A Maria tinha tudo para aprovar. Três anos de investigação. Centenas de horas em laboratório. Uma orientadora exigente, mas dedicada. Quando finalmente marcou a defesa da sua dissertação de mestrado em Bioquímica na Universidade de Coimbra, sentia-se preparada.
Seis meses depois, ainda não tinha defendido.
O problema? Não foi a qualidade da pesquisa. Não foram os resultados. Foi algo que ela nunca imaginou que a pudesse travar: a estrutura da tese estava completamente desorganizada. Os avaliadores identificaram incoerências graves entre os objetivos declarados e os resultados apresentados. A revisão de literatura ocupava quase metade do documento. E faltavam elementos pré-textuais obrigatórios que nem sequer sabia que existiam.
A história da Maria não é única. Estudos indicam que cerca de 30% dos adiamentos de defesa estão relacionados com problemas de estrutura e formatação — erros que poderiam ser facilmente evitados com o conhecimento certo.

Na experiência da equipa Tesify, apoiando estudantes de mestrado e doutoramento em Portugal e no Brasil, identificámos padrões recorrentes de erros estruturais que poderiam ser facilmente evitados. E é exatamente isso que vamos fazer neste guia: mostrar-lhe cada um destes erros, explicar porque são tão graves, e — mais importante — dar-lhe as ferramentas práticas para os evitar.
Se está a escrever a sua tese ou dissertação, este artigo pode poupar-lhe meses de trabalho e muitas dores de cabeça.
👉 Para uma visão mais detalhada sobre erros de organização, consulte também o nosso artigo sobre como evitar erros na estrutura e organização de capítulos de tese.
O Que Define uma Estrutura de Tese Correta?
Antes de falarmos dos erros, precisamos de estabelecer o que significa ter uma organização da tese académica correta. Afinal, como podemos identificar o que está errado se não soubermos o que está certo?
Pense na estrutura da tese como a arquitetura de uma casa. Pode ter os melhores materiais do mundo — madeira nobre, mármore italiano, tecnologia de ponta — mas se as fundações estiverem tortas, se a cozinha estiver onde deveria estar o quarto, e se as portas não alinharem com as paredes, a casa será inabitável.
O mesmo acontece com a sua tese. Conteúdo brilhante numa estrutura desorganizada é conteúdo perdido.
De acordo com o Guia de Elaboração de Teses da Biblioteca FSP/USP, uma tese bem estruturada assenta em três pilares fundamentais:
Elementos Pré-Textuais: Capa, folha de rosto, dedicatória e agradecimentos (opcionais), resumo em português e inglês, índice, listas de figuras, tabelas e abreviaturas.
Elementos Textuais: Introdução (contextualização, problema, objetivos), revisão de literatura, metodologia, resultados, discussão e conclusão.
Elementos Pós-Textuais: Referências bibliográficas, apêndices e anexos.
É importante notar que esta estrutura pode variar consoante o tipo de investigação. Uma pesquisa quantitativa terá uma secção de resultados muito diferente de uma pesquisa qualitativa. As Normas Gerais de Formatação das Teses do IPMAIA destacam que cada instituição pode ter requisitos específicos — e conhecer esses requisitos é o primeiro passo para evitar erros estruturais.
Agora que sabemos o que é uma estrutura correta, vamos aos erros que mais frequentemente levam à reprovação.
Erro #1: Desalinhamento Entre Objetivos, Metodologia e Resultados
Este é, de longe, o erro mais grave. E também o mais comum.

