Taxa de Abandono no Mestrado/Doutoramento: Dados 2026
Inscrever-se num mestrado ou doutoramento é uma das decisões mais exigentes da vida académica — e uma proporção considerável de quem começa não chega à defesa. Esta realidade é frequentemente silenciada: as universidades raramente publicam taxas de abandono de forma proativa, e os estudantes que desistem raramente falam abertamente sobre a experiência. Mas os dados existem, e em 2026 há estudos publicados que permitem quantificar o fenómeno com razoável precisão, tanto em Portugal como no Brasil.
Este artigo reúne os números disponíveis, identifica os fatores de risco mais comuns e apresenta o que a investigação diz sobre as estratégias que distinguem quem conclui de quem abandona.
Dados de Portugal: taxas por tipo de programa
O estudo mais abrangente e recente sobre doutoramentos em Portugal foi publicado com base em dados da DGES e do DGEEC (Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência). Os dados apontam para diferenças marcantes consoante o tipo de financiamento e o enquadramento institucional do programa.
| Tipo de programa | Taxa de abandono | Duração média | Fonte |
|---|---|---|---|
| Doutoramento com bolsa FCT | 14% | 56 meses | Silva & Sarrico / DGES, 2023 |
| Doutoramento sem bolsa | 41% | 81 meses | Silva & Sarrico / DGES, 2023 |
| Mestrado (geral) | 25–30% | 33 meses | Dados DGEEC / estimativas institucionais |
Fonte primária: Doutoramentos em Portugal — Pedro Luís Silva & Cláudia S. Sarrico, DGES, junho 2023. Taxa de abandono para mestrado é uma estimativa baseada em dados de matrícula vs. conclusão reportados pelo DGEEC.
Os dados do Programa de Promoção de Sucesso e Redução de Abandono no Ensino Superior, lançado pelo MCTES em setembro de 2023, reconheceram explicitamente que as taxas de não-conclusão no mestrado são “preocupantes” e justificaram uma linha de financiamento específica para apoiar as instituições na sua redução. O programa financia iniciativas de acompanhamento individualizado e de suporte ao bem-estar dos estudantes de pós-graduação.
Dados do Brasil: mestrado e doutoramento
No Brasil, os dados mais detalhados provêm de estudos centrados em programas de pós-graduação específicos avaliados pela CAPES. O maior conjunto de dados publicado focou-se nos programas de engenharia, onde a granularidade dos dados era superior, mas os padrões encontrados são consistentes com outros estudos de área.
| Tipo de programa | Taxa de evasão | Período observado |
|---|---|---|
| Mestrado académico (engenharia) | 23% | Ingressantes 2013–2017 |
| Mestrado profissional (engenharia) | 26% | Ingressantes 2013–2017 |
| Doutoramento (engenharia) | 21% | Ingressantes 2013, em 5 anos |
| Estimativa geral (todas as áreas) | 15–25% | Vários estudos |
Fonte: Tese de doutorado que avaliou causas da evasão na pós-graduação, UFRGS; dados CAPES citados no Correio Braziliense, 2024.

Um aspeto relevante do contexto brasileiro é o impacto da bolsa na conclusão: segundo dados da CAPES, mestrandos e doutorandos com financiamento completo têm taxas de conclusão significativamente superiores. A pesquisa científica brasileira depende fortemente desta população, já que cerca de 90% da produção científica do país provém de estudantes de pós-graduação — o que torna a evasão um problema com consequências diretas para a ciência nacional.
Principais fatores de risco de abandono
A investigação publicada sobre abandono na pós-graduação é consistente na identificação de um conjunto de fatores de risco. Embora a sua importância relativa varie por país, área científica e tipo de programa, estes fatores aparecem repetidamente nos estudos disponíveis:
| Fator de risco | Prevalência nos estudos | Notas |
|---|---|---|
| Ausência de financiamento | Muito alta | Maior preditor individual em Portugal |
| Problemas de relação com orientador | Alta | Comunicação deficiente, ausência de feedback regular |
| Isolamento social e académico | Alta | Especialmente em programas sem estrutura de grupo de investigação |
| Problemas de saúde mental | Crescente | Ansiedade, síndrome de impostora, burnout |
| Dificuldade de conciliar com trabalho | Alta (mestrado profissional) | Especialmente em mestrados a tempo parcial |
| Escolha inadequada de tema ou metodologia | Moderada | Projetos excessivamente ambiciosos ou mal delimitados |
O isolamento académico está relacionado com os dados sobre saúde mental dos pós-graduandos — um tema que o artigo sobre stress na reta final da tese desenvolve com dados específicos. O artigo sobre síndrome do impostor em doutorandos complementa esta perspetiva com dados sobre prevalência e impacto na progressão.
O papel decisivo do financiamento
Os dados portugueses são particularmente eloquentes sobre o impacto do financiamento. A diferença de 27 pontos percentuais na taxa de abandono entre doutoramentos com e sem bolsa FCT não se explica apenas pelo alívio financeiro direto. O financiamento também indica uma seleção mais rigorosa à entrada, cria um contexto de dedicação exclusiva que permite progressão mais rápida, e reduz o stress financeiro que é um dos fatores de precipitação do abandono.
Para o mestrado, onde a bolsa raramente existe e o financiamento é menos estruturado, os dados sugerem que as taxas de não-conclusão são substancialmente mais altas. A duração média real de 33 meses para um mestrado de 24 meses regulamentares indica que uma proporção significativa de estudantes está em atraso — e parte deles acabará por não concluir.
