ação adotadas pelos participantes e as consequências dessas ações. Charmaz critica esta fase por impor uma estrutura conceptual exterior aos dados.

3. Codificação seletiva (ou teórica)

A codificação seletiva (Strauss/Corbin) ou teórica (Glaser e Charmaz) consiste em integrar todos os códigos e categorias em torno de uma categoria nuclear que dá coerência à teoria emergente. Nesta fase, os memorandos acumulados ao longo do processo tornam-se o esqueleto do argumento teórico da tese.

Para organizar estas fases, muitos investigadores recorrem a software especializado. Pode codificar no NVivo/Atlas.ti ou no MAXQDA — os três suportam codificação hierárquica, visualização de redes conceptuais e exportação de relatórios que podem ser inseridos diretamente no capítulo de análise da tese.

Memorandos: o instrumento negligenciado

Os memorandos (memos) são notas analíticas que o investigador escreve ao longo de todo o processo de codificação. Não são notas de campo — são reflexões sobre os códigos, as relações entre categorias e o desenvolvimento da teoria. Glaser considera os memorandos o recurso mais importante da grounded theory. Nas teses, estes memorandos funcionam como caderno de prova do processo analítico, podendo ser apresentados em apêndice.

Saturação teórica e amostragem teórica

Dois conceitos que muitos estudantes confundem ou usam incorretamente:

Amostragem teórica

A amostragem teórica é o processo pelo qual o investigador decide, a partir dos dados já analisados, quem ou o quê amostrar a seguir para desenvolver e refinar as categorias emergentes. Não é uma amostragem por conveniência nem uma amostragem aleatória — é guiada pelos conceitos que a análise vai produzindo. Isto significa que numa tese com grounded theory não é possível definir a totalidade da amostra antes de iniciar a recolha de dados.

Segundo um artigo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem (SciELO) sobre percurso metodológico para a saturação em pesquisa qualitativa, a amostragem teórica exige que o investigador regresse ao campo com questões específicas derivadas da análise, e não com um protocolo fechado de recolha.

Saturação teórica

A saturação teórica é o critério para encerrar a recolha de dados: atingiu-se quando novos dados já não produzem códigos ou categorias novas e as propriedades das categorias existentes estão bem desenvolvidas. O conceito foi introduzido por Glaser e Strauss em 1967 e continua a ser o principal critério de suficiência amostral em grounded theory.

Na prática, o número de entrevistas necessárias para atingir saturação varia entre 15 e 30 em estudos de grounded theory, dependendo da homogeneidade ou heterogeneidade da população e da complexidade do fenómeno em estudo. Este intervalo deve ser fundamentado metodologicamente na tese, com referência ao processo de amostragem teórica que levou a cada nova ronda de recolha, conforme aprofundado nos guias sobre planeamento de géneros académicos do Pesquisantes.

Quando usar (e quando não usar) grounded theory

A grounded theory é indicada quando:

  • O fenómeno em estudo está pouco teorizado na literatura e não existe um modelo conceptual adequado.
  • O objetivo da investigação é gerar teoria, e não testar hipóteses derivadas de teoria existente.
  • Os participantes têm um papel central na construção do significado (perspetiva construtivista) ou o fenómeno é melhor compreendido a partir das experiências dos atores (perspetiva interpretativista).
  • O contexto temporal e processual do fenómeno é relevante — a grounded theory é especialmente forte na análise de processos e mudanças ao longo do tempo.

A grounded theory não é indicada quando:

  • A teoria de base já está bem estabelecida e o objetivo é testar ou generalizar — nesse caso, abordagens dedutivas ou quantitativas são mais adequadas.
  • O prazo e os recursos não permitem ciclos iterativos de recolha e análise — a grounded theory é um método lento que não tolera atalhos metodológicos.
  • O investigador não tem familiaridade com análise qualitativa intensiva — a ausência de um template de codificação predefinido exige maturidade analítica.
  • Procura uma análise descritiva e temática dos dados — nesse caso, a alternativa: análise temática de Braun e Clarke é frequentemente mais adequada e operacionalmente mais simples.

Outro critério de distinção importante: se dispõe de dados já existentes (arquivo, documentos, registos) e não pode fazer nova recolha guiada por amostragem teórica, a grounded theory não é aplicável no seu sentido pleno. Neste caso, considere vs análise de conteúdo de Bardin, que é igualmente sistemática mas não exige ciclos iterativos de recolha.

Rigor e critérios de qualidade

O rigor em grounded theory não é avaliado pelos critérios da investigação quantitativa (validade interna, validade externa, fiabilidade, objetividade). As correntes qualitativas substituem estes conceitos por critérios próprios que deve conhecer para defender adequadamente a sua tese. Para uma visão completa sobre rigor qualitativo aplicado a diferentes métodos, consulte o guia dedicado a este tema.

No caso específico da grounded theory, os critérios de Charmaz são amplamente adoptados mesmo por investigadores que trabalham nas outras versões:

  • Credibilidade: os dados são suficientemente ricos e variados? A análise é plausível face aos dados?
  • Originalidade: a teoria produz categorias novas e oferece perspetivas frescas sobre o fenómeno?
  • Ressonância: as categorias captam a profundidade das experiências dos participantes? A teoria ressoa com os próprios participantes?
  • Utilidade: a teoria tem valor prático para os intervenientes na área em estudo?

