Estudante português a usar inteligência artificial de forma ética na elaboração da tese académica com computador e livros
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Como Usar IA na Tese Sem Ser Penalizado | Guia 2025

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5 min de leitura

Imagina este cenário: passaste semanas a investigar, noites sem dormir a organizar fontes, e finalmente tens aquele parágrafo complicado que precisava de ser reformulado. Abriste o ChatGPT, pediste ajuda para melhorar a clareza do texto, e agora… falta uma semana para a entrega e não consegues dormir a pensar: “E se o Turnitin sinalizar a minha tese?”

Se te identificas com esta situação, não estás sozinho. Mais de 85% das universidades portuguesas já utilizam alguma forma de deteção de conteúdo gerado por IA. O medo de ser apanhado tornou-se tão presente quanto a própria pressão de entregar um trabalho de qualidade.

Estudante universitário a ponderar sobre o uso de IA na tese, com expressão pensativa junto ao portátil
O dilema que milhares de estudantes enfrentam diariamente

Mas aqui está a verdade que ninguém te conta: o problema não é usar IA — o problema é não saber como usá-la corretamente.

Este artigo não é um guia para “enganar o sistema”. É um guia para dominar o sistema com transparência inteligente. Vais aprender exatamente como integrar ferramentas de IA na tua tese de forma que te proteja, te diferencie e, acima de tudo, te permita entregar um trabalho do qual te orgulhes.

📋 Os 5 Princípios Para Usar IA Sem Ser Penalizado

  1. Conhecer os limites da tua universidade
  2. Usar IA como assistente, não como autor
  3. Documentar todo o uso de forma estratégica
  4. Reescrever e personalizar SEMPRE o output
  5. Declarar proativamente quando exigido

Se queres começar pelas regras específicas da tua instituição, consulta o nosso Checklist de Limites de IA na Tese — é o ponto de partida perfeito para quem quer ir direto às questões práticas.

Como Funciona a Deteção de IA em Portugal

Antes de entrares em pânico cada vez que ouves “Turnitin”, precisas de entender como estas ferramentas funcionam. A verdade é que não são tão infalíveis quanto pensas — nem tão fáceis de enganar quanto alguns prometem.

O Turnitin AI Detection funciona através de análise por segmentos de texto. O sistema divide a tua tese em fragmentos de aproximadamente 250 palavras e avalia cada um individualmente, atribuindo uma percentagem de probabilidade de ter sido gerado por IA. Depois, calcula uma média ponderada que aparece no relatório final.

Representação visual de como os detetores de IA analisam documentos por segmentos
Os detetores analisam o texto em segmentos, não como um todo

Aqui está o que muitos estudantes não compreendem: a percentagem que aparece não é uma sentença. Um relatório que mostra “28% de probabilidade de IA” não significa que 28% da tua tese foi escrita por uma máquina. Significa que o algoritmo suspeita, com base em padrões estatísticos, que alguns segmentos podem ter características de texto gerado.

O mito da percentagem mágica é precisamente isso — um mito. Não existe um número universal (20%, 15%, 10%) abaixo do qual estás “seguro”. Cada universidade portuguesa define os seus próprios limiares e, mais importante, a decisão final é sempre humana.

Um orientador pode ignorar 30% de suspeita se conhecer o teu estilo de escrita; outro pode investigar 8% se algo lhe parecer estranho.

E depois temos os falsos positivos. Casos documentados mostram que textos 100% escritos por humanos — especialmente em áreas técnicas com terminologia específica — são frequentemente sinalizados como “possível IA”. O próprio Turnitin admite esta limitação na sua documentação oficial.

O Panorama das Universidades Portuguesas em 2025

Em Portugal, o cenário está a mudar rapidamente. Podemos dividir as instituições em três categorias:

Universidades com políticas claras: Instituições como a Universidade de Lisboa, Universidade do Porto e algumas escolas do ISCTE já publicaram diretrizes específicas sobre o uso de IA generativa. Estas políticas geralmente permitem uso assistido (revisão, brainstorming) mas exigem declaração e proíbem geração de conteúdo original.

Universidades em zona cinzenta: A maioria das instituições politécnicas e algumas universidades mais pequenas ainda não atualizaram os regulamentos académicos. Nestes casos, aplica-se geralmente o regulamento de plágio existente — o que pode ser interpretado de formas muito diferentes por diferentes júris.

