Revisão de Literatura: 5 Métodos Testados para Citar Artigos na Tese
A revisão de literatura é, para muitos mestrandos e doutorandos, o capítulo que mais demoram a arrancar — e o que mais vezes volta com comentários do orientador. Não por falta de leitura, mas por falta de método. Leram dezenas de artigos, têm notas dispersas, e na hora de citar… surgem as dúvidas: APA ou NP405? Citação direta ou paráfrase? E se o artigo não tiver DOI?
Este guia resolve exatamente isso. Cobre os 5 métodos de citação mais usados em teses portuguesas e brasileiras, explica quando aplicar cada um, e mostra — passo a passo — como integrar cada método numa revisão de literatura que resiste ao escrutínio do júri.

O que é revisão de literatura e por que a citação importa
A revisão de literatura não é uma lista de resumos. É um argumento construído com evidências — e as citações são as pedras angulares desse argumento. Uma revisão de literatura bem executada demonstra que o investigador domina o estado da arte, identifica lacunas teóricas e justifica as opções metodológicas da investigação.
A citação incorreta compromete a revisão de duas formas simultâneas: mina a credibilidade do autor e dificulta a verificação das fontes pelo júri. Segundo dados do repositório RCAAP, as inconsistências bibliográficas figuram entre os problemas mais apontados em provas de mestrado em Portugal.
Aqui está o que distingue uma revisão de literatura sólida de uma mediana: coerência de estilo, profundidade crítica e rastreabilidade total das fontes. Os 5 métodos abaixo garantem exatamente isso.
Método 1 — APA 7.ª Edição: o padrão internacional dominante
Se a sua universidade não especificou norma, a probabilidade de a APA ser a escolha certa ultrapassa 70% — pelo menos nas Ciências Sociais, Psicologia, Educação e Ciências da Saúde. A American Psychological Association publicou a 7.ª edição em 2019, e as diferenças em relação à 6.ª edição são substanciais o suficiente para causar reprovação se ignoradas.
Estrutura da citação em texto (APA 7)
O sistema autor-data é a marca registada da APA. A citação no corpo do texto inclui apelido do autor, ano e, quando se trata de citação direta, número de página.
- Citação indireta (paráfrase): (Silva, 2022) ou Silva (2022) defende que…
- Citação direta curta (até 40 palavras): “texto citado” (Silva, 2022, p. 45)
- Citação direta longa (mais de 40 palavras): bloco recuado, sem aspas, (Silva, 2022, pp. 45-46)
- Dois autores: (Silva & Ferreira, 2021)
- Três ou mais autores: (Silva et al., 2021)
Referência completa na lista bibliográfica (APA 7)
A lista organiza-se por ordem alfabética. Para artigos científicos, o formato é:
Apelido, I. (Ano). Título do artigo em minúsculas, exceto primeira letra. Nome da Revista em Itálico, Volume(número), páginas. https://doi.org/xxxxx
Exemplo real:
Ferreira, M., & Costa, R. (2020). Metodologias qualitativas em contextos organizacionais portugueses. Revista Portuguesa de Gestão, 18(2), 112–134. https://doi.org/10.1234/rpg.2020.18.2.112
A novidade mais relevante da APA 7 é que o DOI se tornou obrigatório quando disponível, e o número de autores na referência completa passou de 6 para 20 antes de se usar reticências. Parece um detalhe — o júri não pensa assim.
Para aprofundar a gestão das suas referências em APA 7, o tutorial sobre Zotero com sincronização para Word explica como automatizar a formatação sem erro manual.
Método 2 — NP 405: a norma portuguesa oficial
A NP 405 é o sistema de referenciação bibliográfica definido pelo Instituto Português da Qualidade. É obrigatória em várias universidades públicas portuguesas, especialmente em Direito, Letras, Ciências da Informação e Biblioteconomia. Ignorá-la — quando exigida — é o tipo de erro que transforma uma defesa em constrangimento.
A norma divide-se em quatro partes publicadas entre 1994 e 2002, sendo a NP 405-1 (documentos impressos) e NP 405-4 (documentos eletrónicos) as mais relevantes para teses.
Citação em texto (NP 405)
A NP 405 admite dois sistemas: o sistema autor-data (semelhante ao APA) e o sistema numérico com notas de rodapé. A maioria das universidades que adota NP 405 opta pelo sistema autor-data.
- Formato padrão: (APELIDO, ano, p. XX)
- Note: o apelido aparece em maiúsculas — distinção clara face à APA
- Dois autores: (SILVA; FERREIRA, 2022)
- Três ou mais autores: (SILVA et al., 2022)
Referência completa (NP 405)
APELIDO, Nome próprio – Título do artigo. Nome da Revista. ISSN. Vol. X, n.º Y (Ano), p. XX-XX.
