Quantos Autores Tem um Artigo Académico? Dados de Coautoria PT/BR 2026

Quantos Autores Tem um Artigo Académico? Dados de Coautoria PT/BR 2026

Em 1960, a maioria dos artigos científicos tinha um único autor. Em 2026, esse cenário inverteu-se radicalmente: o número médio de autores por artigo académico ultrapassa os 5 nas ciências da vida e aproxima-se das dezenas em física de alta energia. O fenómeno tem nome — hiperautoria — e os dados mostram que está a acelerar em todas as disciplinas, incluindo nas tradicionalmente solitárias humanidades. Perceber estes números é essencial para qualquer investigador português ou brasileiro que queira entender como o campo da coautoria está a moldar a avaliação científica, a contagem de métricas e os critérios de progressão na carreira.

Este artigo apresenta os dados mais recentes sobre o número médio de autores por artigo por área científica, a evolução histórica da coautoria entre 1900 e 2020, os casos extremos de hiperautoria, e o que tudo isto significa para investigadores a operar nos contextos do ensino superior português e brasileiro em 2026.

Resposta rápida: Em 2026, um artigo académico médio tem entre 1,3 autores (artes e humanidades) e 6 autores (imunologia e microbiologia). Nas ciências biomédicas, a média subiu de 3,99 para 6,25 autores nas últimas duas décadas — um aumento de 57%. A coautoria cresce de forma contínua em todos os 27 grandes campos do Scopus desde pelo menos 1975.

Média de autores por área científica

Os dados mais abrangentes sobre coautoria por disciplina provêm de análises ao Scopus e ao Web of Science cobrindo dezenas de milhões de artigos. A variação entre campos é enorme: enquanto um artigo típico de economia ou filosofia ainda é frequentemente obra de um ou dois investigadores, um ensaio clínico de grande escala pode listar dezenas ou centenas de nomes.

Tabela 1. Média de autores por artigo por área científica (dados c. 2020–2024)
Área científica Média de autores Tendência
Artes e Humanidades 1,3 ↑ lenta
Matemática 2,0–2,5
Ciências Sociais 2,0–3,0
Engenharia e Computação 3,5–4,5 ↑↑
Ciências da Terra e Ambiente 4,0–5,0 ↑↑
Medicina e Ciências da Saúde 5,0–7,0 ↑↑↑
Imunologia e Microbiologia 6,0 ↑↑↑
Física de Altas Energias 50–2 000+ ↑↑↑↑

Estes valores refletem dados compilados a partir de estudos publicados no Quantitative Science Studies (MIT Press) e em análises ao Scopus. A cardiopatologia, por exemplo, registava uma média de 7,4 autores já em 2005 — um valor que continua a subir. No polo oposto, em 2020, 93% dos artigos publicados em Trends in Classics tinham um único autor, confirmando que as humanidades clássicas resistem à tendência colectiva.

Evolução histórica: 1900–2026

A coautoria científica não é um fenómeno recente. Uma análise de 20 milhões de artigos do Web of Science, abrangendo todos os 27 grandes campos do Scopus desde 1900, demonstrou que a coautoria cresceu de forma contínua, universal e sem sinais de abrandamento — daí o subtítulo do estudo publicado no Quantitative Science Studies (2022): “contínua, universal e em expansão permanente”.

Dado chave: No início do século XX, praticamente todos os artigos científicos tinham um único autor. Em 2000, a média situava-se entre 2 e 7 co-autores, consoante a disciplina. Em 2024, essa média subiu para entre 5 e 6 nas ciências biomédicas — um crescimento que não mostra sinais de inversão.

Os marcos históricos da coautoria confirmam acelerações em momentos específicos:

  • Anos 1950–1970: a Big Science (física nuclear, corrida espacial) normaliza equipas grandes em laboratórios partilhados.
  • Anos 1980–1990: a internacionalização da investigação faz crescer as colaborações transfronteiriças. Em 1990, 10% dos artigos do Web of Science tinham pelo menos um co-autor internacional; em 2011, esse valor chegou a 25%.
  • Anos 2000–2010: os grandes consórcios clínicos (ISOGON, ECOG, etc.) tornam rotineiras as listas com 30 a 100 autores.
  • Anos 2010–2026: a física de partículas, a genómica e os estudos multicêntricos de COVID-19 empurram os limites para milhares de autores por artigo.

Nas ciências biomédicas especificamente, um estudo retrospectivo publicado na Scientometrics em 2024 registou um aumento da média de autores de 3,99 para 6,25 entre os primeiros e os últimos anos do período analisado — uma subida de 57%, com uma taxa de crescimento relativo médio de 2,28% ao ano, seguindo uma tendência linear estável.

