RCAAP Repositórios Científicos: Guia Completo 2026
Já alguma vez passou horas a procurar um artigo científico que sabia existir — numa tese de doutoramento portuguesa — mas não conseguia encontrar em lado nenhum? Ou tentou perceber se a sua dissertação de mestrado ficou mesmo indexada depois de a submeter? O RCAAP repositórios científicos resolve exatamente esses problemas, mas poucos estudantes entendem como funciona de verdade.
Portugal tem hoje uma das infraestruturas de acesso aberto mais desenvolvidas da Europa. O RCAAP agrega mais de um milhão de documentos científicos — teses, artigos, relatórios — provenientes de dezenas de instituições. Saber usar esta plataforma bem é uma vantagem competitiva real na investigação académica.
Este guia cobre tudo: o que é o RCAAP, como pesquisar eficazmente, como garantir que a sua tese fica depositada corretamente, e que formatos e políticas se aplicam em 2026.

O que é o RCAAP e como surgiu
O RCAAP — Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal — nasceu em 2008 como projeto conjunto entre a Universidade do Minho, a FCCN (atual RCTS) e a FCT. A ideia era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: criar um ponto único de acesso à produção científica nacional, sem barreiras de pagamento.
Antes do RCAAP, quem queria pesquisar teses portuguesas tinha de visitar individualmente o repositório de cada universidade — quando esse repositório existia. A fragmentação era enorme. O RCAAP resolveu isso ao criar um protocolo de colheita automática de metadados (baseado no padrão OAI-PMH) que agrega conteúdo de todos os repositórios aderentes.
Em dezembro de 2023, a FCT anunciou que o RCAAP tinha ultrapassado um milhão de documentos agregados — um marco histórico para a ciência aberta portuguesa. Segundo a FCT, este crescimento reflete tanto o aumento das obrigações de depósito legal como a adesão crescente das instituições ao movimento de acesso aberto.
Hoje, o RCAAP é gerido pela FCT e integra o ecossistema nacional de ciência aberta, alinhado com as políticas europeias do Horizonte Europa e com os princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable).

Que repositórios científicos estão integrados no RCAAP
O RCAAP não é um repositório único — é um agregador. Cada universidade e politécnico mantém o seu próprio repositório institucional; o RCAAP indexa-os todos. Aqui está onde muita gente se confunde: pesquisar no RCAAP dá acesso ao conteúdo distribuído por dezenas de instituições.
Os principais repositórios integrados incluem:
| Instituição | Nome do Repositório | Tipo de Conteúdo Predominante |
|---|---|---|
| Universidade do Porto | Repositório Aberto (U.Porto) | Teses, artigos, relatórios |
| Universidade de Lisboa | Repositório da UL | Teses, dissertações, artigos |
| Universidade do Minho | RepositoriUM | Teses, artigos, objetos de aprendizagem |
| Universidade de Coimbra | Estudo Geral | Teses, artigos, capítulos |
| Universidade Nova de Lisboa | RUN (Repositório Universidade Nova) | Teses, artigos, preprints |
| ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa | Repositório do ISCTE-IUL | Teses, working papers |
| Repositório Comum (FCT/MADR) | Repositório Comum | Teses sem repositório institucional próprio |
Além das universidades públicas, o RCAAP integra repositórios de institutos politécnicos, laboratórios de estado e centros de investigação. A lista completa está disponível na área de administração do portal rcaap.pt — e cresce todos os anos.
O que é menos óbvio: o RCAAP também agrega conteúdo do OATD (Open Access Theses and Dissertations) e tem acordos com o OpenDOAR, o diretório mundial de repositórios de acesso aberto. Isto significa que uma tese depositada num repositório português integrado no RCAAP pode ser encontrada por investigadores em qualquer parte do mundo.
Como pesquisar no RCAAP: estratégias passo a passo
Pesquisar no RCAAP parece simples — e é, se souber o que procura. Mas a maioria dos estudantes usa apenas a caixa de pesquisa básica e perde metade dos resultados relevantes. Há formas mais inteligentes de fazer isto.
O portal principal está em rcaap.pt. A pesquisa pode ser feita em linguagem natural ou com operadores booleanos. Aqui está o processo recomendado:
Passo 1 — Pesquisa básica por palavras-chave
Introduza os termos principais do seu tema na barra de pesquisa. O RCAAP pesquisa por padrão em títulos, resumos e palavras-chave. Para temas em português e inglês (muito comum em ciências), experimente as duas línguas — os resultados são diferentes.
Passo 2 — Filtros avançados
No menu lateral, pode filtrar por tipo de documento (tese, artigo, relatório), data, instituição, área científica e idioma. Se estiver a fazer revisão de literatura, filtre por “artigos em revistas” e defina um intervalo de anos — por exemplo, 2018-2026.
