,

Exemplos de Lacuna de Investigação numa Tese de Psicologia Clínica (2026)

Exemplos de Lacuna de Investigação numa Tese de Psicologia Clínica (2026)

“Onde está a lacuna na literatura?” é a pergunta que mais trava estudantes de Psicologia Clínica na fase de projeto de tese — não porque não exista lacuna, mas porque “ninguém estudou isto ainda” não é, por si só, uma lacuna de investigação. Uma lacuna genuína mostra-se, não se afirma: é preciso ler a literatura existente e apontar exatamente o que falta, de um tipo reconhecível. Este artigo apresenta os cinco tipos de lacuna mais comuns em Psicologia Clínica, com um exemplo ilustrativo de cada um e um exemplo completo do raciocínio do início ao fim.

Resposta rápida: As lacunas de investigação mais comuns em teses de Psicologia Clínica dividem-se em cinco tipos: lacuna de população/contexto (o fenómeno foi estudado noutro grupo, não neste), lacuna de método (faltam estudos com um desenho ou instrumento específico), lacuna de evidência (os estudos existentes têm resultados contraditórios), lacuna teórica (falta aplicar um modelo teórico a este fenómeno) e lacuna prática (a investigação existe mas não chegou à prática clínica). Cada uma exige um tipo diferente de frase na introdução da tese.

1. Porque “ninguém estudou isto” não é uma lacuna

Um erro muito frequente em projetos de tese de Psicologia Clínica é apresentar a ausência de estudos como se fosse, por si só, uma justificação suficiente: “não há estudos sobre X em Portugal, logo esta tese é necessária.” O problema é que a ausência de estudos pode significar duas coisas muito diferentes — pode ser uma lacuna genuína (o fenómeno é relevante e ainda não foi estudado nesse contexto), ou pode ser um sinal de que o fenómeno, tal como formulado, não é suficientemente relevante para ter atraído investigação. A diferença entre as duas só se mostra situando a ausência dentro de um tipo de lacuna reconhecível, com a literatura relacionada citada explicitamente.

Comentário: um teste rápido para distinguir as duas situações é perguntar: “se eu alargasse a pesquisa a construtos ou populações vizinhas, encontraria literatura relacionada?” Se a resposta for sim, há muito provavelmente uma lacuna genuína e delimitável; se mesmo alargando a pesquisa não aparece nada de relacionado, o problema pode estar na formulação do tema, não na literatura.

Livros e artigos científicos empilhados com um espaço em branco no meio representando uma lacuna na literatura
Uma lacuna genuína mostra-se situando o que falta dentro da literatura já existente, não apenas afirmando a sua ausência.

2. Os cinco tipos de lacuna de investigação

Tipo O que significa
População/contexto O fenómeno já foi estudado, mas noutra população, país ou contexto clínico diferente do que a tese pretende estudar.
Método Existem estudos sobre o fenómeno, mas nenhum usou um desenho, instrumento ou tipo de medida que a tese propõe usar.
Evidência Os estudos existentes chegam a resultados inconsistentes ou contraditórios entre si, sem que a razão da discrepância esteja esclarecida.
Teórica Um modelo teórico já validado noutro domínio ainda não foi aplicado a este fenómeno ou a esta população clínica.
Prática A investigação existe e é consistente, mas ainda não foi traduzida em protocolos ou orientações para a prática clínica.

Comentário: nomear o tipo de lacuna explicitamente no texto — “esta é sobretudo uma lacuna de método, não de população” — é o que mostra ao júri que a ausência de estudos foi analisada, não apenas verificada por uma pesquisa rápida em bases de dados. Repare também que os cinco tipos não são mutuamente exclusivos: uma tese pode identificar uma lacuna de população que, ao mesmo tempo, é também uma lacuna de método, se o instrumento a usar nessa população ainda não tiver sido validado para ela.