Gráfico mostrando o aumento do número de autores por artigo em seis revistas científicas ao longo do tempo, de publicações com 1 autor no século XIX até dezenas de autores no século XXI
Número de autores por artigo em seis revistas científicas ao longo do tempo. Cada círculo representa a distribuição do número de autores por ano. Fonte: Wikimedia Commons — Chapman et al. (2019), Proceedings of the Royal Society B (CC BY 4.0)

Hiperautoria: quando os autores chegam aos milhares

A hiperautoria — artigos com 100 ou mais autores — deixou de ser uma curiosidade para se tornar uma realidade mensurável. Os dados mostram que o número de artigos com mais de 1 000 autores mais do que duplicou num período de cinco anos.

Os casos extremos documentados incluem:

  • Um artigo de astrofísica publicado em 2017 com 3 674 autores.
  • Um estudo multicêntrico sobre a eficácia da vacinação contra SARS-CoV-2 em contexto cirúrgico, publicado em 2021, com mais de 15 000 co-autores — o maior registo conhecido até à data.
  • Na física de altas energias, a lista de signatários em determinados artigos do LHC (Large Hadron Collider) ultrapassa 2 080 nomes.
Atenção — coautoria espúria: O crescimento da coautoria trouxe consigo práticas problemáticas. A coautoria por cortesia (incluir chefes de departamento ou orientadores sem contribuição real) e a coautoria fantasma (omitir colaboradores essenciais) são reconhecidas como problemas de integridade académica. O blogue “Sobrevivendo na Ciência” de Marco Armello trata exactamente este tema, distinguindo coautoria legítima de coautoria espúria.

Os critérios do ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors) exigem que cada autor tenha: (1) contribuição substancial à concepção ou execução do estudo; (2) participação na redacção ou revisão crítica do manuscrito; (3) aprovação da versão final; e (4) responsabilidade por todos os aspectos do trabalho. Na prática, estes critérios são frequentemente ignorados em contextos de pressão académica elevada.

Portugal e Brasil no contexto internacional

Portugal e o Brasil partilham uma trajetória de crescimento em coautoria internacional, mas partem de patamares diferentes e enfrentam dinâmicas distintas.

Portugal

Portugal acompanha a tendência europeia de internacionalização da investigação. Os dados do SCImago Journal & Country Rank para 2022–2024 colocam Portugal entre os países com maior proporção de artigos em colaboração internacional, com valores superiores à média da UE em várias áreas de engenharia e ciências da saúde. As universidades portuguesas com maior volume de publicações — como a Universidade do Porto, a Universidade de Lisboa e a Universidade de Coimbra — integram frequentemente consórcios europeus (projetos H2020 e Horizonte Europa) que, pela sua natureza, resultam em artigos com 10 a 30 autores de múltiplos países.

A adoção alargada do ORCID em Portugal — o país tem uma das maiores taxas de registo por investigador activo na Europa — facilita a rastreabilidade das contribuições individuais mesmo em equipas grandes, um factor relevante para avaliar a autoria real em artigos com muitos signatários.

Brasil

No Brasil, a coautoria é influenciada pela estrutura de financiamento da CNPq e da CAPES, que valorizam a colaboração interinstitucional e internacional. Os programas de pós-graduação com nota 6 e 7 na avaliação quadrienal da CAPES têm, como critério implícito, a capacidade de gerar publicações em colaboração internacional. Um relatório Bori-Elsevier de 2024, com dados do SciVal para o período 2019–2023, coloca o Brasil entre os 53 países com mais de 10 000 artigos por ano indexados no Scopus — uma produção em que a coautoria média por artigo superou os 5 autores nas áreas de saúde pública, biomedicina e ciências agrárias.

A estrutura dos TCCs e dissertações de mestrado no Brasil é diferente: estes trabalhos são habitualmente de autoria individual, mas a tendência de teses por compilação de artigos — em que cada capítulo é um artigo publicado com co-autores — está a introduzir dinâmicas de coautoria também ao nível da pós-graduação. Compreender quantos mestrandos não conseguem concluir a tempo é relevante aqui: as exigências de publicação em co-autoria aumentam a complexidade do percurso, como documentado em dados sobre atrasos no mestrado em Portugal.

Implicações para métricas e avaliação

O aumento do número de autores por artigo tem consequências directas para a forma como as métricas de desempenho são calculadas e interpretadas.

Índice-h e o problema da coautoria

O índice-h não distingue entre o primeiro autor de um artigo e o décimo-oitavo. Isto significa que investigadores em campos com muita coautoria (medicina, física) acumulam citações — e portanto índice-h — mais facilmente do que colegas de igual mérito em humanidades, onde a norma é a autoria individual. O índice hm de Schreiber, uma variante que ajusta o valor pelo número de co-autores, procura corrigir esta distorção, mas não é ainda adoptado de forma sistemática nas avaliações institucionais portuguesas ou brasileiras.

