Como Submeter um Projeto ao Comité de Ética da Tese Passo a Passo 2026
Chegou o momento de submeter o projeto de investigação ao comité de ética — e com ele surge uma lista interminável de dúvidas: que documentos são obrigatórios? Quanto tempo demora a obter parecer? O que acontece se o projeto for rejeitado? Em 2026, submeter corretamente um projeto ao comité de ética da tese não é apenas uma formalidade burocrática: é uma condição sine qua non para recolher dados, publicar resultados e, em muitas universidades portuguesas, agendar a defesa. Este guia percorre todos os passos, do diagnóstico inicial à resposta a pedidos de esclarecimento, com referências às comissões de ética em Portugal e aos requisitos do RGPD.
A aprovação ética protege os participantes da investigação — e também o próprio investigador. Um estudo sem parecer favorável pode ser invalidado pela instituição ou recusado por revistas científicas no momento da publicação. Se ainda está a definir as perguntas de investigação e hipóteses, leia primeiro o guia sobre como definir objetivos, perguntas de pesquisa e hipóteses da tese — ter a pergunta de investigação cristalizada é o ponto de partida para qualquer submissão ética.
Quando precisa de aprovação ética
Nem toda a investigação académica requer aprovação formal de um comité de ética. Em termos gerais, a aprovação é obrigatória sempre que a investigação:
- Envolva participantes humanos (questionários, entrevistas, observação, testes, grupos de foco);
- Utilize dados pessoais identificáveis — mesmo que recolhidos de fontes secundárias;
- Envolva grupos vulneráveis (menores, pessoas com deficiência cognitiva, reclusos, doentes em situação crítica);
- Recolha dados biomédicos, biológicos ou genéticos;
- Implique riscos físicos ou psicológicos para os participantes;
- Utilize gravações de vídeo ou áudio associáveis a indivíduos.
Investigação exclusivamente documental (análise de textos publicados, revisões de literatura, meta-análises com dados anonimizados de fontes abertas) geralmente não exige aprovação ética, embora algumas universidades recomendem sempre uma declaração de isenção (waiver). Confirme sempre com o orientador e com a comissão de ética da sua instituição antes de assumir que está isento.
Comissões de ética em Portugal: qual contactar
Em Portugal, o parecer ético é emitido pela comissão de ética da própria instituição de acolhimento. Não existe uma entidade nacional única para investigação académica em ciências sociais e humanas — ao contrário da área biomédica, onde a CEIC (Comissão de Ética para a Investigação Clínica) tem competência centralizada.
| Instituição | Comissão | Âmbito |
|---|---|---|
| Universidade de Lisboa / ISCSP | Comissão de Ética para a Investigação | Ciências Sociais |
| Universidade do Porto | Comissão de Ética da UP | Todas as áreas |
| Universidade Católica Portuguesa | CES / CETCH | Saúde e Tecnologia/Sociais |
| NOVA FCT | CENOVAFCT | Ciências e Tecnologia |
| Universidade do Minho / ICVS | CE-ICVS | Ciências da Vida e Saúde |
| Politécnico de Leiria | Comissão de Ética | Todas as áreas |
Se a investigação envolver participantes de outra instituição (por exemplo, inquéritos a profissionais de saúde), pode ser necessário obter um segundo parecer da comissão de ética dessa instituição. Investigue sempre com antecedência.
Passo 1 — Diagnóstico inicial
Antes de abrir o formulário de submissão, faça este diagnóstico em três perguntas:
- A minha investigação envolve pessoas ou dados sobre pessoas? Se sim, avance para o passo 2.
- Existe risco de dano para os participantes? Identifique riscos físicos, psicológicos, sociais ou económicos, mesmo que mínimos.
- Os dados recolhidos são identificáveis? Nomes, endereços de e-mail, imagens, voz — mesmo que pseudonimizados — contam como dados pessoais ao abrigo do RGPD.
Registe as respostas num documento interno. Este diagnóstico será a base da secção de “justificação ética” no formulário de submissão. Certifique-se de que o capítulo de metodologia da tese descreve claramente os procedimentos éticos — se ainda está a construir essa secção, o guia sobre como escrever a metodologia da tese explica como integrar os requisitos éticos na estrutura do capítulo.
