Passaste 4 anos a investigar, escreveste 300 páginas… e a tua tese pode ser reprovada por causa de 300 palavras.
Parece exagero? Infelizmente, não é. Estudos indicam que cerca de 15% das teses que enfrentam problemas na defesa têm falhas críticas nos elementos pré-textuais — e o resumo está no topo dessa lista. O mais chocante? A maioria desses erros são completamente evitáveis.
Deixa-me explicar-te algo que poucos orientadores dizem abertamente: o resumo é frequentemente o primeiro (e às vezes único) elemento que os membros do júri leem com atenção total. Num dia de defesas consecutivas, com pilhas de teses para avaliar, o resumo funciona como o filtro inicial. Se falha, a primeira impressão está comprometida.

Imagina isto: estás a candidatar-te a um emprego de sonho. O teu currículo tem toda a informação relevante, mas o resumo profissional no topo está confuso, vago e mal escrito. Qual é a probabilidade de o recrutador continuar a ler? Exactamente.
O que é um resumo de tese de doutoramento?
O resumo de tese de doutoramento é uma síntese concisa de 150 a 500 palavras que apresenta o contexto, objetivos, metodologia, resultados principais e conclusões da investigação. É um elemento pré-textual obrigatório que determina se o leitor continuará a ler o trabalho completo.
Neste artigo, vou revelar-te os 5 erros mais comuns na elaboração de resumos para teses de doutoramento — aqueles que consistentemente levam a reprovações ou revisões penosas. Mais importante ainda, vou mostrar-te exactamente como corrigi-los.
Se achas que o teu resumo está confuso, é provável que existam erros estruturais mais profundos na tua tese. Mas vamos começar pelo princípio.
Porquê o Resumo É o Elemento Mais Subestimado da Tua Tese
Há uma ironia cruel no mundo académico: passamos anos a investigar, meses a escrever, semanas a formatar… e dedicamos, em média, apenas 2 horas ao resumo. Pior ainda, muitos doutorandos escrevem-no às pressas, na véspera da submissão.
É como construir um palácio e depois colocar uma porta de cartão na entrada.
O resumo é, literalmente, o cartão de visita da tua investigação. Mas a sua função vai muito além de “apresentar” o trabalho. Os membros do júri usam-no para formar primeiras impressões — e as primeiras impressões, como sabemos da psicologia, são extraordinariamente persistentes. Um resumo claro e bem estruturado comunica competência antes sequer de lerem a introdução.
Além disso, o resumo determina a visibilidade académica da tua tese. Quando a tua investigação é indexada em repositórios institucionais, bases de dados como a Scopus ou a Web of Science, e motores de busca académicos, é o resumo (e as palavras-chave) que aparecem nos resultados. Se o teu resumo for vago, ninguém encontra o teu trabalho. Se for preciso, ganhas citações.
Aqui está um erro que vejo repetidamente: doutorandos que escrevem resumos indicativos quando deveriam escrever resumos informativos. Qual é a diferença?
- Resumo indicativo: Descreve o que a tese aborda, sem revelar resultados. É como um índice expandido.
- Resumo informativo: Apresenta contexto, objetivos, metodologia, resultados e conclusões. É uma mini-versão completa da investigação.
Teses de doutoramento exigem resumos informativos. Sempre. Sem excepção.
📚 Para entenderes melhor esta diferença crítica, consulta a página da Biblioteca UENP sobre Resumos ABNT NBR 6028:2021.
Em 2021, a norma ABNT NBR 6028 foi actualizada com directrizes mais claras. O essencial que precisas saber:
- Extensão: 150 a 500 palavras para trabalhos académicos
- Formato: Parágrafo único, sem recuo na primeira linha
- Linguagem: Terceira pessoa do singular ou voz passiva
- Palavras-chave: Separadas por ponto e vírgula, iniciando com maiúscula
Os 5 Erros Fatais na Elaboração de Resumos
Depois de analisar centenas de resumos de teses — alguns aprovados com distinção, outros que levaram a revisões humilhantes — identifiquei cinco padrões de erro que se repetem obsessivamente.

