A mesma ferramenta que pode acelerar a tua tese em semanas pode reprová-la em segundos. Parece exagero? Deixa-me contar-te uma história que ouvi recentemente de um orientador universitário português.
Um mestrando brilhante, com notas excelentes ao longo do curso, viu a sua dissertação suspensa a duas semanas da entrega. O motivo? Três referências bibliográficas completamente inventadas pelo ChatGPT — e que ele nunca se deu ao trabalho de verificar.
Atualmente, mais de 70% dos estudantes de mestrado já experimentaram alguma forma de inteligência artificial generativa no seu trabalho académico. E sabes o mais preocupante? A maioria comete erros perfeitamente evitáveis, simplesmente por desconhecimento das regras do jogo.

Neste guia, vou revelar-te os 5 erros críticos que tens de evitar ao usar ferramentas de IA para escrita de teses académicas — e, mais importante, vou dar-te soluções práticas que podes implementar hoje mesmo. Porque a IA é verdadeiramente uma faca de dois gumes: pode ser a tua melhor aliada ou o teu pior pesadelo académico.
Para um panorama completo das ferramentas disponíveis, consulta o nosso Guia de Ferramentas de IA para Escrita de Tese Académica 2025.
O Contexto da IA nas Universidades Portuguesas
Antes de mergulharmos nos erros específicos, precisas de entender o terreno onde estás a pisar. O panorama da inteligência artificial no ensino superior mudou radicalmente entre 2023 e 2025 — e continua a transformar-se a uma velocidade vertiginosa.
Lembras-te de quando o ChatGPT surgiu e as universidades entraram em pânico? Aquele período de incerteza já passou. Hoje, a maioria das instituições portuguesas desenvolveu regulamentos específicos para o uso de IA generativa em trabalhos académicos.
O problema? Não existe uniformidade. Algumas universidades permitem o uso com declaração obrigatória. Outras proíbem parcialmente, limitando a IA a tarefas auxiliares como revisão gramatical. E algumas ainda mantêm políticas ambíguas que deixam estudantes e orientadores num limbo interpretativo.
As grandes editoras científicas já definiram posições claras. Segundo a política da Elsevier sobre IA generativa, os autores são totalmente responsáveis pela precisão de todo o conteúdo, incluindo qualquer material gerado ou assistido por IA. A Taylor & Francis vai na mesma direção: exige uma declaração obrigatória e alerta para os riscos de confidencialidade ao inserir dados de investigação em ferramentas de IA.
Para quem procura orientações em português, as Diretrizes para Uso de IA da Revista Educação Matemática Pesquisa (PUC-SP) são um excelente modelo de transparência.
Aprofunda as regras específicas no nosso artigo ChatGPT na Tese: Uso Permitido e Regras 2025.
Como os Mestrandos Estão a Usar (e Abusar) das Ferramentas
Antes de te mostrar os erros, vamos olhar para o espelho. A fronteira entre uso legítimo e problemático é mais ténue do que pensas.
| Uso Legítimo ✅ | Uso Problemático ❌ |
|---|---|
| Brainstorming de ideias iniciais | Gerar capítulos inteiros sem revisão |
| Revisão gramatical e ortográfica | Parafrasear para “esconder” plágio |
| Resumir artigos longos para triagem | Inventar ou “criar” citações |
| Organizar estrutura e outline | Substituir a tua análise crítica |
| Tradução técnica de termos | Fabricar dados de investigação |
A diferença fundamental? No lado esquerdo, tu continuas a ser o autor — a IA é apenas uma ferramenta auxiliar. No lado direito, a IA torna-se o autor oculto, e tu passas a ser um mero revisor de conteúdo que não criaste.
Se queres usar IA de forma responsável, considera ferramentas especializadas: o Elicit foi desenhado especificamente para revisão de literatura, enquanto o ResearchRabbit funciona como um “Spotify da literatura académica”.
Conhece os riscos específicos da paráfrase no artigo 5 Erros ao Parafrasear Tese com IA.
Os 5 Erros Fatais (E Como Evitá-los)
Chegamos ao coração deste guia. Estes são os erros que vejo repetidamente — e que podem transformar meses de trabalho árduo numa reprovação dolorosa.
Erro #1 — Não Conhecer as Regras da Tua Universidade Sobre IA
Muitos mestrandos assumem que “toda a gente usa, logo deve ser permitido”. Esta lógica é perigosa. O facto de os teus colegas usarem IA não significa que estejam a fazê-lo dentro das regras — podem simplesmente ainda não ter sido apanhados.
As consequências são reais: reprovação imediata, processo disciplinar que fica no teu registo académico, e em casos extremos, anulação do grau. Mesmo que uses IA de forma “ligeira”, se não declarares e fores descoberto posteriormente, a omissão é tratada como fraude intencional.
⚠️ ANTES DE USAR QUALQUER FERRAMENTA:
- Lê o regulamento académico da tua universidade
- Verifica se o teu departamento tem normas específicas
- Confirma por email com o teu orientador — e guarda essa comunicação
- Familiariza-te com o formulário de declaração antes de precisares
Vê exemplos de como declarar corretamente em Erros Fatais ao Declarar IA na Tese de Mestrado.
Erro #2 — Confiar em Referências Geradas por IA Sem Verificação
Este é provavelmente o erro mais devastador. O ChatGPT apresenta referências bibliográficas com uma confiança que beira a arrogância — como se fossem absolutamente reais. Mas a verdade é brutal: os modelos de linguagem inventam referências.