Imagine que está a ler uma tese onde o aluno declara, na introdução, que o seu objetivo é “analisar o impacto das redes sociais no comportamento de compra dos millennials portugueses”. Passa-se ao capítulo de metodologia e descobre-se que foi feito um inquérito a 50 pessoas de todas as idades. Chegamos aos resultados e encontramos análises sobre preferências de marca em geral, sem qualquer foco em millennials ou redes sociais.
Parece absurdo? Acontece mais vezes do que imagina.
O desalinhamento manifesta-se quando existe uma desconexão lógica entre três elementos fundamentais: os objetivos (o que prometeu investigar), a metodologia (como investigou) e os resultados (o que encontrou). É como prometer fazer um bolo de chocolate, usar uma receita de sopa, e servir uma salada.
Os avaliadores são treinados para identificar esta incoerência. Quando a encontram, questionam o rigor metodológico da investigação, a capacidade do aluno de planear e executar pesquisa, e a validade das conclusões apresentadas. Resultado? Adiamento da defesa para correções substanciais, ou pior, reprovação.
Faça estas perguntas à sua tese:
- Cada objetivo específico tem um resultado correspondente?
- A metodologia escolhida permite efetivamente atingir os objetivos?
- Os resultados respondem às questões de investigação?
- As conclusões derivam logicamente dos resultados apresentados?
A forma mais eficaz de evitar este erro é criar uma tabela de mapeamento cruzado logo no início do projeto, onde cada objetivo específico está associado a um método utilizado, um resultado correspondente e a secção da tese onde aparece. Se não consegue preencher alguma célula, tem um problema. E é melhor descobri-lo agora do que na defesa.
👉 Para uma análise mais aprofundada de erros estruturais em doutoramento, consulte o nosso guia sobre Estrutura de Tese de Doutoramento: 7 Erros Fatais.
Erro #2: Revisão de Literatura Desproporcionada
Aqui está um cenário que vemos constantemente: um aluno entusiasmado lê dezenas de artigos, livros e teses sobre o seu tema. Quer mostrar que fez o trabalho de casa. E acaba por escrever 80 páginas de revisão de literatura numa tese de 150.
O problema? A revisão de literatura não é a estrela do espetáculo. É o palco que sustenta a investigação original.

Os três pecados mais comuns são: extensão excessiva (quando a revisão ocupa mais de 40% da tese), posicionamento incorreto (inserir toda a revisão dentro da introdução ou espalhá-la sem critério), e transformar a revisão numa lista de resumos em vez de uma síntese crítica.
A revisão não é um catálogo: “Autor A disse X. Autor B disse Y. Autor C disse Z.” É uma análise crítica que identifica padrões, lacunas, contradições e oportunidades de investigação. A proporção recomendada situa-se entre 20-30% do corpo do trabalho.
De acordo com o guia da FSP/USP, uma revisão bem estruturada deve seguir esta lógica: introdução ao capítulo, conceitos fundamentais, estado da arte, lacunas identificadas, e por fim uma síntese com modelo conceptual.
Esta última parte — a síntese — é onde a maioria falha. A revisão deve terminar com uma ponte clara para a sua metodologia. O leitor deve perceber: “Ah, é por isto que o autor vai fazer o que vai fazer.”
“A análise da literatura revela que, embora existam estudos sobre o comportamento do consumidor nas redes sociais (Silva, 2020; Costa, 2021), nenhuma investigação anterior examinou especificamente o segmento millennial português no contexto pós-pandémico. Esta lacuna justifica a abordagem metodológica descrita no capítulo seguinte…”
Viu como funciona? A revisão não termina — ela transita.
Erro #3: Elementos Pré-Textuais em Falta
Este erro é particularmente frustrante porque é completamente evitável. Não requer criatividade, não requer investigação original, não requer análise complexa. Requer apenas seguir uma lista.
E mesmo assim, dezenas de alunos chegam à defesa com elementos em falta: lista de figuras e tabelas, lista de abreviaturas e siglas, resumo em língua estrangeira (Abstract), declaração de originalidade, ou ficha catalográfica.
Ordem padrão dos elementos pré-textuais:
- Capa
- Folha de rosto
- Ficha catalográfica (verso da folha de rosto)
- Folha de aprovação
- Dedicatória (opcional)
- Agradecimentos (opcional)
- Epígrafe (opcional)
- Resumo em português
- Resumo em inglês (Abstract)
- Lista de ilustrações/figuras
- Lista de tabelas
- Lista de abreviaturas e siglas
- Sumário/Índice
Se está a consultar materiais brasileiros, tenha atenção à terminologia: “Índice” em Portugal corresponde a “Sumário” no Brasil; “Bibliografia” corresponde a “Referências”.
Dica de ouro: Antes de começar a escrever, obtenha o template oficial da sua universidade. A maioria das instituições disponibiliza modelos em Word ou LaTeX que já incluem todos os elementos na ordem correta. Use-os. Não invente. Se a sua universidade não tem template, as Normas do IPMAIA são uma boa referência.
Erro #4: Confusão Entre Modelo Monográfico e Modelo por Artigos
Nos últimos anos, temos assistido a uma tendência crescente em programas de pós-graduação: a possibilidade de apresentar a tese no formato de artigos, em vez do modelo monográfico tradicional.

