Entrevista Semi-Estruturada: Como Fazer para a Tese 2026
A entrevista semi-estruturada é o método de recolha de dados qualitativos mais utilizado em teses de mestrado e dissertações de doutoramento em Portugal e no Brasil. Combina a estrutura de um guião orientador com a flexibilidade necessária para explorar respostas inesperadas — o que a torna ideal para investigação qualitativa em ciências sociais, educação, saúde, psicologia e gestão. Em 2026, saber planear, conduzir, transcrever e analisar entrevistas semi-estruturadas com rigor é uma competência fundamental para qualquer investigador académico.
Este guia cobre todas as etapas do processo — da definição dos objetivos à análise dos dados — com exemplos práticos e referências metodológicas para fundamentar cada decisão perante o seu orientador.
O que é e quando usar a entrevista semi-estruturada
A entrevista é uma interação verbal planificada entre o investigador (entrevistador) e um ou mais participantes (entrevistados), com o objetivo de recolher informação sobre o fenómeno estudado. Distinguem-se três tipos:
- Estruturada: perguntas fixas, ordem definida, mesmas questões para todos; adequada a surveys quantitativas
- Semi-estruturada: guião com tópicos e perguntas orientadoras, com flexibilidade para seguir o discurso do entrevistado; a mais comum em investigação qualitativa académica
- Não estruturada: conversa aberta orientada apenas por um tema; adequada a estudos exploratórios ou etnografias
A entrevista semi-estruturada é adequada quando:
- Pretende explorar experiências, perceções, significados ou perspetivas dos participantes
- As perguntas de investigação requerem profundidade que um questionário não proporciona
- A amostra é reduzida (8–20 participantes) e o objetivo é a riqueza da informação, não a representatividade estatística
- A área é pouco estudada e podem emergir aspetos inesperados que merecem exploração
As 6 etapas essenciais
Manzini (2004) e Flick (2018) identificam as etapas fundamentais do processo de entrevista semi-estruturada na investigação académica:
- Definição dos objetivos e perguntas de investigação
- Elaboração e teste do guião
- Seleção e recrutamento dos participantes
- Realização das entrevistas (com registo em áudio)
- Transcrição das entrevistas
- Análise dos dados
Como elaborar o guião de entrevista
O guião é o instrumento central da entrevista semi-estruturada. Não é um questionário — é um conjunto de tópicos e perguntas que orientam a conversa sem a rigidificar. Um bom guião tem:
Estrutura do guião
- Introdução (5 minutos): apresentação do investigador e do estudo, explicação dos objetivos, pedido de consentimento para gravação, garantia de anonimato e confidencialidade, duração prevista
- Perguntas de aquecimento: questões simples e não ameaçadoras para criar rapport (ex: “Pode descrever brevemente a sua função atual?”)
- Perguntas centrais: questões abertas organizadas por tópicos, que correspondem às dimensões da pergunta de investigação
- Perguntas de aprofundamento: sondas para explorar respostas relevantes (“Pode dar-me um exemplo?”, “O que entende por…?”, “De que forma isso aconteceu?”)
- Encerramento: questão final aberta (“Há algo que não foi abordado e que considera importante partilhar?”) e agradecimento
Características das boas perguntas de entrevista
- Abertas: não admitem resposta de “sim/não”; começam com “como”, “o que”, “de que forma”, “porquê”, “descreva”
- Neutras: não inducem a resposta desejada; evitar “Considera que X é importante?”
- Claras e simples: uma ideia por pergunta; linguagem acessível ao nível dos participantes
- Focadas no fenómeno: alinhadas com as perguntas de investigação; cada tópico do guião deve corresponder a uma dimensão de análise
Número de perguntas
Um guião para uma entrevista de 45 a 60 minutos deve ter 8 a 15 perguntas principais. Demasiadas perguntas transformam a entrevista numa interrogatória; poucas deixam espaço vazio. Inclua mais perguntas de sonda do que questões novas.
Pré-teste do guião
Antes de iniciar a recolha de dados, realize 1 a 2 entrevistas piloto com participantes que não integrarão a amostra definitiva. O pré-teste permite verificar a clareza das perguntas, a duração, e a cobertura dos tópicos relevantes. Ajuste o guião com base nos resultados.