Estudantes internacionais: um perfil distinto
Em Portugal, a crescente internacionalização do ensino superior traz um perfil específico de risco. Estudantes internacionais — que em 2025–2026 representam uma proporção crescente dos mestrandos e doutorandos — apresentam taxas de abandono geralmente superiores às de estudantes nacionais, com exceção de grupos com forte suporte institucional ou comunitário.
Os fatores específicos incluem: dificuldades de integração cultural, barreiras linguísticas em trabalho académico de alto nível (mesmo quando o programa é em inglês), dificuldades de acesso a serviços de apoio social, e pressão familiar adicional para concluir em prazo. Estudantes brasileiros em Portugal constituem uma das maiores comunidades internacionais neste contexto e tendem a apresentar taxas de conclusão relativamente elevadas, possivelmente por proximidade linguística e cultural.
Saúde mental e abandono: os dados
A relação entre saúde mental e abandono na pós-graduação é documentada por um corpo crescente de investigação. Estudos internacionais publicados em revistas indexadas reportam que os problemas de saúde mental são um fator contribuinte em 30% a 40% dos casos de abandono precoce de programas de doutoramento.
Em Portugal, os dados específicos são escassos, mas o MCTES reconheceu formalmente o problema ao incluir apoio psicológico como componente do Programa de Promoção de Sucesso no Ensino Superior. No Brasil, o Correio Braziliense reportou em 2024 uma crise crescente de saúde mental na pós-graduação, com estudantes e orientadores a alertarem para um aumento de situações de burnout e síndrome de impostora.
A síndrome de impostora — o sentimento persistente de que se está a “enganar” o sistema académico e de que os outros descobrirão a nossa incompetência — é particularmente prevalente em estudantes de doutoramento. Para dados detalhados sobre este fenómeno, consulte o artigo sobre síndrome do impostor em doutorandos de Portugal e Brasil.
O que ajuda a concluir: evidências
Para além dos fatores de risco, a investigação também identifica fatores protetores — condições que aumentam significativamente a probabilidade de conclusão:
- Reuniões regulares com o orientador: Estudantes que se reúnem com o orientador pelo menos uma vez por mês têm taxas de conclusão substancialmente superiores. A comunicação regular, mesmo que breve, funciona como âncora de progressão.
- Integração num grupo de investigação ativo: Pertencer a um grupo com vida académica (seminários, publicações em comum, colaborações) reduz o isolamento e cria um sentido de pertença académica.
- Milestones intermédios formalizados: Programas que exigem relatórios de progresso anuais ou apresentações intermédias têm taxas de abandono inferiores, porque tornam visível a progressão — ou a falta dela — antes de ser tarde.
- Acesso a apoio psicológico: Serviços de apoio psicológico específicos para pós-graduandos, quando acessíveis e sem estigma, reduzem o risco de abandono por razões de saúde mental.
- Clareza metodológica nos primeiros 12 meses: Estudantes que consolidam a questão de investigação, a metodologia e o cronograma no primeiro ano têm prognóstico substancialmente melhor. Ver dados sobre mestrandos que não defendem a tempo para mais contexto.
Ferramentas que ajudam a estruturar e manter o ritmo de escrita — como o Tesify — podem reduzir a fase de paralisia que frequentemente antecede o abandono. A combinação de feedback contínuo e estrutura clara diminui a sensação de estar “preso” que muitos estudantes descrevem como o ponto de viragem para a desistência.
Perguntas Frequentes
Qual é a taxa de abandono no doutoramento em Portugal?
Segundo dados publicados em 2023 com base em registos da DGES, a taxa de abandono no doutoramento em Portugal varia substancialmente: 14% para programas com bolsa FCT e 41% para programas sem bolsa. A duração média real é de 56 meses com bolsa e 81 meses sem bolsa, face aos 36–48 meses regulamentares.
Qual é a taxa de abandono no mestrado no Brasil?
Estudos sobre programas de mestrado em engenharia no Brasil documentaram taxas de evasão de 23% no mestrado académico e 26% no mestrado profissional para ingressantes entre 2013 e 2017. Estimativas gerais para outras áreas situam-se entre 15% e 25%.
Posso desistir do mestrado e retomar mais tarde?
Em Portugal, a maioria das universidades permite a suspensão da matrícula por razões justificadas (doença, maternidade/paternidade, dificuldades económicas graves). A retoma posterior depende do regulamento específico e da disponibilidade do orientador. No Brasil, o regulamento varia por instituição e tipo de bolsa. Consulte a secretaria académica da sua instituição.
O que acontece à bolsa FCT se abandonar o doutoramento?
A rescisão de uma bolsa FCT implica, em regra, a devolução dos montantes recebidos a partir do momento da rescisão, exceto em casos de força maior devidamente documentados. Os termos específicos estão no regulamento de bolsas da FCT, e a aplicação varia consoante a causa da rescisão. Consulte sempre a sua instituição de acolhimento e a FCT antes de tomar qualquer decisão.
Qual é o maior fator de risco de abandono num doutoramento?
Segundo os dados disponíveis para Portugal, a ausência de financiamento é o maior preditor individual de abandono, com uma diferença de 27 pontos percentuais entre programas com e sem bolsa FCT. Outros fatores de risco elevado incluem problemas de relação com o orientador e isolamento académico/social.
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