O Gap de Género na Autoria Científica em Números: Dados PT/BR 2026
Em Portugal, as mulheres assinam 53% dos artigos científicos como primeiras autoras — um valor que coloca o país acima da média europeia e que seria, à primeira vista, uma história de sucesso. Mas os dados do relatório Produção Científica Portuguesa, 2018–2022: Indicadores de Género da DGEEC contam uma história mais complexa sobre o gap de género na autoria científica: quando se analisa a autoria sénior — o último nome da lista, tipicamente o investigador que lidera a linha de investigação — os homens respondem por 55% das posições. A assimetria não está na porta de entrada da carreira; está no topo.
Este padrão repete-se no Brasil com nuances próprias. Num estudo publicado no Arquivos Brasileiros de Cardiologia e no International Journal of Cardiovascular Sciences, cobrindo 1.718 artigos entre 2010 e 2019, as mulheres ocupavam 45% das primeiras autorias mas apenas 29% das autorias sénior. Globalmente, a UNESCO estima que apenas 33,3% dos investigadores em todo o mundo são mulheres — proporção que permanece praticamente estagnada há uma década. Os dados de 2026 mostram que o progresso existe, mas é lento e desigual consoante a área científica e o nível da carreira.
Panorama Global: os Números da UNESCO e Elsevier 2024
O relatório Gender Equality in Research & Innovation — 2024 Review da Elsevier, que cobre 18 países e duas regiões (UE-27 e mundo), fornece a radiografia mais abrangente disponível sobre a presença feminina na produção científica. Os números principais:
- 41% dos investigadores activos mundialmente são mulheres em 2022 — contra 28% em 2001. Um progresso de 13 pontos percentuais em duas décadas.
- Nas ciências físicas, a proporção cai para 33%.
- Em matemática, engenharia e ciência computacional, a paridade de género está projectada para 2052 ao ritmo actual.
- No financiamento, as mulheres receberam 37% das bolsas de investigação em 2022, contra 29% em 2009.
A UNESCO acrescenta uma perspectiva geográfica: a proporção de investigadoras varia entre 23% no Sul da Ásia e 52% no Sudeste da Europa. Portugal e Brasil surgem consistentemente entre os países com maior paridade nominal em termos de número de investigadoras — mas os dados de autoria revelam que a paridade de acesso não se traduz automaticamente em paridade de reconhecimento.
Portugal em Detalhe: Dados DGEEC 2018–2022
O relatório Produção Científica Portuguesa, 2018–2022: Indicadores de Género da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) é a fonte de referência para o contexto português. Os dados cobrem todos os artigos com afiliação em instituições portuguesas publicados entre 2018 e 2022 — um total que cresceu de 26.129 artigos em 2018 para 29.639 em 2022.
| Posição de autoria | Mulheres | Homens |
|---|---|---|
| Primeiro autor | 53% | 47% |
| Último autor (sénior) | 45% | 55% |
| Autor de correspondência | 49% | 51% |
| Autor único | 42% | 58% |
A leitura destes dados exige contexto. Portugal tem cerca de 51% de investigadoras no total do sistema científico — um valor acima da média da UE (41%) e claramente positivo. Mas a proporção de 53% na primeira autoria reflecte sobretudo a realidade das primeiras fases da carreira académica, onde as mulheres são actualmente maioritárias: em 2024, cerca de 60% dos estudantes do ensino superior eram mulheres e representaram 53% dos doutoramentos atribuídos. A primeira autoria é frequentemente associada a investigadoras doutorandas ou em fase pós-doc.
A autoria sénior — o último nome, o PI (principal investigator) do projecto — requer décadas de carreira e acesso a financiamento competitivo para se consolidar. É precisamente aqui que o gap persiste. Para compreender a trajectória das bolsas de investigação que moldam essa progressão, as estatísticas das bolsas FCT 2026/2027 por painel científico mostram que algumas das áreas com maior presença feminina entre bolseiras continuam a ter menor representação nos quadros permanentes.
Brasil: da Cardiologia às Ciências Sociais
O Brasil apresenta um paradoxo semelhante ao português mas com diferenças estruturais importantes. Durante o período 2011–2015, cerca de 49% da produção científica brasileira envolveu mulheres como autoras — um dos valores mais altos do mundo nessa época, segundo dados citados pela UNESCO. No entanto, quando se analisa a distribuição por posição e por área, o padrão de sub-representação sénior repete-se.
O estudo publicado no Arquivos Brasileiros de Cardiologia (PMC9814799) analisou 1.718 artigos publicados entre 2010 e 2019 em dois periódicos brasileiros de cardiologia e encontrou os seguintes resultados:
| Posição | Mulheres | Homens | Total analisado |
|---|---|---|---|
| Primeiro autor | 45% | 55% | 1.718 artigos |
| Último autor (sénior) | 29% | 71% | 1.718 artigos |

A evolução temporal é reveladora: na década de 2000–2009, as mulheres representavam apenas 33% das primeiras autorias nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Em 2010–2019, esse valor subiu para 42%. Na autoria sénior, a progressão foi de 20% para 25% no mesmo periódico. O progresso existe, mas o ritmo a que se fecha o gap na liderança científica é muito mais lento do que na participação inicial.
