Relatório de Estágio Supervisionado em Enfermagem para o TCC 2026: COFEN e Estrutura
O estágio supervisionado em Enfermagem é, para muitos cursos brasileiros, o componente curricular que mais aproxima o estudante da prática profissional — e o relatório que documenta essa experiência costuma ser tratado com menos rigor do que merece, justamente por parecer “mais simples” que o TCC. Essa impressão é enganosa: em Enfermagem, o relatório de estágio supervisionado precisa demonstrar competência técnica, raciocínio clínico e conformidade com o Código de Ética da profissão, não apenas descrever tarefas realizadas. Este guia mostra como estruturar esse relatório especificamente para a área de Enfermagem, com o que a banca e o supervisor esperam ver em cada seção.

Relatório de estágio vs. TCC em Enfermagem
Muitos estudantes de Enfermagem confundem as exigências do relatório de estágio supervisionado com as do TCC, especialmente porque ambos seguem a mesma base normativa (NBR 14724). A diferença central é de finalidade: o relatório de estágio documenta e reflete sobre a experiência prática vivida numa unidade concedente; o TCC produz conhecimento original a partir de uma pergunta de pesquisa. Para entender a estrutura ABNT que serve de base a ambos, o guia sobre o relatório de estágio supervisionado ABNT cobre a estrutura genérica; este artigo foca no que muda especificamente em Enfermagem.
1. Caracterização da unidade concedente
Em Enfermagem, a caracterização da unidade concedente vai além de dados cadastrais — deve incluir o perfil assistencial do serviço (por exemplo, uma UTI adulto, uma Unidade Básica de Saúde, uma maternidade), o perfil epidemiológico predominante dos pacientes atendidos, e a estrutura da equipe de enfermagem (proporção de enfermeiros, técnicos e auxiliares). Esta caracterização não é decorativa: ela contextualiza as atividades descritas nas seções seguintes e permite à banca avaliar se a complexidade das tarefas relatadas é compatível com o nível de estágio. Inclua também, quando relevante, o modelo de gestão do cuidado adotado pela unidade — por exemplo, cuidado por método funcional, em equipe, ou por enfermeiro de referência — porque esse modelo condiciona diretamente o tipo de atividade que o estagiário teve oportunidade de acompanhar.
2. Atividades desenvolvidas e o Processo de Enfermagem
Descreva as atividades assistenciais desenvolvidas organizando-as, sempre que possível, segundo as cinco etapas do Processo de Enfermagem definidas pela Resolução COFEN nº 736/2024 (que revogou a antiga Resolução nº 358/2009): avaliação de enfermagem (coleta de dados), diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e evolução de enfermagem. Esta organização não é apenas estética — mostra que o estagiário compreendeu o processo de enfermagem como um todo, e não apenas executou procedimentos técnicos isolados. Evite descrições genéricas como “auxiliei nos cuidados”; especifique o procedimento, o contexto clínico e, sempre que possível, o raciocínio clínico envolvido na decisão.
3. Carga horária por setor
Apresente a carga horária distribuída por setor ou turno, com uma tabela que mostre a evolução da complexidade das atividades ao longo do estágio — por exemplo, mais observação nas primeiras semanas e mais execução supervisionada nas semanas finais. Esta progressão, quando bem documentada, é um indicador de desenvolvimento de competência que a banca valoriza, em contraste com uma carga horária apresentada como um bloco uniforme sem evolução visível. Se o estágio envolveu rodízio por múltiplos setores (por exemplo, clínica médica, cirúrgica e pediatria), dedique um parágrafo curto a cada setor, destacando a competência específica desenvolvida em cada um, em vez de tratar o rodízio inteiro como um bloco homogêneo de horas.
4. Análise crítica: teoria, prática e o Código de Ética
Esta é a seção mais valorizada e a mais frequentemente malfeita. A análise crítica em Enfermagem deve articular explicitamente três elementos: os conceitos teóricos estudados no curso (teorias de enfermagem, protocolos clínicos, farmacologia aplicada), a realidade observada na prática assistencial, e os princípios do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem (Resolução COFEN nº 564/2017). Identifique situações concretas em que a teoria e a prática convergiram ou divergiram — por exemplo, protocolos de prevenção de lesão por pressão bem implementados versus limitações de recursos que dificultaram sua aplicação integral — e discuta as implicações éticas e assistenciais dessas situações, sempre preservando a confidencialidade dos pacientes envolvidos.

5. Exemplo de parágrafo de análise crítica
Para tornar a lógica concreta: “Durante o estágio na unidade de clínica médica, observou-se a aplicação sistemática da Escala de Braden na admissão de pacientes com mobilidade reduzida, em conformidade com o protocolo institucional de prevenção de lesão por pressão. Contudo, a reavaliação periódica preconizada pelo protocolo (a cada 48 horas) nem sempre foi cumprida integralmente, sobretudo em períodos de maior sobrecarga de trabalho da equipe. Essa discrepância entre o protocolo formal e a prática observada ilustra uma tensão comum na literatura de enfermagem entre a adesão a diretrizes baseadas em evidência e as limitações estruturais do cotidiano assistencial — uma tensão que o Código de Ética do COFEN reconhece implicitamente ao responsabilizar o profissional pela qualidade do cuidado dentro das condições de trabalho disponíveis.” Note que este parágrafo nomeia o protocolo, descreve a observação concreta, e conecta explicitamente à literatura e à ética profissional — é essa tripla articulação que distingue uma análise crítica forte de uma descrição neutra.