Quais são os erros que reprovam resumos de tese?
- Escrever um resumo indicativo em vez de informativo
- Omitir resultados e conclusões principais
- Exceder ou não atingir a extensão adequada
- Usar primeira pessoa ou linguagem subjetiva
- Esquecer ou formatar mal as palavras-chave
Erro #1 — Resumo Indicativo Disfarçado de Informativo
Este é, de longe, o erro mais comum. E o mais traiçoeiro, porque parece correcto à primeira vista.
Exemplo de erro: “Esta tese investiga os efeitos da política fiscal expansionista na economia portuguesa. São analisados dados macroeconómicos e apresentadas conclusões sobre o tema.”
Vês o problema? Não há resultados concretos. Não há números. Não há descobertas. É uma promessa vazia.
Exemplo correcto: “Esta investigação identificou que a política fiscal expansionista implementada entre 2015 e 2023 aumentou o PIB português em 2,3% através de análise de regressão com dados trimestrais do INE. Os resultados demonstram uma correlação positiva (r=0.78) entre despesa pública e crescimento económico.”
Erro #2 — O Resumo Sem Resultados
Chamo-lhe o “resumo promessa” porque faz exactamente isso: promete que vai haver resultados interessantes… sem os revelar. Alguns doutorandos acham que devem guardar os resultados para criar suspense. Isto não é um romance policial.
A estrutura obrigatória é: Contexto → Objetivo → Metodologia → Resultados → Conclusões. Se falta qualquer elemento, o resumo está incompleto.
Erro #3 — Tamanho Errado
A NBR 6028:2021 é clara: 150 a 500 palavras. Resumos curtos demais parecem superficiais. Resumos longos demais demonstram incapacidade de síntese. A minha recomendação? Aponta para 300-400 palavras — é o sweet spot.
Erro #4 — Linguagem na Primeira Pessoa
Evita expressões como “Eu investiguei…”, “Na minha opinião…”, “Achei fascinante que…”. Opta por “Investigou-se…”, “A presente investigação analisou…”, “Os dados demonstram…”. A objectividade científica não é apenas uma preferência estilística — é um requisito epistemológico.
Erro #5 — Palavras-Chave Mal Trabalhadas
As palavras-chave são o GPS da tua investigação no mundo digital. Evita repetir palavras do título, termos demasiado genéricos como “Economia” ou “Portugal”, e formatação incorrecta. Boas palavras-chave cobrem: tema central específico, metodologia utilizada, área disciplinar e contexto relevante.
O Resumo Como Ferramenta de Visibilidade Académica

O mundo académico de 2025 não é o de 2015. Pensa no Google Scholar, no RCAAP, no Scopus. Quando alguém pesquisa um tema relacionado com a tua investigação, o que aparece? O título e o resumo. É isso.
Se o teu resumo não contém as palavras-chave certas, não apareces. Se apareces mas o resumo é vago, ninguém clica. Se clicam mas não encontram resultados claros, não citam. Isto chama-se SEO académico — e é uma competência que distingue investigadores visíveis de investigadores invisíveis.
A maioria das universidades portuguesas já exige, além do resumo em português, um abstract em inglês. E aqui surge outro problema comum: traduções automáticas desastrosas. O abstract deve ser consistente com o resumo em termos de conteúdo, mas não uma tradução literal. Deve soar natural em inglês académico.
Se ainda estás na fase inicial da escrita, consulta o nosso guia de Escrita de Tese de Doutoramento para Iniciantes.
Como Alinhar o Resumo Com a Estrutura da Tua Tese
Aqui está um insight que poucos partilham: o resumo é um espelho da estrutura da tese. Se um está desalinhado, o outro provavelmente também está.

Cada secção do resumo corresponde directamente a um capítulo:
| Elemento do Resumo | Capítulo Correspondente |
|---|---|
| Contexto/Problema | Introdução |
| Objetivo | Questões de Investigação |
| Metodologia | Metodologia |
| Resultados | Análise/Discussão |
| Conclusões | Conclusões |
Se consegues preencher esta tabela facilmente, o teu resumo está no caminho certo. Se tens dificuldade em algum elemento, é sinal de que o capítulo correspondente precisa de trabalho.
🔗 Se o teu resumo está confuso, é muito provável que a estrutura da tua tese também esteja. Descobre os 7 Erros Fatais na Estrutura de Tese de Doutoramento.
Aqui está um erro táctivo que vejo constantemente: doutorandos que escrevem o resumo no início, como uma espécie de plano. Não faças isto. O resumo deve ser a última coisa que escreves. Só depois de teres todos os capítulos finalizados é que consegues realmente sintetizar o que fizeste, encontraste e concluíste.
Aprende a Sintetizar Como Um Profissional
Antes de escreveres o teu resumo, domina a arte da síntese. A capacidade de condensar ideias complexas sem perder a essência é uma competência que poucos desenvolvem adequadamente.
🎬 O Professor Noslen explica de forma clara e prática como fazer um resumo eficaz:
Embora o vídeo aborde resumos de forma geral, as técnicas de síntese apresentadas são directamente aplicáveis à elaboração de resumos para teses de doutoramento.
Checklist Final — Valida Antes de Submeter
Antes de submeteres a tua tese, passa o resumo por esta checklist. Cada item não marcado é um risco potencial.
Checklist de Validação:
- ☐ É informativo (inclui resultados e conclusões concretas)?
- ☐ Tem entre 150 e 500 palavras?
- ☐ Está escrito em parágrafo único?
- ☐ Usa terceira pessoa ou voz passiva?
- ☐ Inclui 3-5 palavras-chave separadas por ponto e vírgula?
- ☐ As palavras-chave começam com maiúscula?
- ☐ O abstract em inglês está consistente com o resumo?
- ☐ Cada secção corresponde aos capítulos da tese?
O resumo pode parecer um detalhe menor comparado com os anos de investigação que fizeste. Mas lembra-te: é a primeira impressão que o júri terá do teu trabalho. E as primeiras impressões, como sabemos, raramente se apagam.
Dedica-lhe o tempo e a atenção que merece. A tua tese — e os teus quatro anos de trabalho — agradecem.




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