Como Fazer uma Entrevista Semi-Estruturada na Tese: Guia Metodológico 2026
A entrevista semi-estruturada é um dos métodos de recolha de dados qualitativos mais usados em ciências sociais, educação, psicologia, gestão e saúde. A sua flexibilidade — entre a rigidez de um questionário fechado e a liberdade de uma entrevista não estruturada — torna-a ideal para explorar perspetivas, experiências e significados que os dados quantitativos não captam. Saber como a conceber, conduzir e analisar corretamente é uma competência metodológica essencial para qualquer investigador.
Este guia percorre todas as etapas do processo, desde o design do guião até à análise dos dados e à sua referenciação na tese.
O Que É uma Entrevista Semi-Estruturada (e porque usá-la)
Uma entrevista semi-estruturada combina a preparação prévia (guião com tópicos e perguntas orientadoras) com a flexibilidade para explorar temas emergentes durante a conversa. O investigador guia a entrevista, mas permite que o participante aprofunde perspetivas não antecipadas — o que muitas vezes revela os dados mais ricos e inesperados.
Quando usar entrevistas semi-estruturadas
- Quando quer compreender perspetivas, experiências ou motivações — não apenas frequências
- Quando o fenómeno estudado é pouco conhecido e quer explorar antes de hipotetizar
- Quando os participantes têm diferentes contextos e quer adaptar a entrevista a cada um
- Quando combina com outras metodologias num design de métodos mistos
Diferença entre entrevistas estruturadas, semi-estruturadas e não estruturadas
| Tipo | Flexibilidade | Quando usar |
|---|---|---|
| Estruturada | Baixa (perguntas fixas) | Comparação entre muitos participantes |
| Semi-estruturada | Média (guião + adaptação) | Explorar experiências com alguma comparabilidade |
| Não estruturada | Alta (conversa aberta) | Exploração etnográfica profunda |
Como Elaborar o Guião de Entrevista
O guião de entrevista semi-estruturada não é um questionário — é um roteiro com blocos temáticos e perguntas orientadoras, não necessariamente seguidas pela ordem pré-definida.
Estrutura típica de um guião
- Introdução: apresentação do investigador, objetivo da entrevista, informação sobre confidencialidade e consentimento
- Perguntas de aquecimento: perguntas neutras sobre o perfil do participante para criar rapport
- Blocos temáticos: 3-5 temas principais com 2-4 perguntas orientadoras cada
- Encerramento: oportunidade para o participante acrescentar algo não abordado
Tipos de perguntas a incluir
- Perguntas abertas: “O que pensa sobre…?”, “Como descreveria…?”
- Perguntas de aprofundamento: “Pode dar-me um exemplo?”, “O que aconteceu depois?”
- Perguntas de clarificação: “O que quer dizer com…?”
- Perguntas de contraste: “Em que difere da situação anterior?”
Evite perguntas fechadas (que admitem apenas “sim” ou “não”), perguntas dirigidas que sugerem a resposta esperada, e perguntas duplas (duas questões numa).
Seleção dos Participantes: Amostragem Intencional
Na investigação qualitativa com entrevistas, não se usa amostragem aleatória — usa-se amostragem intencional (purposive sampling): selecionam-se participantes que têm experiência relevante para a questão de investigação.
O número de participantes é determinado pela saturação teórica — quando as entrevistas adicionais já não acrescentam informação nova. Tipicamente, 8-15 entrevistas são suficientes para uma tese de mestrado, dependendo da profundidade pretendida e da homogeneidade dos participantes.
Como Conduzir a Entrevista
- Obtenha consentimento informado por escrito antes de começar (obrigatório eticamente)
- Grave em áudio com autorização — tomar apenas notas durante a entrevista reduz a qualidade da análise
- Conduza numa ambiente confortável e privado
- Comece pela apresentação e objetivos antes de perguntas sobre o tema
- Escute ativamente — o silêncio é um convite para o participante continuar
- Evite expressar opinião ou aprovação/desaprovação das respostas
- Reserve os últimos 5 minutos para encerramento e agradecimento
Transcrição e Gestão dos Dados
A transcrição das entrevistas é um processo demorado mas essencial para a análise qualitativa rigorosa. Uma hora de entrevista requer tipicamente 4-6 horas de transcrição.
Ferramentas gratuitas de transcrição automática como o Whisper (OpenAI, open-source) ou o Google Docs Voice Typing podem poupar tempo, mas requerem revisão cuidadosa. Atribua um código a cada participante para garantir anonimato (P1, P2, etc.).
Análise dos Dados de Entrevistas Semi-Estruturadas
Os dois métodos mais comuns para análise de entrevistas semi-estruturadas são:
Análise de Conteúdo
Identifica e quantifica categorias temáticas nas respostas. Pode ser dedutiva (categorias pré-definidas com base na teoria) ou indutiva (categorias emergem dos dados).
Análise Temática
Identifica padrões de significado (temas) através dos dados. Braun & Clarke (2006) propõem 6 fases: familiarização com os dados, geração de códigos iniciais, procura de temas, revisão de temas, definição e nomeação de temas, produção do relatório.
Para uma abordagem mais aprofundada da metodologia qualitativa em teses, consulte o nosso artigo Metodologia Qualitativa para Tese: Guia Completo com Exemplos. Para metodologias quantitativas, veja Metodologia Quantitativa para Dissertação. Estudantes brasileiros encontram orientações específicas em Metodologia de Investigação para Tese de Mestrado.
Perguntas Frequentes
Quantas entrevistas semi-estruturadas preciso para uma tese de mestrado?
Não existe um número fixo — o critério é a saturação teórica, quando as entrevistas adicionais já não geram informação nova. Para teses de mestrado com metodologia qualitativa, 8-15 entrevistas são geralmente suficientes. O mais importante é justificar o número no capítulo de metodologia com base nos critérios de saturação e nas características dos participantes.
Preciso de aprovação ética para fazer entrevistas na minha tese?
Em Portugal, a maioria das universidades exige aprovação da comissão de ética para investigação com participantes humanos, incluindo entrevistas. Consulte a comissão de ética da sua universidade antes de iniciar a recolha de dados — o processo pode demorar várias semanas. O consentimento informado por escrito é obrigatório em todos os casos.
Posso fazer entrevistas online para a tese?
Sim, entrevistas online (via Zoom, Teams ou Google Meet) são amplamente aceites após a pandemia. A qualidade dos dados é comparável às entrevistas presenciais, com algumas limitações na observação de linguagem não-verbal. Certifique-se de que o software de videochamada permite gravação e obtenha consentimento explícito para a gravação.
Como referenciar entrevistas em APA 7?
Em APA 7, entrevistas não publicadas (para as quais o leitor não tem acesso) são tratadas como comunicações pessoais e citadas apenas no texto, sem entrada na lista de referências: (J. Silva, comunicação pessoal, 15 de março de 2026). Se a entrevista for publicada (ex: numa revista), segue o formato de fonte publicada correspondente.
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