Isto tem um nome técnico — “alucinações” — mas na prática significa autores fictícios, títulos de artigos que nunca existiram, DOIs inválidos e até revistas académicas imaginárias.
A Elsevier é clara: se puseres uma referência falsa na tua tese, a culpa é tua — independentemente de quem a gerou. Orientadores experientes identificam estas referências fantasma com uma pesquisa rápida no Google Scholar.
Solução prática: NUNCA uses referências de IA generativa sem verificação. O Elicit extrai citações de papers reais e mantém a rastreabilidade. Confirma sempre no Google Scholar, Scopus ou Web of Science.
O canal oficial do Elicit oferece tutoriais práticos:
Erro #3 — Usar IA Para Gerar Análise Crítica ou Argumentação Original
Vou ser direto: a tese de mestrado existe para avaliar a TUA capacidade de análise crítica. Não é um teste à tua capacidade de usar prompts criativos.

Quando delegas a análise crítica a uma ferramenta de IA, estás a pedir a outra entidade que faça o trabalho intelectual pelo qual serás avaliado. É como contratar alguém para correr a maratona por ti e esperares receber a medalha.
A IA produz argumentos genéricos, superficiais e com padrões estilísticos previsíveis. Orientadores que já leram centenas de teses desenvolvem um “radar” para este tipo de texto. Além disso, softwares como o Turnitin AI Detection estão cada vez mais sofisticados.
Usa IA apenas como suporte: organizar ideias que já tens, reformular frases da tua autoria para melhorar clareza, e sempre escrever a primeira versão tu mesmo. A IA pode ser como um editor que te ajuda a polir um diamante bruto — mas o diamante tem de ser teu.
Explora os limites práticos em Limite da IA na Tese: O Que Ninguém Te Conta em 2025.
Erro #4 — Não Declarar (ou Declarar Mal) o Uso de Ferramentas
A transparência não é opcional. Muitos estudantes sabem que devem declarar, mas fazem-no de forma tão vaga que a declaração se torna inútil ou suspeita.

Uma declaração que diz apenas “foi utilizada inteligência artificial” é insuficiente. É como dizer “usei ferramentas” sem especificar quais, para quê, ou como.
“Nesta dissertação, foi utilizado o ChatGPT-4 (OpenAI, 2024) como ferramenta auxiliar para: (1) revisão gramatical de secções específicas (Capítulos 3 e 5), e (2) brainstorming inicial de estrutura do enquadramento teórico. Todo o conteúdo gerado foi criticamente revisto, editado e verificado pelo autor. As referências bibliográficas foram obtidas exclusivamente de bases de dados académicas e verificadas manualmente.”
Repara nos elementos-chave: ferramenta específica identificada, tipo de uso detalhado, localização do uso, processo de verificação descrito. Se não declarares e fores descoberto posteriormente, a omissão será tratada como fraude intencional.
Guia completo em Erros Fatais ao Declarar IA na Tese de Mestrado.
Erro #5 — Usar Ferramentas de Paráfrase Para “Mascarar” Texto
Este é o erro que mais me frustra, porque nasce de uma lógica perversa: “se parafrasear o suficiente, deixa de ser plágio”. Não. Simplesmente não.
Parafrasear texto de IA ou de outros autores usando ferramentas automáticas não cria originalidade. Cria uma ilusão de originalidade — que é ainda pior, porque envolve intenção de enganar.
Os softwares anti-plágio modernos já não procuram apenas correspondências exactas. Identificam padrões de paráfrase automática, estruturas sintáticas características e inconsistências estilísticas dentro do mesmo documento.
A técnica de paráfrase verdadeira: lê a fonte original até compreenderes genuinamente o conceito, fecha o documento, escreve com as TUAS palavras, compara com o original, e cita adequadamente — paráfrase também requer citação.
Aprofunda este tema em 5 Erros ao Parafrasear Tese com IA.
O Que Esperar em 2025-2026
Se pensas que o panorama atual é complexo, prepara-te. Os próximos dois anos trarão mudanças significativas.
As universidades portuguesas estão a abandonar políticas genéricas e a criar guidelines detalhadas por área de estudo. Os softwares de deteção evoluem constantemente — a análise estilométrica está a tornar-se mais precisa. Prevejo que disciplinas sobre uso ético de IA serão em breve obrigatórias em muitos programas.
A próxima geração de ferramentas incluirá sistemas de rastreabilidade integrada — registos automáticos do que foi gerado por IA e do que foi escrito pelo autor. Plataformas como a Tesify já estão a mover-se nesta direção.
💡 RECOMENDAÇÃO: Desenvolve competências de uso ético agora. Será um diferencial competitivo não só no contexto académico, mas também no mercado de trabalho.
Mantém-te atualizado com o nosso Guia de Ferramentas de IA 2025.
Checklist Final — Usa IA Sem Riscos
Guarda esta checklist. Imprime-a, coloca-a na parede do teu espaço de estudo. Vai poupar-te muitas dores de cabeça.
✅ ANTES DE COMEÇAR
- ☐ Verifiquei o regulamento académico da minha universidade
- ☐ Confirmei regras específicas do meu programa/departamento
- ☐ Comuniquei com o meu orientador sobre o uso pretendido
- ☐ Guardei confirmação escrita das permissões
✅ DURANTE O USO
- ☐ Todas as referências foram verificadas em bases de dados académicas
- ☐ A análise crítica e argumentação são inteiramente minhas
- ☐ Mantenho registo dos prompts e do tipo de uso
- ☐ Não uso ferramentas de paráfrase para mascarar texto
✅ ANTES DE ENTREGAR
- ☐ Preparei declaração detalhada do uso de IA
- ☐ Revi todo o conteúdo para garantir consistência estilística
- ☐ Confirmei que posso defender oralmente qualquer secção
A inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa na tua jornada académica — desde que a uses com consciência, transparência e responsabilidade. Os erros que partilhei contigo são completamente evitáveis. Agora tens o conhecimento. O que fazes com ele é contigo.




Leave a Reply