Passo 3 — Operadores booleanos
O RCAAP suporta pesquisa avançada com operadores:
- AND — todos os termos presentes:
inteligência artificial AND educação - OR — qualquer um dos termos:
burnout OR esgotamento profissional - NOT — excluir termos:
gestão NOT pública - Aspas — frase exata:
"saúde mental universitária"
Passo 4 — Exportar referências
Cada registo no RCAAP tem opção de exportar em formatos como BibTeX, RIS (para Zotero/Mendeley) ou texto simples. Isto poupa imenso tempo na gestão de referências bibliográficas.
Passo 5 — Pesquisa por autor ou instituição
Quer ver toda a produção científica de um investigador específico? Use o campo “Autor” na pesquisa avançada. Para ver o output de uma faculdade inteira, filtre por instituição. Esta função é particularmente útil para identificar os grupos de investigação mais ativos numa área.
Como depositar a sua tese nos repositórios RCAAP
Aqui está onde muita confusão acontece: não se deposita diretamente no RCAAP. Deposita-se no repositório institucional da sua universidade — e o RCAAP agrega automaticamente. O processo tem passos concretos que dependem da instituição.
O processo geral de depósito
- Aprovação da tese pelo júri — só depois da defesa e aprovação se procede ao depósito definitivo com acesso público.
- Submissão na plataforma institucional — cada universidade tem a sua plataforma (Fénix na UL/IST, SIGARRA no Porto, etc.). O nosso guia sobre submissão de teses em plataformas universitárias portuguesas detalha este processo para as principais instituições.
- Preenchimento dos metadados — título, resumo (em PT e EN), palavras-chave, área científica, orientador, data de defesa. Metadados bem preenchidos determinam se a tese aparece nas pesquisas ou fica enterrada.
- Upload do ficheiro PDF — em formato conforme o Despacho n.º 14167/2015 (ver secção de formatos).
- Definição da licença de acesso — acesso imediato, embargado (máximo 2 anos) ou restrito.
- Validação pela biblioteca — o serviço de biblioteca da instituição revê o registo antes de o tornar público.
- Colheita automática pelo RCAAP — após publicação no repositório institucional, o RCAAP recolhe os metadados na próxima colheita automática (geralmente em 24-48 horas).
O que a maioria dos estudantes não sabe é que um resumo mal escrito ou com palavras-chave genéricas reduz drasticamente a visibilidade da tese. O RCAAP pesquisa nesses campos — invista 30 minutos extra a afinar os metadados.
E se a universidade não tiver repositório próprio?
Existe o Repositório Comum, gerido pela FCT, especificamente para instituições que não têm repositório institucional. Estudantes de algumas escolas superiores e institutos podem depositar diretamente no Repositório Comum, que está igualmente integrado no RCAAP.
Política de acesso aberto FCT e obrigações legais
Em Portugal, o depósito em repositórios de acesso aberto não é apenas uma boa prática — é uma obrigação legal para projetos financiados pela FCT. E as consequências do não cumprimento são reais.
A política de acesso aberto da FCT estipula que todas as publicações científicas resultantes de financiamento FCT devem ser depositadas num repositório de acesso aberto no prazo de 12 meses após publicação (para artigos em revistas) ou imediatamente (para monografias). Teses de doutoramento financiadas pela FCT têm obrigações de depósito próprias.
O que muda com o Horizonte Europa
Para projetos do programa Horizonte Europa (2021-2027), as regras são ainda mais exigentes: acesso imediato e sem embargo para artigos em revistas científicas. Isto alinha-se com o Plano S e a visão de que toda a investigação financiada com dinheiro público deve ser pública.
Teses e dissertações: a Lei n.º 11/2017
A Lei n.º 11/2017 de 17 de abril estabeleceu a obrigatoriedade de depósito de teses e dissertações de mestrado e doutoramento em repositórios de acesso aberto integrados no RCAAP. O cumprimento deste diploma está a melhorar: segundo dados do Blog RCAAP publicados em janeiro de 2024, o Repositório Comum já regista um cumprimento legal superior a 94% para teses e dissertações.
Para entender como o depósito legal se articula com a publicação científica posterior, o nosso guia sobre como publicar um artigo a partir da tese aborda os direitos de autor, versões aceites para depósito e o processo de indexação.
Formatos de ficheiro aceites nos repositórios RCAAP
Esta é uma das áreas mais práticas e menos documentadas. Não deposita qualquer ficheiro — há formatos autorizados, definidos por despacho ministerial.