A diferença que mais surpreende quem migra de APA para NP 405: o uso do travessão (–) como separador entre elementos da referência, e o ponto final só no final de toda a entrada. Pequenos detalhes com grande peso na avaliação formal.
Método 3 — Vancouver: numeração sequencial nas ciências da saúde
Vancouver é o sistema preferido em Medicina, Enfermagem, Farmácia e áreas biomédicas. A lógica é completamente diferente dos sistemas autor-data: as referências são numeradas sequencialmente no texto, e a lista bibliográfica segue essa mesma ordem numérica — não alfabética.
Citação em texto (Vancouver)
A citação no corpo do texto é simples: um número entre parênteses ou sobrescrito, correspondendo à posição da referência na lista.
- Referência única: …como demonstrado em estudos recentes (1) ou estudos recentes¹
- Referências múltiplas: (1,3,5) ou (1-4) para sequências contínuas
Referência completa (Vancouver)
1. Apelido AB, Apelido CD. Título do artigo. Abreviatura da Revista. Ano;Volume(número):páginas.
Atenção ao número de autores: Vancouver lista até 6 autores pelo apelido seguido de iniciais sem pontos; a partir do 7.º, acrescenta-se “et al.” A abreviatura da revista segue o Index Medicus — não inventar nem usar o nome completo quando existe abreviatura oficial.
O sistema Vancouver tem uma vantagem prática que raramente se menciona: mantém o texto fluido e não sobrecarrega visualmente os parágrafos com datas e apelidos. Em artigos de revisão sistemática com 80+ referências, isso faz diferença na legibilidade.
Método 4 — Chicago/Turabian: notas de rodapé nas humanidades
Chicago é o sistema dominante em História, Filosofia, Artes e parte das Humanidades. Existe em duas variantes — Notes-Bibliography (notas e bibliografia) e Author-Date (autor-data). Para teses nas humanidades portuguesas, a variante Notes-Bibliography é a mais comum.
Citação em texto (Chicago Notes-Bibliography)
As citações aparecem como notas de rodapé (ou de fim de capítulo). A primeira citação de uma obra inclui informação completa; as seguintes usam forma abreviada.
Primeira citação em rodapé:
Nome Apelido, “Título do Artigo,” Nome da Revista Volume, n.º Número (Ano): página, https://doi.org/xxxxx.
Citações subsequentes:
Apelido, “Título abreviado,” página.
Lista bibliográfica (Chicago)
A ordem é invertida face às notas: Apelido precede o nome próprio, e os elementos separam-se por pontos.
Apelido, Nome. “Título do Artigo.” Nome da Revista Volume, n.º Número (Ano): páginas. https://doi.org/xxxxx.
O que distingue Chicago de todos os outros: a riqueza informativa das notas de rodapé permite comentários contextuais, remissões cruzadas e discussão bibliográfica — algo impossível num sistema autor-data puro. Para dissertações em História ou Filosofia, este espaço de rodapé é, frequentemente, tão valioso quanto o corpo do texto.
Método 5 — Harvard: autor-data com variações institucionais
Harvard não é uma norma com organismo oficial — é uma família de estilos autor-data amplamente usada no Reino Unido, Austrália e em várias universidades portuguesas e brasileiras que adotam o “estilo Harvard” sem especificar qual variante. Esta ambiguidade é uma armadilha real.
Citação em texto (Harvard)
A estrutura é semelhante à APA, mas com diferenças na pontuação e formatação da lista:
- Citação indireta: (Silva, 2022) — igual à APA
- Citação direta: (Silva, 2022, p. 45) — igual à APA
- Três ou mais autores: (Silva et al., 2022) — itálico no “et al.”
Referência completa (Harvard)
Apelido, I. (Ano) ‘Título do artigo em minúsculas’, Nome da Revista em Itálico, Volume(número), pp. XX–XX. doi: xxxxx.
A principal diferença face à APA: o título do artigo aparece entre plicas em vez de sem marcação, e “pp.” precede as páginas. Parece menor. Em provas de avaliação formais, não é.
Se a sua instituição menciona “Harvard” sem mais especificação, peça o guia de estilo interno ou consulte o regulamento de dissertações. Cada universidade portuguesa que usa “Harvard” tem a sua própria adaptação — e o orientador é a fonte mais fiável para confirmar qual variante se aplica.
Tabela comparativa: qual método de citação escolher?
