Estudante de doutoramento a usar ferramentas de IA para escrita de tese mantendo originalidade e voz autoral
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Ferramentas de IA para Tese: Escrever com Originalidade

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5 min de leitura

Última atualização: Janeiro 2025

Deixa-me ser direto contigo: em 2024, aproximadamente 15% das teses submetidas em universidades europeias foram sinalizadas por suspeita de uso indevido de inteligência artificial. E não estou a falar de plágio tradicional — estou a falar de estudantes que pensavam estar a usar ferramentas de IA “corretamente”.

Assustador, não é?

A verdade é que a maioria dos tutoriais que encontras online ensina-te a usar ChatGPT, Claude ou Jasper. Mostram-te os prompts mágicos, as técnicas de engenharia de texto, os atalhos para escrever mais rápido. Mas há algo que praticamente ninguém te diz: usar IA “corretamente” ainda pode destruir a tua originalidade.

E quando falo de originalidade, não falo apenas de evitar o plágio. Falo da tua voz autoral. Da tua contribuição única para o conhecimento. Daquilo que faz a diferença entre uma tese que passa despercebida e uma que realmente importa.

O que são ferramentas de IA para escrita de tese com originalidade?
São aplicações de inteligência artificial generativa (como ChatGPT, Claude, Jasper) utilizadas para apoiar a redação académica, mantendo a voz autoral única do investigador e cumprindo critérios de originalidade exigidos em dissertações e teses de doutoramento.

Neste artigo, vou revelar-te o que fabricantes de IA, tutoriais genéricos e até muitos orientadores não explicam. Vais descobrir as verdades incómodas, os riscos ocultos e — mais importante — um framework prático para usar estas ferramentas sem comprometer o teu trabalho de anos.

Se estás a começar o doutoramento ou já estás na fase de escrita, este pode ser o artigo mais importante que vais ler este ano. Para um panorama completo das ferramentas disponíveis, recomendo o nosso Guia completo de ferramentas de IA para escrita de tese.

Mas primeiro, vamos falar do elefante na sala.


O Elefante na Sala: Como a IA Está a Transformar (e Ameaçar) a Escrita de Teses

Não há como fugir: a inteligência artificial está a revolucionar a forma como escrevemos trabalhos académicos. A questão já não é se vais usar IA, mas como vais usá-la sem te prejudicares.

Ilustração de um espaço de trabalho minimalista com computador portátil e ícone de robô amigável representando assistência de IA na escrita académica

Desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, assistimos a uma adoção massiva por parte de estudantes universitários. Estima-se que mais de 70% dos estudantes de pós-graduação em Portugal e Brasil já experimentaram alguma ferramenta de IA generativa para apoio à escrita.

É como se de repente todos tivessem descoberto uma calculadora — ninguém quer voltar a fazer contas à mão. O problema é que escrever uma tese não é fazer contas. É demonstrar pensamento crítico, originalidade e domínio de um campo do conhecimento.

As reações institucionais têm sido mistas: algumas universidades proibiram completamente o uso de IA, outras criaram regulamentos específicos, e muitas ainda estão a tentar perceber o que fazer. Esta indefinição cria uma zona cinzenta perigosa para ti.

O Que as Políticas Editoriais Já Definiram

Enquanto muitas universidades ainda hesitam, as grandes editoras científicas já tomaram posições claras. Estas posições vão afetar-te diretamente se publicares artigos durante o doutoramento.

A Nature, numa das publicações mais influentes sobre o tema, estabeleceu regras fundamentais para o uso de ChatGPT:

  • Regra 1: IA não pode ser listada como autora de um trabalho científico
  • Regra 2: O uso de IA deve ser declarado explicitamente
  • Regra 3: Os autores humanos são 100% responsáveis pelo conteúdo

A Springer Nature publicou orientações detalhadas que incluem transparência obrigatória, responsabilidade total do autor pela precisão do conteúdo, e cautela especial com dados sensíveis e investigação não publicada.

⚠️ ATENÇÃO: Desde 2024, a Springer Nature e outras editoras exigem declaração explícita de uso de IA. Não declarar pode resultar em retração do artigo ou, no caso de teses, anulação do grau académico.

A Diferença Entre “Usar IA” e “Usar IA com Originalidade”

Aqui está o ponto crucial que a maioria ignora: há um espectro enorme entre “usar IA como assistente” e “usar IA como fantasma-escritor”.

Imagina a diferença entre pedir a um colega que reveja o teu texto e pedir que o escreva por ti. Ambos são “ajuda”, mas são eticamente e academicamente muito diferentes.

A originalidade em contexto de doutoramento significa mais do que evitar copiar outros. Significa desenvolver um argumento ou perspetiva única, demonstrar domínio crítico da literatura, contribuir com conhecimento novo para o campo, e manter uma voz autoral consistente ao longo de todo o trabalho.

Para aprofundar este conceito, recomendo a leitura do nosso artigo sobre Originalidade em Teses de Doutoramento.