O Despacho n.º 14167/2015, publicado em Diário da República, estabelece a lista oficial de formatos aceites para depósito no RCAAP. Os principais são:
| Formato | Extensão | Recomendação |
|---|---|---|
| PDF/A (Arquivo) | ✅ Preferencial para preservação | |
| ✅ Aceite | ||
| Open Document Text | .odt | ✅ Aceite |
| Word (OOXML) | .docx | ⚠️ Aceite, mas não preferencial |
| JPEG / PNG / TIFF | .jpg / .png / .tif | ✅ Para imagens e anexos |
| XML | .xml | ✅ Para dados e metadados estruturados |
A recomendação prática é sempre usar PDF/A para a versão final da tese. Este formato garante que o ficheiro se mantém legível décadas depois, independentemente de atualizações de software — é o standard de preservação digital de longo prazo.
Se a sua tese inclui dados de investigação (datasets, código), considere também criar um Plano de Gestão de Dados. A Universidade do Minho disponibiliza o OpenDMP.PortAberta, uma ferramenta gratuita para criar e gerir planos de gestão de dados em ciência aberta.
Repositório Comum: teses e dissertações em acesso aberto
O Repositório Comum merece atenção especial porque é muitas vezes esquecido — mas é crítico para estudantes de instituições sem repositório próprio.
Criado pela FCT, o Repositório Comum serve como “repositório de última instância” para teses e dissertações de instituições que não têm infraestrutura própria. Mas também tem uma função mais ampla: centraliza o cumprimento legal do depósito de teses a nível nacional.
Quem deve usar o Repositório Comum?
- Estudantes de instituições sem repositório institucional próprio integrado no RCAAP
- Casos em que o repositório institucional não está tecnicamente funcional
- Instituições em processo de adesão ao RCAAP
O dado surpreendente sobre cumprimento
Em janeiro de 2024, o Blog RCAAP revelou que o cumprimento legal de depósito de teses no Repositório Comum superou os 94%. Este número é notável — e contraria a perceção de que o sistema de depósito obrigatório funciona mal em Portugal. A realidade é que a combinação da Lei n.º 11/2017 com o trabalho das bibliotecas universitárias está a produzir resultados concretos.
RCAAP vs. outras bases de dados científicas
O RCAAP é a melhor fonte para investigação portuguesa — mas não é a única ferramenta que deve usar. Perceber quando usar cada recurso poupa horas de pesquisa.

| Plataforma | Cobertura geográfica | Pontos fortes | Limitações |
|---|---|---|---|
| RCAAP | Portugal | Teses PT, cobertura nacional total, acesso gratuito | Apenas produção portuguesa |
| Google Scholar | Global | Volume enorme, citações, fácil de usar | Qualidade variável, sem filtros avançados |
| Scopus | Global | Indexação rigorosa, métricas de impacto | Pago (acesso via universidade) |
| Web of Science | Global | Fator de impacto, análise de citações | Pago, sem teses |
| OATD | Global | Teses internacionais em acesso aberto | Cobertura PT limitada |
| BASE (Bielefeld) | Global | Agrega repositórios europeus, inclui RCAAP | Interface menos intuitiva |
A estratégia ideal combina o RCAAP (para contexto nacional e teses) com o Google Scholar e Scopus (para literatura internacional peer-reviewed). Para teses de doutoramento internacionais, o OATD e o ProQuest Dissertations & Theses são complementos úteis.
Dicas para maximizar a visibilidade académica no RCAAP
Depositar a tese no repositório é o passo mínimo. Fazer isso bem — de forma a que o trabalho seja encontrado, citado e referenciado — exige mais atenção.
1. Escreva resumos que funcionem como abstracts científicos
O resumo é o principal campo de pesquisa no RCAAP. Um resumo vago de 5 linhas significa invisibilidade. Um resumo estruturado (problema, metodologia, resultados, conclusões) com as palavras-chave corretas garante que o trabalho aparece nas pesquisas certas. Escreva pelo menos 150 palavras por resumo.
2. Use palavras-chave específicas e em dois idiomas
Muitos campos têm terminologia estabelecida tanto em português como em inglês. Inclua palavras-chave nas duas línguas. “Inteligência artificial” e “Artificial intelligence” duplicam a visibilidade sem esforço adicional.
3. Crie um perfil ORCID e associe-o
O ORCID é o identificador único de investigador. Associar o ORCID ao registo no repositório institucional liga toda a produção científica de forma persistente — mesmo que mude de instituição. A maioria dos repositórios portugueses já suporta integração com ORCID.

4. Evite embargos desnecessários
O embargo faz sentido quando existe um processo de publicação em curso. Mas embargos “por precaução” reduzem a visibilidade durante meses ou anos. O trabalho com acesso imediato é consistentemente mais citado do que trabalho embargado — os dados são claros neste ponto.
5. Partilhe o link permanente
Cada registo no RCAAP e nos repositórios institucionais tem um handle ou DOI permanente. Use esse link (não o URL da página) em perfis académicos, LinkedIn, ResearchGate e comunicações. Links permanentes não quebram quando o repositório é atualizado.
Checklist de depósito de tese no RCAAP