6. O papel do COREN e do preceptor
O estágio supervisionado em Enfermagem envolve dois níveis de acompanhamento que devem estar claramente identificados no relatório: o preceptor na unidade concedente (habitualmente um enfermeiro registrado no COREN da respectiva jurisdição), responsável pelo acompanhamento direto das atividades assistenciais, e o professor orientador da instituição de ensino, responsável pela orientação acadêmica do documento. Ainda que o Código de Ética do COFEN se aplique formalmente a profissionais já registrados, é esperado que o estudante demonstre conhecimento e alinhamento com os seus princípios ao longo de todo o relatório — é um dos pontos mais lidos pela banca ao avaliar a maturidade profissional do estagiário. Para uma referência sólida sobre a normativa ética e a estrutura completa do TCC de Enfermagem, o guia sobre TCC de Enfermagem: ABNT e Resoluções COFEN detalha o Código de Ética e os procedimentos de aprovação ética aplicáveis também a projetos com componente de estágio.
7. Anexos e apêndices específicos de Enfermagem
Nos anexos, inclua documentos institucionais como o Termo de Compromisso de Estágio e, quando aplicável, o parecer de comissões internas da unidade concedente. Nos apêndices, inclua instrumentos elaborados pelo próprio estagiário — por exemplo, planos de cuidado de enfermagem elaborados durante o estágio, sempre com os dados do paciente anonimizados. Se o estágio envolveu a aplicação de escalas clínicas validadas (Braden, Morse, Glasgow), documente-as corretamente na metodologia das atividades — o artigo sobre escalas e instrumentos clínicos validados para o TCC de Enfermagem detalha como citar cada instrumento corretamente, uma exigência que se aplica igualmente ao relatório de estágio quando escalas são mencionadas.
Erros que mais custam pontos
Quatro erros recorrentes em relatórios de estágio de Enfermagem: primeiro, descrever procedimentos técnicos sem contextualizar o raciocínio clínico por trás deles, reduzindo o relatório a uma lista de tarefas; segundo, omitir a articulação com o Processo de Enfermagem, tratando-o como uma formalidade teórica desconectada da prática relatada; terceiro, não mencionar o Código de Ética do COFEN na análise crítica, quando situações envolvendo confidencialidade, consentimento ou limites de atuação são praticamente inevitáveis num estágio assistencial; quarto, incluir dados identificáveis de pacientes nos anexos ou apêndices, uma violação de confidencialidade que compromete todo o documento — anonimize sempre, mesmo em documentos de circulação restrita à instituição de ensino. Se o seu curso também exige um referencial teórico mais amplo sobre uma teoria de enfermagem específica, use-a como lente para a análise crítica em vez de apenas citá-la de forma decorativa.
Perguntas Frequentes
O relatório de estágio em Enfermagem precisa de aprovação do CEP?
Normalmente não, porque o relatório documenta a prática assistencial supervisionada e não constitui pesquisa com coleta de dados para fins científicos. A aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa via Plataforma Brasil é exigida quando há um projeto de pesquisa associado ao estágio, como um TCC que usa dados coletados na unidade concedente.
Posso incluir nomes ou dados de pacientes no relatório?
Não. Mesmo em documentos de circulação restrita à instituição de ensino, o Código de Ética do COFEN exige proteção da confidencialidade do paciente. Descreva os casos de forma anonimizada, usando identificadores genéricos (por exemplo, “paciente do sexo feminino, 68 anos”) em vez de nomes ou números de prontuário.
A SAE precisa aparecer em todas as atividades relatadas?
Não é necessário aplicar as cinco etapas do Processo de Enfermagem a cada atividade pontual, mas é esperado que o relatório demonstre, ao longo do texto, que o estagiário compreende e aplica a lógica do processo de enfermagem — mesmo quando descreve procedimentos técnicos mais simples, situá-los dentro do raciocínio clínico mais amplo fortalece a análise.
Quem avalia o relatório de estágio: o preceptor ou o professor orientador?
Normalmente ambos, em papéis diferentes — o preceptor na unidade concedente avalia o desempenho assistencial durante o estágio e assina a folha de avaliação; o professor orientador da instituição de ensino avalia o documento escrito, incluindo a qualidade da análise crítica e a conformidade com as normas exigidas pelo curso.
O que fazer se a unidade concedente teve rodízio por vários setores?
Dedique uma subseção ou parágrafo específico a cada setor percorrido, destacando as competências e os tipos de atividade próprios daquele contexto, em vez de descrever o rodízio inteiro de forma genérica. Essa organização por setor facilita tanto a leitura quanto a avaliação da progressão de competências ao longo do estágio.
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