Passo 2 — Elaborar o protocolo de investigação
O protocolo é o documento central da submissão ética. Deve ser claro, conciso e suficientemente detalhado para que um revisor externo — sem conhecimento prévio do tema — consiga avaliar os riscos. Inclua obrigatoriamente:
- Título e resumo do estudo (máximo 300 palavras);
- Objetivos e perguntas de investigação;
- Desenho metodológico: tipo de estudo (qualitativo, quantitativo, misto), método de recolha de dados, instrumentos;
- Participantes: critérios de inclusão e exclusão, dimensão da amostra e procedimento de recrutamento;
- Procedimentos de recolha de dados: como, quando e onde;
- Riscos e benefícios: avaliação objetiva, mesmo que mínimos;
- Proteção de dados: onde são armazenados, quem tem acesso, durante quanto tempo;
- Confidencialidade e anonimização: estratégias concretas;
- Cronograma do estudo.
Passo 3 — Redigir o consentimento informado
O consentimento informado é o documento que formaliza a adesão voluntária do participante. É o elemento mais frequentemente devolvido para revisão. Para que seja aprovado à primeira tentativa, siga esta estrutura:
- Identificação do investigador e da instituição: nome completo, afiliação, contacto (e-mail institucional);
- Descrição do estudo: o que é, para que serve, quem financia;
- O que se pede ao participante: tarefas, duração, número de sessões;
- Riscos e desconfortos previsíveis: mesmo que mínimos (“pode sentir algum cansaço mental”);
- Benefícios: diretos (se existirem) e indiretos (contribuição para o conhecimento);
- Carácter voluntário e direito de retirada: o participante pode desistir a qualquer momento, sem penalização;
- Confidencialidade e anonimização: como os dados são protegidos;
- Cláusula RGPD (ver passo 4);
- Assinatura do participante e do investigador com data.
Utilize linguagem simples — evite jargão técnico. O consentimento deve ser compreensível por alguém sem formação académica. Se os participantes forem menores de 18 anos, é necessário o consentimento dos encarregados de educação e o assentimento do menor (para crianças com mais de 12 anos).
Guarde sempre cópias assinadas dos consentimentos. Em caso de entrevistas gravadas, registe também no próprio áudio a confirmação verbal do consentimento.
Passo 4 — Conformidade com o RGPD
O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD, Regulamento UE 2016/679), transposto para o direito português pela Lei n.º 58/2019, de 8 de agosto, aplica-se a qualquer tratamento de dados pessoais — incluindo investigação académica. Desde 2024, a CEIC exige que os consentimentos informados integrem explicitamente as seguintes cláusulas RGPD:
- Base jurídica do tratamento: para investigação académica, a base é geralmente o “interesse público” (artigo 6.º, n.º 1, alínea e) do RGPD) ou o “consentimento explícito” (artigo 6.º, n.º 1, alínea a));
- Responsável pelo tratamento: nome e contacto do investigador e/ou da instituição;
- Finalidade e período de conservação dos dados: indique o tempo máximo de retenção (tipicamente até 5 anos após a defesa);
- Direitos do titular: acesso, retificação, apagamento, limitação e portabilidade;
- Transferências internacionais: se os dados forem tratados em servidores fora da UE (e.g., Google Drive com conta não europeia, plataformas de transcrição americanas), indique-o e justifique as garantias.
Se utilizar ferramentas de IA para transcrever entrevistas ou analisar dados (como Whisper, Otter.ai ou similares), mencione-o no protocolo e no consentimento informado. Desde 2025, muitas comissões de ética portuguesas exigem essa declaração. Saiba como redigir corretamente essa declaração no guia sobre como redigir a declaração de uso de IA na tese.
Passo 5 — Preencher o formulário de submissão
Cada comissão de ética tem o seu próprio formulário. Apesar das diferenças de formato, os campos solicitados são tipicamente os mesmos. Recolha os seguintes dados antes de começar a preencher:
- Número de estudante e afiliação institucional;
- Nome do orientador e co-orientador (com contactos);
- Título provisório da tese;
- Programa de doutoramento ou mestrado e unidade orgânica;
- Data prevista de início da recolha de dados;
- Estimativa do número de participantes;
- Tipo de dados recolhidos (questionários em papel, online, entrevistas, observação…);
- Declaração de ausência de conflito de interesses.