Glaser propõe critérios ligeiramente diferentes: adequação (fit), funcionamento (work), relevância (relevance) e modificabilidade (modifiability). Strauss e Corbin usam critérios de avaliação do processo de investigação (qualidade dos dados, julgamentos analíticos, desenvolvimento teórico).

É importante apresentar explicitamente no capítulo de metodologia qual o conjunto de critérios adotado e justificar a coerência com a versão de grounded theory escolhida. Uma tese que segue Charmaz mas avalia rigor com critérios de Glaser revela incoerência paradigmática.

Software de apoio à codificação

Embora a grounded theory possa ser realizada com papel e lápis ou em processadores de texto, o software de análise qualitativa assistida por computador (CAQDAS) agiliza significativamente o processo. As três opções mais usadas em teses portuguesas e brasileiras são:

  • NVivo: interface intuitiva, ampla compatibilidade com formatos de dados, forte em visualizações (nós, mapas de conceitos, consultas de frequência). Preferido em contexto académico português.
  • Atlas.ti: interface centrada em redes de relações entre códigos, especialmente útil para a codificação axial. Popular em investigação em Ciências Sociais e Educação.
  • MAXQDA: bom equilíbrio entre funcionalidade e facilidade de uso; suporta métodos mistos. Crescimento significativo no Brasil nos últimos anos.

Independentemente do software, o investigador deve salvaguardar os projetos regularmente e exportar relatórios de auditoria que demonstram o percurso analítico. Estes relatórios são frequentemente solicitados pelas comissões de avaliação como evidência de rigor.

Como ponto de partida metodológico mais aprofundado, o guia sobre o que escrever na metodologia do CiênciaPrática oferece uma perspetiva prática sobre como articular as escolhas metodológicas na escrita da tese.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre grounded theory e fenomenologia?

A fenomenologia foca-se na descrição aprofundada da experiência vivida de um fenómeno, mantendo-se próxima dos dados sem ambição de gerar teoria. A grounded theory vai mais longe: o objetivo é produzir uma teoria substantiva que explique um processo ou fenómeno social. A fenomenologia responde “como é esta experiência?”; a grounded theory responde “como funciona este processo e o que o explica?”

Posso usar grounded theory numa tese de mestrado?

Sim, especialmente a versão sistemática de Strauss e Corbin ou a construtivista de Charmaz. A versão clássica de Glaser tende a ser mais exigente e é geralmente mais adequada ao doutoramento. Para uma dissertação de mestrado, é fundamental definir bem os limites do estudo e negociar com o orientador um design que permita atingir saturação teórica dentro do prazo disponível.

Quantas entrevistas são necessárias para atingir saturação teórica?

Não existe um número fixo. A saturação teórica depende da complexidade do fenómeno e da diversidade dos participantes. A literatura metodológica indica que estudos de grounded theory atingem frequentemente saturação entre 15 e 30 entrevistas, mas o critério determinante é a ausência de categorias novas — não um número predefinido de participantes.

Posso fazer revisão de literatura antes de usar grounded theory?

Depende da versão. Glaser desaconselha fortemente a revisão prévia para não contaminar a emergência teórica. Strauss e Corbin admitem uma revisão de sensibilização teórica. Charmaz encoraja o uso da literatura como recurso reflexivo ao longo de todo o processo. Na prática académica atual, a versão construtivista de Charmaz é a mais aceite pelos orientadores que exigem uma revisão de literatura no início da tese.

Qual a diferença entre grounded theory e análise de conteúdo de Bardin?

A análise de conteúdo de Bardin é um método descritivo e sistemático de categorizar o conteúdo de documentos ou entrevistas a partir de categorias predefinidas ou emergentes. A grounded theory vai além da descrição — o objetivo é produzir teoria. Além disso, a grounded theory exige ciclos iterativos de recolha guiados pela análise (amostragem teórica), enquanto a análise de conteúdo pode ser aplicada a um corpus fechado e previamente recolhido. Consulte o artigo sobre vs análise de conteúdo de Bardin para uma comparação detalhada.

O que são memorandos na grounded theory e para que servem?

Os memorandos são notas analíticas escritas pelo investigador ao longo de todo o processo de codificação. Não são notas de campo — são reflexões sobre os significados dos códigos, as relações entre categorias e a evolução da teoria. Glaser considera-os o recurso mais valioso da grounded theory. Numa tese, os memorandos podem ser apresentados em apêndice como evidência do percurso analítico e do desenvolvimento da teoria.

Próximos passos na sua investigação qualitativa

Escolher a grounded theory é apenas o início. Depois de definir a versão metodológica e justificá-la na tese, precisa de dominar a codificação progressiva, a escrita de memorandos e os critérios de rigor específicos da sua escola. Se está a iniciar o processo de análise, comece por transcrever os dados com rigor, organize a codificação com apoio de software adequado e registe os memorandos desde a primeira sessão analítica. O percurso é exigente, mas a teoria que emerge é genuinamente sua — fundamentada nos dados que recolheu.