5 Verdades Incómodas Sobre Ferramentas de IA para Tese em 2025

Agora vamos ao que prometemos: as verdades que ninguém te conta. Prepara-te, porque algumas podem ser desconfortáveis.

Ilustração de uma lupa a examinar um documento com símbolos de verificação e interrogação, representando a incerteza dos detetores de IA

Verdade #1 — Detetores de IA São Uma Roleta-Russa

Provavelmente já ouviste falar do Turnitin AI Detection, GPTZero, ou outras ferramentas que prometem detetar texto gerado por IA. O que talvez não saibas é que estas ferramentas têm taxas de erro significativas.

Casos reais já aconteceram: estudantes acusados injustamente de usar IA quando escreveram tudo sozinhos. O problema é particularmente grave para quem escreve em português — muitas destas ferramentas foram treinadas predominantemente em inglês, o que aumenta a probabilidade de falsos positivos noutros idiomas.

O que fazer se fores acusado injustamente? Mantém versões anteriores de todos os teus rascunhos (com timestamps), usa ferramentas de controlo de versões, documenta o teu processo de pesquisa e escrita, e prepara-te para demonstrar o desenvolvimento das tuas ideias ao longo do tempo.

Verdade #2 — “Humanizar” Texto de IA Pode Destruir a Tua Tese

Existe um mercado crescente de ferramentas que prometem “humanizar” texto gerado por IA, tornando-o indetetável. Isto é uma armadilha.

Estas ferramentas, ao tentarem disfarçar padrões de IA, frequentemente introduzem incoerências no argumento, perdem rigor terminológico específico do teu campo, criam uma voz ainda mais artificial e podem introduzir erros factuais.

É como tentar disfarçar uma peruca com outra peruca — o resultado raramente convence. A alternativa real é usar IA para ideação e brainstorm, mas escrever o texto final tu mesmo.

Silhueta humana com lâmpada acesa acima da cabeça e linhas onduladas em tons quentes a fluir, simbolizando a voz autoral única e ideias originais

Verdade #3 — A IA Não Sabe Qual É a Tua Contribuição Original

Este é talvez o paradoxo mais importante que ninguém discute.

Quando pedes ao ChatGPT para te ajudar a escrever sobre o teu tema de tese, ele vai gerar texto que parece académico. Vai usar o vocabulário certo, as estruturas certas, as referências genéricas. Mas aqui está o problema: a IA não tem ideia do que torna o TEU trabalho único.

A IA generativa foi treinada em milhões de textos académicos. O output que te dá é, por definição, uma média estatística do que já existe. E uma média nunca é original.

Já vi teses que começaram com promessas de contribuições inovadoras e acabaram completamente diluídas por excesso de dependência em IA. O investigador deixou de pensar criticamente e começou apenas a “editar” outputs. O resultado? Uma tese que dizia tudo e nada ao mesmo tempo.

Verdade #4 — Os Teus Prompts Podem Estar a Ser Usados Para Treinar Modelos

Quando escreves um prompt detalhado sobre a tua investigação no ChatGPT, Claude ou Gemini, onde vão parar esses dados?

A UNESCO, nas suas orientações sobre IA generativa, alerta especificamente para os riscos de privacidade e propriedade intelectual associados ao uso destas ferramentas em contexto de investigação.

Imagina este cenário: partilhas detalhes da tua metodologia inovadora com uma ferramenta de IA. Essa informação entra no ciclo de treino. Meses depois, outro investigador recebe uma sugestão baseada parcialmente na TUA ideia. Perdeste a precedência da descoberta sem sequer saberes.

🔒 Conselho de segurança: Antes de usar qualquer ferramenta de IA para trabalho académico, verifica a política de privacidade. Evita partilhar dados de investigação original não publicada. Considera usar versões pagas ou empresariais que ofereçam garantias de não-treino com os teus dados.

Verdade #5 — O Teu Orientador Vai Notar

Aqui está algo que muitos estudantes subestimam: o teu orientador conhece-te. Ao longo de 3-4 anos de doutoramento, leu dezenas de textos teus. Desenvolveu uma familiaridade profunda com a tua voz autoral.

Orientadores experientes conseguem identificar mudanças de voz quase instintivamente. Quando de repente um capítulo “soa” diferente — mais polido, talvez, mas também mais genérico, menos “tu” — os alarmes disparam.

Os sinais de alarme incluem vocabulário subitamente mais sofisticado ou inconsistente, estruturas argumentativas que não seguem o padrão habitual, conhecimento de referências que o estudante nunca mencionou em reuniões, e perda de erros característicos (sim, os teus erros típicos fazem parte da tua voz).

Para mais verdades que precisas conhecer, não deixes de ler 5 Verdades Ocultas Sobre Ferramentas de IA.


O Framework ORIGINAL: Como Usar Ferramentas de IA Sem Perder a Tua Voz

Depois de tanta preocupação, chegou a hora das soluções. Desenvolvi o Framework ORIGINAL — um método prático para usar IA na escrita da tese mantendo a tua autenticidade e protegendo a tua contribuição única.