Preencha o formulário com atenção a cada campo. Respostas vagas como “dados serão guardados em segurança” são sistematicamente devolvidas. Seja concreto: “os dados serão guardados numa pasta encriptada (AES-256) em servidor institucional da Universidade X, com acesso restrito ao investigador principal, pelo período máximo de 5 anos após a conclusão do estudo”.
Passo 6 — Submeter e acompanhar o processo
A maioria das comissões de ética portuguesas aceita submissões por e-mail ou através de plataformas institucionais (como o Fenix na ULisboa ou o SIGARRA na UP). O conjunto de documentos habitualmente exigido é:
- Formulário de submissão preenchido e assinado pelo investigador e pelo orientador;
- Protocolo de investigação;
- Formulário(s) de consentimento informado (versão para participantes adultos e, se aplicável, versão para encarregados de educação e assentimento de menores);
- Instrumentos de recolha de dados (questionários, guião de entrevista, ficha de observação);
- Declaração de conformidade RGPD (ou secção RGPD integrada no consentimento);
- CV resumido do investigador principal (em algumas comissões);
- Comprovativo de seguro de responsabilidade (em estudos com risco físico).
Após a submissão, guarde o comprovativo com carimbo ou e-mail de acuse de receção. Este documento pode ser necessário para a defesa da tese. Acompanhe o processo regularmente — algumas comissões comunicam por e-mail, outras apenas através do portal institucional.
Passo 7 — Responder a pedidos de esclarecimento
É comum a comissão emitir um parecer condicionado, pedindo esclarecimentos ou correções antes de emitir parecer favorável definitivo. Quando receber um pedido de esclarecimento:
- Leia atentamente cada ponto e identifique se é um pedido de informação, uma correção obrigatória ou uma sugestão;
- Responda ponto a ponto, de forma numerada, citando o parágrafo original e a versão corrigida;
- Submeta os documentos revistos com as alterações destacadas (use o modo de revisão do Word ou marcação a cor);
- Respeite o prazo indicado pela comissão — habitualmente 15 a 30 dias. Se precisar de mais tempo, solicite uma extensão por escrito.
Manter um registo organizado de toda a correspondência com a comissão é fundamental. Guarde cada versão dos documentos com data no nome do ficheiro (ex.: consentimento_v2_2026-06-15.docx).
A integridade académica é um valor que vai além da aprovação formal. Como Marco Armello documenta no seu blogue Sobrevivendo na Ciência, a pressão de produção académica pode comprometer práticas que consideramos garantidas — e manter uma postura ética rigorosa ao longo de todo o processo de investigação é a melhor forma de proteger o trabalho e a reputação do investigador: Sobrevivendo na academia neoliberal — Sobrevivendo na Ciência.
Prazos e calendário típico
Planear com antecedência é a regra de ouro. Em Portugal, os prazos variam significativamente entre instituições:
| Tipo de comissão | Prazo médio de resposta | Frequência de reuniões |
|---|---|---|
| Comissões universitárias (CS/CH) | 30–60 dias úteis | Mensal |
| CEIC (área biomédica/clínica) | 45–90 dias úteis | Mensal (datas fixas) |
| Comissões de politécnicos | 15–45 dias úteis | Bimestral/trimestral |
Regra prática: submeta o pedido pelo menos 3 meses antes da data prevista para iniciar a recolha de dados. Se a defesa está marcada para junho de 2027, idealmente a recolha de dados começa em setembro de 2026 — o que implica submeter o pedido ético até junho de 2026. Não inicie a recolha de dados sem parecer favorável escrito.

A compreensão das etapas do processo de investigação — incluindo o momento certo para a submissão ética — é fundamental para cumprir o cronograma. O blogue Trabalhos Académicos oferece uma perspetiva clara sobre as várias etapas do processo de investigação: Processo de Investigação — Etapas.