Para investigadoras brasileiras que procuram consolidar a sua carreira através de financiamento competitivo, vale a pena compreender o retorno real do investimento na carreira académica: a análise do salário e empregabilidade do doutorado em Portugal e no Brasil mostra que as posições de liderança mais bem remuneradas continuam a refletir as assimetrias de género observadas na autoria sénior.
O Gap Sénior: Por Que a Liderança Científica É Ainda Masculina
A diferença entre primeira autoria e autoria sénior não é apenas simbólica. O último autor de um artigo é, na maior parte das disciplinas, o responsável pelo laboratório ou pela linha de investigação, o PI que obteve o financiamento e que supervisiona a equipa. Esta posição confere visibilidade, convites para revisão por pares, participação em júris de doutoramento e acesso a redes de colaboração internacional — tudo capital académico que se acumula e que é difícil de recuperar quando se perde terreno nas fases intermédias da carreira.
O fenómeno conhecido como leaky pipeline — o funil que retém menos mulheres em cada etapa ascendente da carreira académica — tem raízes documentadas na literatura. O relatório Elsevier 2024 identificou que as mulheres tendem a abandonar a investigação em maior proporção após as primeiras fases pós-doutorais, período que frequentemente coincide com a maternidade e com a maior pressão para publicar em revistas de topo. O fenómeno não é biológico: é estrutural.
A análise aprofundada que Marco Armello publicou no blogue Sobrevivendo na Ciência sobre a representatividade das mulheres na ciência identifica mecanismos concretos: painéis de conferência dominados por homens, ausência de modelos femininos de referência nas posições de liderança, e o viés de género que pode reduzir a produtividade percebida e real de equipas menos diversas. Os dados não contradizem esta análise — reforçam-na.
Tabela por Área Científica: Onde o Gap É Maior
Os dados DGEEC para Portugal (2018–2022) permitem decompor o gap por área científica. O padrão é consistente: nas áreas onde as mulheres são maioritárias como alunas, tendem também a ser maioritárias nas primeiras autorias. Mas a autoria sénior resiste à feminização em quase todas as áreas.
| Área científica | Mulheres como 1.ª autora | Observação |
|---|---|---|
| Ciências médicas e da saúde | 61% | Maior presença feminina |
| Ciências agrárias e veterinárias | 59% | Acima da média nacional |
| Ciências sociais | 52% | Próximo da paridade |
| Engenharia e tecnologia | 45% | Homens maioritários |
| Humanidades e artes | 49% | Quase paridade na 1.ª autoria |
| Total nacional | 53% | Média ponderada DGEEC |
A engenharia e tecnologia mantém-se como a área com gap mais pronunciado, tanto na primeira autoria como — previsivelmente — na autoria sénior. Este padrão alinha-se com os dados globais do Elsevier, que projectam a paridade de género em matemática, engenharia e computação apenas para 2052 ao ritmo actual de mudança.
O Gap das Citações: Ser Invisível na Literatura
Publicar não é suficiente se o artigo não for citado. A literatura sobre o gap de citações de género documenta que artigos com primeiras autoras tendem a receber menos citações do que artigos equivalentes com primeiros autores masculinos — um fenómeno que os investigadores denominam citation gender gap e que tem implicações directas nos indicadores de avaliação da carreira (h-index, fator de impacto cumulativo).
O relatório Nature de 2025 “Gender gap in research publishing is improving — slowly” confirma que o gap de citações permanece mensurável, embora tenha diminuído em algumas disciplinas durante a última década. O problema não é apenas quantitativo: afecta a visibilidade das investigadoras nas redes de colaboração e nos convites para revisão por pares, criando um ciclo de auto-reforço.
A investigação publicada na Nature em 2022 “Women are credited less in science than men” vai mais longe: as mulheres são sistematicamente sub-creditadas mesmo nos trabalhos em que participam activamente, sendo mais frequentemente agradecidas nos acknowledgements do que nomeadas como co-autoras. Esta dimensão qualitativa do gap — a invisibilidade dentro dos próprios artigos — está ausente dos grandes relatórios de autoria mas tem consequências reais na progressão académica.
Financiamento e Bolsas: O Reflexo do Gap
O gap de autoria sénior não pode ser dissociado do gap de financiamento. Em Portugal, o relatório Elsevier 2024 registou um crescimento de 8 pontos percentuais na proporção de mulheres receptoras de financiamento entre 2009 e 2022 — um dos maiores crescimentos da Europa, mas que ainda não se traduziu em paridade plena nas posições de liderança. A análise do tempo médio real para completar o doutoramento em Portugal — cerca de 70 meses face aos 48 meses formais — também tem uma dimensão de género: investigadoras que interrompem por razões familiares demoram em média mais a concluir, o que pode afectar a trajectória de publicação nos anos críticos de consolidação da carreira.