Seleção e recrutamento de participantes
Na investigação qualitativa, a amostragem é intencional (purposive): seleciona-se deliberadamente os participantes que têm experiência direta com o fenómeno estudado. Não se procura representatividade estatística, mas riqueza e diversidade da informação.
Critérios de inclusão devem ser definidos a priori e justificados na metodologia: ex., “professores universitários com mais de 5 anos de experiência em ensino online”, “gestores de PMEs do setor tecnológico em Portugal”.
O número de participantes é determinado pela saturação teórica: continua-se a entrevistar até que novas entrevistas não acrescentem informação nova. Para teses de mestrado, 8 a 15 entrevistas são geralmente suficientes.
Recrutamento: contacto por e-mail ou carta com apresentação do estudo e pedido de participação; confirmação da disponibilidade e local/plataforma (presencial, telefone, Zoom, Teams). Forneça o consentimento informado com antecedência.
Como conduzir a entrevista
A qualidade dos dados depende em grande parte de como a entrevista é conduzida. Boas práticas:
- Crie um ambiente de confiança: escolha um local tranquilo e privado; para entrevistas online, confirme que o participante está sozinho e sem interrupções
- Grave com consentimento: use um gravador de qualidade (smartphone, gravador digital, ou software de gravação no Zoom/Teams); confirme o consentimento para gravação antes de começar
- Siga o guião com flexibilidade: o guião é um mapa, não um script; adapte-se ao fluxo do discurso do entrevistado
- Use o silêncio: deixe o entrevistado completar o pensamento antes de intervir; o silêncio confortável gera reflexão
- Sonde sistematicamente: “Pode desenvolver?”, “O que quis dizer com…?”, “Pode dar-me um exemplo?”
- Evite perguntas de confirmação: “Então, X é importante para si, certo?” — estas perguntas induzem a resposta
- Tome notas de campo: registe observações sobre o contexto, linguagem não verbal e impressões que o áudio não capta
Transcrição e preparação dos dados
A transcrição converte o registo áudio em texto, que será o material de análise. Opções:
- Transcrição manual: mais rigorosa e completa; demorada (1 hora de entrevista = 4 a 8 horas de transcrição)
- Transcrição automática: ferramentas como Whisper (OpenAI, gratuito), Otter.ai, Microsoft Word (ditado), ou o Google Speech-to-Text aceleram o processo, mas requerem revisão cuidadosa
Convenções de transcrição: indique pausas (…), sobreposições, risos [risos], ênfase em itálico, nomes substituídos por códigos (E1, E2… para entrevistados; P para participante).
Após a transcrição, partilhe com o entrevistado para validação (member checking) — uma estratégia que aumenta a credibilidade dos dados.
Análise dos dados da entrevista
Os dois métodos mais frequentes para análise de entrevistas semi-estruturadas são:
Análise temática (Braun & Clarke, 2006)
A análise temática é o método mais acessível e flexível para investigadores novatos. As 6 fases são:
- Familiarização com os dados (leitura ativa, primeiras notas)
- Geração de códigos iniciais (identificação de unidades de significado)
- Procura de temas (agrupamento de códigos em temas potenciais)
- Revisão dos temas (verificar coerência interna e diferenciação entre temas)
- Definição e nomeação dos temas
- Produção do relatório (escrita analítica com extratos das entrevistas)
Análise de conteúdo (Bardin, 2009)
A análise de conteúdo é mais estruturada: define categorias de análise (a priori ou emergentes), codifica as unidades de registo (frases, parágrafos) nessas categorias, e analisa a presença, frequência e coocorrência das categorias. O software NVivo facilita este processo com grandes volumes de dados.
Para um overview dos softwares de análise qualitativa disponíveis em 2026, consulte o artigo sobre análise de dados na tese: métodos e ferramentas. Para a estrutura geral da metodologia, veja o guia completo de metodologia de investigação.