3. Exemplos ilustrativos por tipo, em Psicologia Clínica

Os exemplos que se seguem são ilustrativos — construídos para mostrar a lógica de cada tipo de lacuna, não para serem copiados como afirmações factuais verificadas.

População/contexto (ilustrativo): “A eficácia de intervenções baseadas em mindfulness para a redução de sintomas de ansiedade social está bem documentada em populações adultas; é substancialmente menos estudada em adolescentes de língua portuguesa, cujo contexto de socialização digital e escolar difere do das amostras predominantemente norte-americanas em que o modelo foi originalmente testado.”

Adolescente a praticar um exercício de respiração calma numa sala de apoio escolar, representando uma intervenção de mindfulness para ansiedade social
Uma intervenção de mindfulness testada em adultos ainda pode ter poucos estudos em adolescentes portugueses — uma lacuna de população/contexto.

Método (ilustrativo): “Os estudos sobre o efeito de intervenções de regulação emocional na depressão apoiam-se quase exclusivamente em medidas de autorrelato; poucos combinam essas medidas com indicadores fisiológicos (por exemplo, variabilidade da frequência cardíaca), o que limita a triangulação entre o relato subjetivo de melhoria e um correlato objetivo do estado emocional.”

Evidência (ilustrativo): “A literatura sobre a eficácia da terapia por telepsicologia face à terapia presencial em perturbações de ansiedade em adultos mais velhos apresenta resultados inconsistentes entre estudos, possivelmente devido a diferenças na literacia digital das amostras — uma variável raramente controlada nos desenhos existentes.”

Teórica (ilustrativo): “O modelo transdiagnóstico de regulação emocional, amplamente aplicado a perturbações de ansiedade e depressão isoladas, ainda não foi aplicado sistematicamente a quadros de comorbilidade entre perturbação de ansiedade generalizada e perturbação de uso de álcool.”

Prática (ilustrativo): “Apesar da evidência consistente sobre a eficácia de protocolos breves de intervenção em crise para ideação suicida em contexto de urgência hospitalar, a sua adoção sistemática nos serviços de psicologia de urgência em Portugal permanece pouco documentada, sugerindo uma lacuna entre a evidência disponível e a prática instalada.”

4. Um exemplo completo: do que se sabe à pergunta de investigação

Para mostrar como os elementos se encadeiam, eis o raciocínio completo para o exemplo de população/contexto acima, do que a literatura já mostra até à pergunta de investigação final — tudo ilustrativo:

Passo 1 — o que a literatura já sabe: intervenções baseadas em mindfulness reduzem sintomas de ansiedade social em adultos, com tamanhos de efeito moderados reportados em múltiplas revisões sistemáticas internacionais.

Passo 2 — a limitação específica: a esmagadora maioria destes estudos foi conduzida com amostras adultas de países anglófonos; estudos com adolescentes são escassos, e nenhum, tanto quanto a revisão de literatura desta tese conseguiu apurar, foi conduzido com adolescentes portugueses.

Passo 3 — a pergunta de investigação: “Uma intervenção breve baseada em mindfulness reduz os sintomas de ansiedade social em adolescentes portugueses do ensino secundário, de forma comparável ao que a literatura internacional reporta em adultos?”

Comentário: note que a pergunta final não promete “resolver” a ansiedade social nos adolescentes — promete testar se um efeito já documentado noutra população se replica nesta. É esta modéstia calibrada, e não uma promessa grandiosa, que torna a pergunta exequível dentro do prazo de uma tese de mestrado.

5. Como escrever o parágrafo da lacuna na introdução

O parágrafo da lacuna segue habitualmente uma estrutura em funil: (1) uma frase que resume o que a literatura já sabe com razoável consenso; (2) uma frase que introduz a limitação específica dessa literatura, nomeando o tipo de lacuna; (3) uma frase que liga essa limitação à pergunta de investigação da tese. Por exemplo: “A literatura confirma de forma consistente que X está associado a Y em populações adultas [frase 1]. No entanto, os estudos disponíveis raramente examinam esta associação em adolescentes, e nenhum, até à data revista, o faz no contexto português [frase 2, lacuna de população/contexto]. Esta tese propõe-se testar se a associação se mantém nesta população e neste contexto [frase 3].”