A decisão não é estética. Depende de três fatores: área científica, norma da instituição, e tipo de publicação-alvo. Esta tabela condensa o essencial para uma decisão informada.
| Sistema | Área Principal | Formato Citação | Ordem na Lista | Organismo |
|---|---|---|---|---|
| APA 7 | Ciências Sociais, Psicologia, Educação, Saúde | Autor-data | Alfabética | APA (EUA) |
| NP 405 | Direito, Letras, Biblioteconomia (PT) | Autor-data ou numérico | Alfabética | IPQ (Portugal) |
| Vancouver | Medicina, Enfermagem, Biomédica | Numérico sequencial | Por ordem de citação | ICMJE |
| Chicago 17 | História, Filosofia, Artes, Humanidades | Notas de rodapé | Alfabética | Univ. of Chicago Press |
| Harvard | Gestão, Economia, Engenharia (variável) | Autor-data | Alfabética | Variado / institucional |
O que esta tabela não mostra — e importa saber: em Portugal, muitas teses de Gestão usam APA quando a norma oficial seria Harvard, e vice-versa. A validação com o orientador antes de escrever o primeiro capítulo poupa semanas de reformatação.
Como fazer revisão de literatura com citações corretas: guia passo a passo
Saber os métodos é metade do trabalho. A outra metade é integrá-los num processo de escrita que produza uma revisão de literatura coerente, crítica e bem estruturada. Aqui está o processo que funciona.

Passo 1 — Definir o escopo e as questões de revisão
Antes de pesquisar uma única referência, defina com precisão o que está a investigar. Uma revisão de literatura difusa reflete-se em citações dispersas e num argumento fraco. A questão de revisão deve ser específica o suficiente para orientar as buscas e ampla o suficiente para gerar material substantivo.
Passo 2 — Pesquisar em bases de dados especializadas
O Google Scholar é um ponto de partida, não um destino. Para uma revisão académica séria, as pesquisas devem cobrir:
- b-on — Biblioteca do Conhecimento Online, acesso gratuito para estudantes de instituições portuguesas
- RCAAP — repositórios científicos de acesso aberto em Portugal
- Web of Science e Scopus — para literatura internacional indexada
- PubMed — indispensável na área biomédica
Para revisões sistemáticas, o protocolo PRISMA 2020 define os critérios de reporte de buscas e seleção de estudos. O artigo sobre revisão de literatura com metodologia PRISMA detalha como construir fluxogramas de seleção conformes com as exigências internacionais.
Passo 3 — Selecionar e avaliar a qualidade das fontes
Nem toda a referência tem o mesmo peso. Um artigo publicado numa revista indexada com fator de impacto elevado não equivale a um relatório de organização não-governamental. A hierarquia de evidências varia por área, mas o princípio mantém-se: a qualidade das fontes determina a qualidade da revisão.
Passo 4 — Organizar as referências antes de escrever
Escrever sem ter as referências organizadas é o erro que mais tempo desperdiça. Uma ferramenta de gestão bibliográfica — Zotero, Mendeley ou EndNote — resolve este problema antes que ele exista. O Zotero, em particular, é gratuito, integra com o Word e exporta em qualquer formato de citação.
Passo 5 — Escrever com citações integradas, não coladas
A citação deve surgir como suporte a uma afirmação sua, não como substituta do seu raciocínio. O padrão ouro é: apresentar a ideia com as suas palavras → citar a fonte → comentar criticamente o que essa fonte acrescenta ou limita. Três movimentos. Sempre.
Passo 6 — Verificar consistência antes da entrega
Todas as citações no texto têm referência na lista? Todas as referências na lista são citadas no texto? O formato é consistente da primeira à última referência? Este triplo check evita os erros de referências que reprovam teses — e se quiser uma checklist detalhada, o guia sobre erros de referências que reprovam teses cobre cada armadilha com exemplos reais.
Erros frequentes que comprometem a revisão de literatura
A revisão de literatura é o capítulo onde mais erros de citação se acumulam — porque é o capítulo com mais referências. Os erros não são aleatórios: seguem padrões previsíveis.
Misturar estilos de citação no mesmo documento
É o erro mais comum e o mais visível. Acontece quando o estudante consulta exemplos de fontes diversas e copia o formato sem verificar consistência. O resultado: APA nas primeiras referências, algo parecido com Harvard nas últimas, e NP 405 algures no meio. O júri deteta na primeira leitura.
Citar fontes secundárias como primárias
Encontrou uma citação interessante de Foucault num artigo de 2019 e citou Foucault diretamente? Isso é uma citação secundária a passar por primária. A norma é clara: sempre que possível, aceda à fonte original. Quando não for possível, o formato correto é “Foucault, 1975, citado em Silva, 2019”.
DOI ausente quando disponível
A APA 7 tornou o DOI obrigatório quando existe. Omiti-lo não é uma opção — é um erro de formatação. A esmagadora maioria dos artigos publicados após 2000 tem DOI rastreável através do Crossref.