O papel crítico do orientador: Independentemente da política oficial, o teu orientador é o primeiro filtro. É ele ou ela que vai ver o relatório do Turnitin antes da submissão final. E aqui está um segredo que vale ouro: a maioria dos orientadores prefere que declares o uso de IA voluntariamente a descobrir depois que tentaste esconder.

Para entenderes melhor como os detetores avaliam especificamente teses em contexto português, recomendo a leitura do Guia Completo de Deteção de Conteúdo IA na Tese 2025.

A Nova Realidade: De “Proibido” a “Regulado”

Lembras-te de quando calculadoras eram proibidas em exames de matemática? E agora são obrigatórias em alguns? Pois bem, estamos a viver exatamente a mesma transição com a inteligência artificial no ensino superior.

Em 2023, a reação inicial das universidades foi de pânico. Proibições totais, ameaças de expulsão, detetores implementados às pressas. Mas em 2025, a narrativa mudou. As instituições perceberam uma verdade incómoda: não conseguem proibir algo que está a tornar-se tão ubíquo quanto o processador de texto.

Os padrões internacionais da Elsevier e do COPE estão a chegar a Portugal. A mensagem central é clara: IA não pode ser autora, mas pode ser ferramenta — desde que declarada.

Os 3 Tipos de Uso Que as Universidades Distinguem

Esta distinção é fundamental. Grava-a na memória:

Tipo de Uso Exemplo Risco
Assistência Linguística Correção gramatical, reformulação de frases ✅ Baixo
Assistência Estrutural Organizar argumentos, criar outlines ⚠️ Médio
Geração de Conteúdo Escrever parágrafos ou secções inteiras 🔴 Alto

Pensa assim: usar o Grammarly ou pedir ao ChatGPT para sugerir uma forma mais clara de escrever uma frase é como usar um dicionário de sinónimos digital. Ninguém te vai penalizar por isso.

Pedir à IA para te ajudar a organizar os pontos principais da tua revisão de literatura é como ter um colega a fazer brainstorming contigo. É útil, mas deves mencionar que o fizeste.

Colar “escreve-me a conclusão da minha tese de mestrado sobre marketing digital” e copiar o resultado? Isso é o equivalente académico de pedir a outra pessoa para fazer o exame por ti. Não faças isto.

O Método LEGAL — 5 Passos Para Usar IA Com Segurança

Desenvolvi este framework ao longo de anos a trabalhar com estudantes universitários portugueses. Chamo-lhe Método LEGAL porque é literalmente isso: uma forma de usar IA que te mantém do lado certo das regras.

Diagrama visual dos 5 passos do Método LEGAL para uso ético de IA
Os 5 passos que te mantêm protegido

Passo 1: Ler as Políticas da Tua Instituição

Parece óbvio? Pois deveria ser, mas menos de 20% dos estudantes que entrevistei alguma vez leram o regulamento académico da sua faculdade. E depois surpreendem-se quando são chamados a uma reunião disciplinar.

Onde encontrar as políticas:

  • Regulamento Académico (secção sobre integridade/plágio)
  • Guias de Integridade Académica do departamento
  • Comunicações oficiais do Conselho Pedagógico
  • Normas específicas do programa de mestrado/doutoramento

A pergunta-chave para o teu orientador: “Professor(a), qual é a posição da faculdade sobre o uso de ferramentas de IA generativa em teses? Existe alguma diretriz específica que eu deva seguir?”

Fazer esta pergunta demonstra maturidade académica. Não fazer esta pergunta e ser apanhado depois demonstra negligência.

Passo 2: Escolher as Tarefas Certas Para a IA

✅ Tarefas seguras: Brainstorming, revisão linguística, formatação de referências, pesquisa exploratória de conceitos, tradução de citações.

⚠️ Tarefas de risco médio: Estruturação de argumentos, síntese preliminar de literatura (sempre com verificação), sugestões de organização.

🔴 Tarefas proibidas: Geração de análise de dados, criação de citações ou referências, escrita de conclusões originais, formulação de hipóteses, análise crítica de fontes.