Comentário: para o enquadramento teórico que normalmente precede este parágrafo no capítulo de introdução, veja o guia sobre enquadramento teórico numa tese de Psicologia, e para a distinção entre um enquadramento clássico e um mais recente, que também ajuda a situar o tipo de lacuna teórica, o artigo sobre marco teórico clássico vs. emergente.

6. Erros que enfraquecem a lacuna apresentada

Três erros recorrentes: (1) afirmar a lacuna sem citar a literatura que a delimita — “não há estudos sobre isto” sem nenhuma referência é uma afirmação não verificável; (2) confundir uma lacuna de população com uma lacuna teórica, apresentando um fenómeno bem estudado teoricamente como se fosse teoricamente inexplorado só porque não foi testado na população-alvo da tese; (3) propor uma tese inteira para preencher uma lacuna que, na verdade, é uma lacuna prática — nesse caso, a tese pode ainda ser feita, mas o desenho apropriado é de implementação ou avaliação de programa, não um novo estudo experimental sobre o mecanismo já bem estabelecido. Um quarto erro, mais subtil, é escolher uma lacuna tão estreita que, mesmo preenchida, não acrescenta nada de relevante ao campo — por exemplo, testar um efeito já bem replicado numa população apenas ligeiramente diferente da já estudada, sem argumentar por que essa diferença poderia mudar o resultado. Para o processo completo de revisão de literatura que sustenta a identificação destas lacunas, veja o guia de metodologia de investigação e revisão de literatura, e para os instrumentos validados disponíveis para testar hipóteses relacionadas com estas lacunas em Psicologia, o guia de escalas e instrumentos validados para a tese de Psicologia.

Perguntas Frequentes

Uma tese pode abordar mais do que um tipo de lacuna ao mesmo tempo?

Pode, mas é mais forte declarar qual é a lacuna principal e tratar as restantes como secundárias. Uma tese que tente preencher simultaneamente uma lacuna de população, de método e teórica arrisca-se a ficar sem foco suficiente para responder bem a nenhuma delas dentro do prazo de um mestrado.

É preciso citar quantos estudos para provar que uma lacuna existe?

Não há um número fixo, mas a lacuna tem de ser sustentada por uma revisão da literatura suficientemente ampla para não ser refutada por um único estudo que a tese não tenha encontrado. O critério não é quantidade, é cobertura: mostrar que se procurou de forma sistemática, não apenas numa pesquisa rápida.

O que fazer se, a meio da tese, descobrir um estudo que já preenche a lacuna identificada?

Reconhecer o estudo explicitamente e reformular a lacuna com mais precisão — por exemplo, distinguindo o contexto, a amostra ou o método do novo estudo dos da sua própria tese. Ignorar um estudo relevante encontrado tardiamente é mais grave para a credibilidade da tese do que ajustar a lacuna a meio do percurso.

Em resumo

Uma lacuna de investigação em Psicologia Clínica só convence o júri quando é nomeada por tipo — população/contexto, método, evidência, teórica ou prática — e sustentada por literatura citada explicitamente, nunca apenas afirmada. O parágrafo que a apresenta segue uma estrutura em funil: o que já se sabe, o que falta especificamente, e como a tese propõe preencher essa falta, numa pergunta de investigação modesta e exequível.

Identifique a lacuna da sua tese de Psicologia Clínica com o Tesify

O Tesify ajuda a organizar a revisão de literatura e a redigir o parágrafo da lacuna de investigação da sua tese, com citações automáticas em APA 7.

Começar gratuitamente →

Escreve a tua tese ou TCC com IA

Editor inteligente, bibliografia automática (APA e ABNT) e verificação antiplágio num só sítio. Mais de 9.000 estudantes já escrevem em metade do tempo.