APC e divisão de custos

Em acesso aberto, o custo de publicação (APC — Article Processing Charge) pode ser partilhado entre os co-autores ou pelas suas instituições. Com artigos a custar entre 1 500 e 3 500 euros nas revistas de topo, a existência de múltiplas afiliações e financiamentos distintos torna a coautoria também uma estratégia de gestão de custos de publicação. Os dados sobre reprovações por plágio em teses PT/BR mostram que a pressão para publicar — frequentemente em co-autoria — está a moldar comportamentos académicos de risco.

Revisão por pares em artigos com muitos autores

A revisão por pares de artigos com dezenas de co-autores levanta questões sobre responsabilidade intelectual: quem responde pelos erros? Estudos recentes mostram que artigos com 10 ou mais autores têm taxas de retratação ligeiramente superiores à média, não porque a colaboração promova erros, mas porque o processo de verificação interna tende a diluir-se em equipas muito grandes.

Recurso complementar: O blogue da Biblioteca da ECA (USP) explora o uso do ScriptLattes para visualizar grafos de colaboração entre docentes — uma ferramenta útil para analisar redes de coautoria em contexto institucional português e brasileiro.

O que muda para quem está a escrever uma tese

Para um mestrando ou doutorando em Portugal ou no Brasil, estes dados têm implicações práticas:

  • Reconhecer a norma disciplinar: se está em biomedicina e o orientador sugere 8 co-autores, isso está dentro da norma. Se está em história e recebe a mesma sugestão, vale questionar.
  • Documentar contribuições: a adopção do ORCID e das declarações de contribuição (CRediT taxonomy) protege a autoria individual mesmo em artigos com equipas grandes.
  • Recusar coautoria espúria: assinar um artigo sem ter contribuído para a pesquisa, a redação ou a revisão é uma violação de integridade académica com consequências reais, incluindo potencial envolvimento em retratações futuras.

A plataforma Tesify ajuda investigadores a estruturar capítulos e secções de forma consistente, incluindo teses por compilação de artigos em co-autoria, com controlo de versões e compatibilidade com normas de formatação de múltiplas universidades portuguesas e brasileiras.

Perguntas frequentes

Qual é o número médio de autores por artigo científico em 2026?

Varia muito por área: de 1,3 autores em artes e humanidades a 6 em imunologia e microbiologia. Nas ciências biomédicas, a média situava-se em 6,25 autores por artigo em dados recentes, um aumento de 57% face às duas décadas anteriores. Em física de altas energias, casos extremos ultrapassam os 2 000 signatários.

O que é a hiperautoria e porque está a crescer?

Hiperautoria refere-se a artigos com mais de 100 autores (em física, frequentemente mais de 1 000). Cresce porque grandes consórcios de investigação — aceleradores de partículas, estudos multicêntricos clínicos, projectos genómicos — envolvem centenas de laboratórios que contribuem dados ou amostras. O maior artigo alguma vez publicado em termos de autores tinha mais de 15 000 co-autores.

Qual a diferença entre coautoria legítima e coautoria espúria?

Coautoria legítima implica contribuição real: concepção ou execução do estudo, redação ou revisão crítica, aprovação da versão final e responsabilidade partilhada. Coautoria espúria inclui a inclusão de nomes por cortesia (chefes de departamento, financiadores) sem contribuição real, ou a omissão de colaboradores que contribuíram efectivamente. Os critérios do ICMJE são a referência internacional para distinguir as duas.

Como é que a coautoria afecta o índice-h de um investigador?

O índice-h não ajusta pelo número de autores, pelo que investigadores em campos com muita coautoria tendem a acumular citações mais rapidamente. Variantes como o índice hm de Schreiber corrigem este efeito, mas não são ainda usadas sistematicamente nas avaliações da FCT ou da CAPES.

Portugal e Brasil têm médias de coautoria diferentes?

Sim. Portugal tem uma proporção elevada de colaborações internacionais, especialmente em engenharia e saúde, o que resulta em médias de autores mais altas por artigo. No Brasil, a coautoria é incentivada pela avaliação CAPES, mas a produção em humanidades e ciências sociais mantém médias mais baixas, próximas das europeias nestas áreas.

As teses de doutoramento podem ter co-autores?

A tese em si é um trabalho de autoria individual. No entanto, a tendência crescente de teses por compilação de artigos significa que os capítulos individuais são artigos publicados com co-autores. Neste formato, cada artigo incluso na tese pode ter vários signatários, mas o candidato ao grau permanece o autor principal da tese como um todo.