Para uma lista completa de comportamentos de alto risco, consulta Erros Fatais ao Usar IA na Tese.

Passo 3: Garantir a Tua Voz Autoral

Aqui está o segredo que separa estudantes que usam IA com sucesso daqueles que são apanhados: a regra dos 3 passes.

  1. IA gera → obtém um primeiro rascunho ou sugestão
  2. Tu reescreves → reformula com as tuas palavras, estrutura e lógica
  3. Tu personalizas → adiciona exemplos do teu contexto, terminologia da tua área, conexões com a tua investigação

Pensa na IA como um assistente que te dá um barro moldável. O trabalho de escultura é teu. E é essa escultura — não o barro original — que entregas.

Passo 4: Arquivar e Documentar Tudo

Se só seguires um conselho deste artigo, que seja este: documenta tudo. Cada prompt, cada output, cada edição.

Sistema organizado de documentação para uso de IA em trabalhos académicos
Organização que te pode salvar

Porquê? Porque se algum dia fores questionado, a tua documentação é a diferença entre “uso legítimo e transparente” e “tentativa de fraude”. Um estudante que mostra o processo — desde o prompt inicial até à versão final editada — demonstra trabalho intelectual.

Cria uma pasta com esta estrutura: prompts utilizados, outputs originais da IA, versões editadas por ti, e a declaração de uso. Esta estrutura prova três coisas: usaste IA de forma consciente e planeada, fizeste trabalho substancial de edição, e estás preparado para ser transparente.

Passo 5: Listar na Declaração de Originalidade

A declaração de originalidade é onde muitos estudantes se enterram — ou por dizerem demais, ou por não dizerem nada.

O que declarar: Tipo de ferramenta utilizada, finalidade específica, secções onde foi aplicada.

O que NÃO declarar: Afirmações vagas como “usei IA para me ajudar a escrever” ou confissões incriminadoras como “a IA escreveu partes que depois editei”.

Linguagem segura exemplo: “No desenvolvimento desta dissertação, foram utilizadas ferramentas de IA generativa (ChatGPT) como assistência para revisão linguística e clarificação de formulações textuais. Todo o conteúdo intelectual, argumentação, análise de dados e conclusões são da autoria exclusiva do estudante.”

Para evitar erros comuns, lê Erros Fatais ao Declarar IA na Tese de Mestrado.

Exemplo Prático: ChatGPT na Revisão de Literatura

Vamos tornar isto concreto com um cenário real:

Estudante: Maria, mestrado em Gestão de Empresas
Tarefa: Sintetizar 15 artigos científicos para a revisão de literatura
Desafio: Identificar conexões e gaps na literatura existente

O processo seguro que a Maria seguiu:

Primeiro, leu todos os artigos e tomou notas manuais. Isto é inegociável. Nunca peças à IA para resumir artigos que não leste — além de ser eticamente questionável, vais perder nuances importantes que só a leitura humana capta.

Depois, usou a IA para tarefas específicas: “Com base nestes 5 conceitos que identifiquei, sugere possíveis conexões entre eles” ou “Esta frase está confusa — como posso reformulá-la para maior clareza?”

Cada sugestão da IA foi verificada contra as fontes originais. Todos os prompts foram para a pasta de documentação, com as respostas originais e as versões finais editadas.

O que a Maria NÃO fez: Fazer upload de PDFs pedindo “resume estes artigos”, usar citações sugeridas pela IA sem verificar se existem, ou copiar a estrutura argumentativa sem adaptação ao seu contexto.

O Que Fazer Se a Tua Tese For Sinalizada

Respiração funda. Se recebeste a notícia de que o teu trabalho foi sinalizado pelo detetor de IA, não entres em pânico. Sinalização não é acusação, muito menos condenação.

O próprio Turnitin reconhece que os seus indicadores de IA “devem ser considerados como um ponto de partida para investigação, não como prova definitiva”.

Se seguiste o Método LEGAL e tens a tua documentação organizada, tens todas as ferramentas para defender o teu trabalho. Mostra o processo, demonstra o trabalho intelectual que fizeste, e explica como a IA foi apenas uma ferramenta de assistência — não o autor.

A diferença entre ser penalizado e ser ilibado está quase sempre na preparação prévia. E agora, tu tens essa preparação.


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