Considerações éticas
A realização de entrevistas levanta obrigações éticas que devem ser cumpridas e documentadas na metodologia da tese:
- Consentimento informado: os participantes devem ser informados sobre os objetivos do estudo, a forma de utilização dos dados, a gravação, o anonimato e o seu direito a retirar-se sem consequências. O consentimento deve ser dado por escrito (ou oralmente gravado)
- Anonimato e confidencialidade: use códigos ou pseudónimos para identificar os participantes; não inclua dados que permitam a identificação (nome, cargo específico, instituição com menos de 10 pessoas)
- Armazenamento seguro dos dados: grave e armazene os ficheiros de áudio e transcrições em suporte seguro (criptografado), de acesso restrito ao investigador
- Aprovação da Comissão de Ética: para estudos com grupos vulneráveis ou com recolha de dados sensíveis, obtenha aprovação formal. Para estudos em contextos organizacionais ou educativos com adultos, o consentimento informado é geralmente suficiente
Perguntas frequentes sobre a entrevista semi-estruturada
Posso fazer entrevistas online (Zoom/Teams) numa tese académica?
Sim, as entrevistas online são amplamente aceites em investigação académica desde 2020. Em 2026, a maioria dos orientadores e júris aceita entrevistas por Zoom, Teams ou Google Meet. As plataformas têm função de gravação integrada. As desvantagens incluem a impossibilidade de captar linguagem não verbal completa e possíveis problemas técnicos. Documente na metodologia que as entrevistas foram realizadas online e justifique (acesso geográfico alargado, participantes internacionais, pandemia pós-efeito, etc.).
Quanto tempo deve durar uma entrevista semi-estruturada para uma tese de mestrado?
Em investigação académica, as entrevistas semi-estruturadas duram tipicamente entre 30 e 90 minutos. Para a maioria das dissertações de mestrado, 45 a 60 minutos é suficiente para cobrir os tópicos do guião com profundidade adequada. Entrevistas mais longas podem ser indicadas para estudos fenomenológicos ou de história de vida. Informe sempre os participantes da duração prevista no contacto inicial.
O que é o member checking e devo usá-lo?
O member checking consiste em partilhar com os participantes a transcrição da sua entrevista (e/ou os resultados da análise referentes ao seu testemunho) para que confirmem ou corretem a interpretação. É uma estratégia de credibilidade recomendada por Lincoln e Guba (1985). Em teses de mestrado, pelo menos partilhar a transcrição para validação é uma boa prática. Não é obrigatório, mas fortalece o rigor se justificado na metodologia.
Devo incluir o guião de entrevista em anexo na tese?
Sim, em Portugal é prática comum e geralmente exigida incluir o guião de entrevista como anexo da dissertação. Inclua também o documento de consentimento informado utilizado. Estes documentos demonstram o rigor do processo de recolha de dados e permitem que o júri avalie a adequação dos instrumentos às perguntas de investigação.
Como reportar o número de entrevistas na tese?
Apresente numa tabela os dados dos participantes com identificação anonimizada (E1, E2…) e variáveis relevantes (género, função, anos de experiência, setor). Inclua também a data, local, duração e modo de realização de cada entrevista. Esta transparência demonstra rigor metodológico e facilita a avaliação da adequação da amostra.
Como lidar com um participante que foge ao tema nas respostas?
Reoriente gentilmente o discurso: “Agradeço essa perspetiva. Gostaria de voltar ao tema anterior — pode dizer-me mais sobre X?” Se o desvio do participante revelar um aspeto inesperado mas relevante para a investigação, pode justificar a exploração. Tome nota nos registos de campo. Na análise, os desvios temáticos podem ser dados importantes sobre como o participante constrói o fenómeno.
Devo indicar os autores de referência para a entrevista semi-estruturada na tese?
Sim, a escolha do instrumento deve ser fundamentada na literatura de metodologia. Autores de referência: Manzini (2004) para elaboração de guiões; Kvale e Brinkmann (2015) para condução de entrevistas; Flick (2018) para entrevistas em ciências sociais; Braun e Clarke (2006) para análise temática. Cite-os ao descrever o instrumento e o método de análise no capítulo de metodologia.
Apoio para a sua investigação qualitativa
O Tesify é a plataforma de IA para teses académicas que o apoia na redação do capítulo de metodologia, na organização das suas entrevistas e na formatação das referências bibliográficas em APA 7ª edição.