Motivos de rejeição mais comuns e como evitá-los
A análise dos pareceres emitidos pelas principais comissões de ética universitárias em Portugal revela um padrão consistente de problemas recorrentes nas submissões de mestrandos e doutorandos. Aqui estão os mais frequentes — e a forma de os evitar:
| Problema | Como evitar |
|---|---|
| Consentimento informado incompleto (falta de cláusula RGPD) | Use o modelo oficial da comissão, que já inclui as cláusulas obrigatórias |
| Protocolo vago sobre armazenamento de dados | Especifique: plataforma, encriptação, quem acede, período de retenção |
| Ausência de avaliação de risco (mesmo que mínimo) | Inclua sempre uma secção “Riscos e medidas de mitigação”, mesmo que o risco seja “fadiga mental” |
| Instrumentos de recolha não anexados | Inclua sempre o questionário, guião de entrevista ou ficha de observação completos |
| Falta de assinatura do orientador no formulário | Confirme com o orientador com pelo menos 10 dias de antecedência à data de submissão |
| Inconsistência entre o protocolo e o capítulo de metodologia | Escreva o protocolo com base no capítulo de metodologia já validado pelo orientador |
| Uso de ferramentas de IA não declarado | Declare no protocolo quaisquer ferramentas de IA usadas na recolha ou análise de dados |
Perguntas frequentes
Posso iniciar a recolha de dados enquanto aguardo o parecer ético?
Não. Iniciar a recolha de dados antes de obter o parecer favorável é uma violação ética grave. Os dados recolhidos sem aprovação podem ser rejeitados pelo orientador, pela banca de defesa ou por uma revista científica. Planifique o cronograma com pelo menos 3 meses de antecedência para acomodar o tempo de análise da comissão.
O que acontece se o meu projeto for recusado pelo comité de ética?
A recusa definitiva é rara — a maioria dos pareceres negativos é condicionada, ou seja, o projeto pode ser reapresentado com as alterações solicitadas. Leia cuidadosamente o parecer, corrija os pontos indicados e resubmeta dentro do prazo indicado. Se a recusa for definitiva, discuta com o orientador a possibilidade de reformular o design do estudo.
A investigação com dados totalmente anonimizados precisa de aprovação ética?
Depende. Se os dados foram anonimizados de forma irreversível antes de serem acedidos pelo investigador (por exemplo, bases de dados estatísticas públicas do INE ou Eurostat), geralmente não é necessária aprovação ética. Se o investigador tiver acesso à identidade dos participantes em qualquer fase — mesmo que depois os anonimize — a aprovação é obrigatória. Confirme sempre com a sua comissão de ética.
O parecer ético tem prazo de validade?
Sim. A maioria das comissões emite pareceres com validade de 1 a 3 anos. Se a recolha de dados se prolongar para além desse período, ou se o projeto sofrer alterações substanciais (mudança de método, alargamento da amostra, novos instrumentos), é necessário submeter um adendo ou um novo pedido. Guarde sempre o parecer com a data de emissão e verifique a validade antes de iniciar cada fase da recolha.
Preciso de aprovação ética para usar questionários anónimos online?
Na maioria dos casos, sim. Mesmo que o questionário seja anónimo, a distribuição de um instrumento de recolha de dados a participantes humanos constitui investigação com sujeitos humanos. A comissão de ética avaliará se o grau de risco é mínimo e poderá emitir uma isenção expedita em vez de uma análise completa. Submeta sempre o pedido, mesmo que o risco pareça nulo.
Como referir o parecer ético na tese?
Mencione o parecer ético no capítulo de metodologia, indicando o nome da comissão, o número de referência do parecer e a data de aprovação. Exemplo: “A investigação obteve parecer favorável da Comissão de Ética para a Investigação do ISCSP (Ref.ª CEI-2026-045, aprovado a 15 de março de 2026).” Alguns orientadores pedem também que o parecer seja incluído em anexo na versão final da tese.
Organize toda a sua tese com a Tesify
Gerir o processo ético em paralelo com a escrita da tese é exigente. A Tesify ajuda-o a estruturar o capítulo de metodologia, a organizar os documentos de submissão ética e a manter o cronograma da investigação — desde a submissão ao comité de ética até à defesa. Pode saber mais sobre como integrar os procedimentos éticos no seu projeto de investigação no guia sobre como escrever o capítulo de metodologia da tese.