No Brasil, o CNPq tem aumentado gradualmente a proporção de mulheres entre bolseiras de produtividade, especialmente nos níveis 2 e DT. Contudo, as bolsas PQ-1A — as que conferem maior prestígio e que são frequentemente pré-requisito informal para posições de liderança — continuam maioritariamente atribuídas a investigadores masculinos. A Sociedade Bibliográfica Brasileira tem documentado como a preservação e difusão do conhecimento científico lusófono depende de estruturas institucionais que reflectem, e por vezes perpetuam, desigualdades de género históricas.
O Que Dizem os Dados sobre Soluções
A evidência empírica aponta para intervenções com maior impacto documentado. O relatório Elsevier 2024 identifica que países com políticas activas de equidade de género nas comissões de avaliação de financiamento — como os Países Baixos (+19 pontos no financiamento feminino em 2022 vs. 2009) e a Dinamarca (+13 pontos) — apresentam os maiores avanços. Portugal, com +8 pontos, está acima da média europeia mas abaixo dos líderes.
Ao nível das revistas científicas, a adopção de revisão por pares duplamente cega (double-blind peer review) tem demonstrado efeitos positivos na redução do viés de género nas decisões de publicação. A nível institucional, políticas de pausa do relógio de promoção durante a licença parental e a monitorização activa da composição de género nas autorias sénior são as medidas com maior suporte na literatura.
Para investigadoras que estão a construir o seu perfil de publicação — seja no contexto de uma tese de doutoramento ou de um percurso pós-doutoral — a visibilidade do ORCID como mecanismo de atribuição inequívoca de autoria é crescentemente relevante. A Tesify integra exportação para ORCID e pode ajudar a estruturar a produção académica desde as primeiras fases. Crie a sua conta gratuita e comece a gerir a sua produção científica com maior rigor.
Perguntas Frequentes
Qual é a percentagem de mulheres como primeiras autoras em Portugal?
Segundo o relatório DGEEC Produção Científica Portuguesa, 2018–2022: Indicadores de Género, as mulheres representam 53% dos primeiros autores de artigos científicos com afiliação em instituições portuguesas. Este valor está acima da média da UE e é particularmente elevado nas ciências médicas e da saúde (61%) e nas ciências agrárias e veterinárias (59%).
O gap de género na autoria sénior existe em Portugal?
Sim. Apesar de as mulheres serem 53% dos primeiros autores, representam apenas 45% dos últimos autores (posição sénior) e 42% dos autores únicos. A autoria sénior reflecte a liderança científica de longa data, onde os homens continuam maioritários (55%). É o chamado “paradoxo português”: paridade ou maioria na entrada, mas sub-representação persistente no topo.
Como está o Brasil em termos de autoria científica feminina?
O Brasil tem uma das maiores proporções de mulheres na produção científica da América Latina, com cerca de 49% de participação feminina nos artigos publicados entre 2011 e 2015 (UNESCO). No entanto, em áreas específicas como a cardiologia, as mulheres representam 45% das primeiras autorias mas apenas 29% das autorias sénior (dados PMC9814799, cobrindo 1.718 artigos de 2010–2019). O gap sénior é, portanto, mais acentuado no Brasil do que em Portugal neste campo específico.
O que é o gap de citações de género?
O gap de citações de género refere-se ao fenómeno pelo qual artigos com primeiras autoras tendem a receber menos citações do que artigos equivalentes com primeiros autores masculinos. Este padrão tem sido documentado em múltiplas disciplinas e afecta directamente os indicadores de avaliação da carreira académica (h-index, fator de impacto acumulado). Contribui para a menor visibilidade das investigadoras nas redes de colaboração e nos convites para revisão por pares.
Qual é a proporção global de investigadoras segundo a UNESCO?
A UNESCO estima que 33,3% dos investigadores em todo o mundo são mulheres, uma proporção que se mantém relativamente estável há cerca de uma década. Esta média global esconde variações regionais significativas: desde 23% no Sul da Ásia até 52% no Sudeste da Europa. Portugal e o Brasil estão bem acima desta média global em termos de número de investigadoras, mas mantêm gaps na autoria de liderança.
Quando é que a paridade de género na liderança científica será atingida?
Ao ritmo actual de mudança, o relatório Elsevier 2024 projecta que a paridade de género em matemática, engenharia e ciência computacional será atingida apenas por volta de 2052. Noutras áreas, como as ciências da saúde, o processo é mais rápido. Em Portugal e no Brasil, onde a base feminina no ensino superior e nas fases iniciais da investigação é já maioritária, a paridade na autoria sénior poderá chegar mais cedo — mas requer políticas activas, e não apenas progressão natural.
Fontes: DGEEC, Produção Científica Portuguesa, 2018–2022: Indicadores de Género; Elsevier, Gender Equality in Research & Innovation — 2024 Review; UNESCO, Status and Trends of Women in Science (2024); Iquierdo et al. (2023), Arquivos Brasileiros de Cardiologia, PMC9814799; Nature, Gender gap in research publishing is improving — slowly (2025); Nature, Women are credited less in science than men (2022).