Esta é uma excelente opção para muitos alunos — permite publicar durante o doutoramento, demonstra produtividade científica, e facilita a inserção no meio académico. Mas também é uma armadilha para quem não entende as diferenças fundamentais entre os dois modelos.
O erro clássico é misturar elementos dos dois modelos sem coerência: escrever artigos como se fossem capítulos (sem autonomia), juntar artigos publicados sem capítulo integrador, ter revisão de literatura no formato monográfico mas resultados em formato de artigos, ou ausência de discussão geral que conecte os artigos entre si.
No modelo monográfico, temos capítulos sequenciais e interdependentes, com uma revisão de literatura única e abrangente, um capítulo metodológico único, e uma síntese final. No modelo por artigos, temos artigos independentes com um capítulo integrador, a revisão está dentro de cada artigo mais uma introdução geral, a metodologia é descrita em cada artigo individualmente, e é obrigatória uma discussão geral integradora.
A escolha entre os dois modelos deve ser feita no início do programa, em conversa com o orientador, e mantida consistentemente ao longo de todo o trabalho.
Erro #5: Capítulos Sem Fio Condutor
Já leu uma tese onde cada capítulo parece ter sido escrito por uma pessoa diferente? Onde passamos da introdução para a revisão de literatura e sentimos que mudámos de livro? Onde a metodologia parece desconectada dos resultados?
Este é o erro do fio condutor ausente — e é mais subtil, mas igualmente devastador.
Uma tese não é uma coleção de capítulos. É uma narrativa científica coesa onde cada parte se conecta à seguinte numa progressão lógica. A introdução levanta questões, a revisão contextualiza essas questões, a metodologia explica como as vamos responder, os resultados apresentam as respostas, a discussão interpreta essas respostas, e a conclusão sintetiza tudo.
A técnica mais eficaz para garantir o fio condutor são as transições explícitas entre capítulos. No final de cada capítulo, inclua um parágrafo que resuma o que foi abordado e antecipe o que vem a seguir. No início de cada capítulo, conecte com o anterior.
Teste de coerência narrativa:
Leia apenas a última frase de cada capítulo e a primeira frase do capítulo seguinte. A transição faz sentido? Se não, tem trabalho a fazer.
Outra técnica poderosa é criar um resumo de uma página da tese inteira antes de começar a escrever. Este resumo funciona como um mapa que guia a escrita e garante que nunca perde de vista o objetivo final.
Próximos Passos
Chegámos ao fim deste guia, mas o seu trabalho está apenas a começar. Revimos os cinco erros estruturais mais graves que podem comprometer a sua defesa: o desalinhamento entre objetivos e resultados, a revisão de literatura desproporcionada, os elementos pré-textuais em falta, a confusão entre modelos, e a ausência de fio condutor.
Cada um destes erros é evitável. Com planeamento, atenção e as ferramentas certas, pode garantir que a sua tese não só evita estas armadilhas, mas se destaca pela sua clareza, coerência e profissionalismo.
Se está a sentir-se sobrecarregado com a quantidade de detalhes a ter em conta, saiba que não está sozinho. Milhares de estudantes passam pelo mesmo processo todos os anos. A diferença está em quem procura ajuda e quem tenta fazer tudo sozinho.
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A sua tese merece o melhor. E agora tem o conhecimento para garantir que a estrutura não será o obstáculo entre si e o sucesso académico.




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