Diagrama de fluxo de trabalho com nós conectados representando as fases de pesquisa, notas, estrutura, brainstorm com IA, reescrita humana e verificação
Letra Princípio Aplicação Prática
O Outline primeiro IA ajuda estrutura, não conteúdo
R Revisão humana obrigatória Nunca publicar output direto
I Ideação colaborativa Brainstorm com IA, decisão tua
G Guardar evidências Documentar todo o processo
I Integrar citações reais IA não substitui Zotero
N Nunca em secções críticas Intro/Conclusão 100% tuas
A Adaptar à tua voz Reescrever sempre
L Limitar dependência Máximo 20% do tempo de escrita

Na Prática — Fluxo de Trabalho Seguro

O fluxo de trabalho que recomendo segue esta sequência:

[Pesquisa Manual][Notas no Zotero][Outline Próprio][IA para expandir ideias][Reescrita 100% humana][Verificação de fontes][Revisão final]

Repara que a IA entra apenas numa fase específica — para expandir ideias. Não para gerar o produto final. Essa distinção é crucial.

Ferramentas Recomendadas Para Cada Fase

Fase Ferramenta Uso Seguro Risco
Pesquisa Zotero + PapersGPT Sumarização de PDFs Baixo (se verificares)
Estrutura ChatGPT/Claude Brainstorm de outline Médio
Redação Nenhuma IA generativa
Revisão Grammarly/LanguageTool Gramática apenas Baixo
Citações Zotero Gestão automática Zero

A gestão de referências com Zotero é particularmente importante. A IA pode sugerir referências que simplesmente não existem (o famoso problema das “alucinações”). Usar uma ferramenta sólida como o Zotero garante que todas as tuas citações são reais e corretamente formatadas.


Integridade Académica na Era da IA: O Que as Universidades Estão a Fazer

Para além das tuas práticas individuais, é importante compreenderes o contexto institucional em que a tua tese será avaliada.

As universidades em todo o mundo estão a debater intensamente como regular o uso de IA. Em Portugal, instituições como a Universidade de Lisboa e a Universidade do Porto já publicaram orientações específicas. No Brasil, USP e UNICAMP lideram a discussão.

O consenso emergente aponta para uma abordagem de “uso responsável com transparência” — não proibição total, mas regulamentação clara com declaração obrigatória.

Webinar Essencial: Integridade Académica na Era da IA

Um dos recursos mais completos disponíveis em português é o webinar organizado pela ABCD/USP em parceria com a Turnitin sobre integridade académica na era da IA.

📺 Webinar Recomendado: “Integridade Acadêmica na Era da Inteligência Artificial” — ABCD/USP + Turnitin

Este webinar aborda como o Turnitin deteta IA, as suas limitações, boas práticas para declarar uso de IA, e a diferença crucial entre plágio e uso assistido. Acede à gravação completa e materiais em: ABCD USP – Webinar Integridade e IA

Como Declarar Uso de IA na Tua Tese

Passos para declaração:

  1. Inclui uma secção “Declaração de Uso de Ferramentas de IA” nos agradecimentos ou metodologia
  2. Especifica quais ferramentas usaste (ex: “ChatGPT-4 para brainstorm de estrutura”)
  3. Descreve a natureza do uso (ideação, revisão gramatical, etc.)
  4. Confirma que todo o conteúdo foi verificado e é da tua autoria
  5. Segue as guidelines da tua instituição e revista-alvo

Template que podes adaptar:

DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Durante a elaboração desta tese, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial generativa, nomeadamente [especificar ferramentas], para fins de [especificar: brainstorming de estrutura / revisão gramatical / sumarização de literatura]. Todo o conteúdo gerado foi verificado, reformulado e adaptado pelo autor, que assume total responsabilidade pela precisão e originalidade do trabalho final. Nenhum texto gerado por IA foi utilizado diretamente na redação de secções substantivas da tese.


O Que Levas Daqui

A IA não vai desaparecer da escrita académica — e honestamente, nem deveria. Ferramentas bem utilizadas podem ajudar-te a organizar ideias, superar bloqueios criativos e acelerar tarefas mecânicas.

Mas há uma linha que não podes cruzar: a tua voz autoral é insubstituível. É ela que demonstra o teu pensamento crítico, a tua originalidade, a tua contribuição para o conhecimento.

Usa o Framework ORIGINAL. Documenta o teu processo. Declara o uso de IA com transparência. E acima de tudo, lembra-te que a tese é a demonstração do TEU domínio de um campo — não da capacidade de um algoritmo gerar texto academicamente aceitável.

A diferença entre uma tese que passa despercebida e uma que realmente importa não está nas ferramentas que usas. Está na forma como pensas, argumentas e contribuis para o conhecimento humano.

E isso, nenhuma IA pode fazer por ti.


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