Referências sem correspondência no texto (e vice-versa)
Cada referência na lista tem de ter pelo menos uma citação no corpo do texto. Cada citação no texto tem de ter referência completa na lista. Qualquer desfasamento é sinal de revisão bibliográfica incompleta — ou de copiar referências de outras teses sem as ter lido.
Usar “et al.” quando não deve
Em APA 7, usa-se “et al.” a partir de 3 autores na citação em texto. Na lista de referências, listam-se até 20 autores. Em NP 405, a regra difere. Saber qual regra se aplica — e em que contexto — é o tipo de detalhe que separa uma tese bem formatada de uma que volta para revisão.
Ferramentas para gerir referências bibliográficas na revisão de literatura
A gestão manual de referências para uma tese com 60+ fontes é impraticável. Não porque seja difícil — é que é propensa a erros acumulados que só se descobrem tarde demais.

Zotero
Gratuito, open-source, com extensão para browser e integração nativa com Word e LibreOffice. Importa referências diretamente do Google Scholar, b-on e PubMed. Formata automaticamente em APA, Vancouver, Chicago e outros. O guia de início rápido da documentação oficial do Zotero leva menos de 30 minutos a completar.
Mendeley
Alternativa popular da Elsevier, com interface mais visual e boa integração com Scopus. A versão gratuita tem limitações de armazenamento, mas é suficiente para a maioria das teses de mestrado.
Rayyan
Especificamente desenhado para triagem de referências em revisões sistemáticas. O Rayyan usa inteligência artificial para sugerir inclusões e exclusões com base nos critérios definidos — útil quando se trabalha com centenas de referências candidatas.
EndNote
A opção mais poderosa para investigação avançada, com integração profunda com Web of Science. Pago, mas disponível gratuitamente através de licenças institucionais em muitas universidades portuguesas.
Independentemente da ferramenta escolhida, o princípio é sempre o mesmo: construir a base de referências antes de escrever, não durante nem depois. O tutorial sobre como criar um banco bibliográfico limpo com Zotero e sincronização com Word mostra o processo completo em contexto académico português.
- Literature Reviews: An Overview for Graduate Students — visão geral para pós-graduandos
- Ten Simple Rules for Writing a Literature Review — PLOS Computational Biology
- PRISMA 2020 Statement — norma internacional para revisões sistemáticas
Perguntas frequentes sobre revisão de literatura e citação de artigos
Qual é a diferença entre revisão de literatura e revisão sistemática?
A revisão de literatura é um processo crítico e seletivo de síntese do conhecimento sobre um tema, com critérios de inclusão definidos pelo investigador. A revisão sistemática segue um protocolo rigoroso e reprodutível — com registo prévio, estratégia de busca documentada e avaliação de qualidade dos estudos — conforme as diretrizes PRISMA 2020. A distinção é metodológica e determina o nível de evidência produzido.
Quantas referências deve ter uma revisão de literatura de mestrado?
Não existe um número universal, mas a prática comum em Portugal situa-se entre 40 e 80 referências para teses de mestrado, e entre 80 e 150 para doutoramento. O que importa mais do que a quantidade é a relevância, atualidade (preferencialmente dos últimos 10 anos) e a diversidade de tipologias — artigos em revistas indexadas, livros de referência e, pontualmente, literatura cinzenta relevante.
Posso usar o mesmo sistema de citação para toda a tese mesmo que cite fontes de tipos diferentes?
Sim — e deve fazê-lo. Um único sistema de citação aplica-se a todas as fontes: artigos, livros, capítulos de livros, teses, relatórios, sítios web e legislação. Cada tipo de fonte tem o seu formato específico dentro do sistema escolhido, mas o sistema em si é sempre o mesmo ao longo de todo o documento. Misturar sistemas é considerado erro formal.
Como citar um artigo científico sem DOI em APA 7?
Em APA 7, quando o artigo não tem DOI, incluir o URL da página da revista ou repositório onde está disponível é a alternativa recomendada. Se o artigo for de uma base de dados académica sem URL permanente (como algumas revistas impressas digitalizadas), a referência termina simplesmente na página — sem URL nem DOI. Não se usa “Recuperado em [data]” salvo quando o conteúdo muda frequentemente, como páginas web.
O que é paráfrase e quando se usa em vez de citação direta?
Paráfrase é a reformulação das ideias de outro autor com as suas próprias palavras, mantendo o significado original. Deve ser usada na maioria das citações — a citação direta reserva-se para definições técnicas precisas, afirmações que perderiam força ao ser reformuladas, ou quando a forma linguística original é tão relevante quanto o conteúdo. Uma revisão de literatura com excesso de citações diretas revela pouca capacidade de síntese crítica.
Como fazer revisão de literatura em artigos científicos disponíveis apenas em inglês?
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