Estudante a corrigir erros na metodologia de investigação da tese académica com checklist e anotações
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Metodologia de Investigação: 7 Erros Fatais na Tese

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5 min de leitura

Cerca de 35% das teses são reprovadas ou devolvidas para correções significativas por falhas na metodologia. Não é exagero — qualquer orientador experiente confirma esta realidade frustrante.

Agora imagina: meses de trabalho, noites sem dormir, fins de semana sacrificados. E no dia da defesa, o júri olha para ti e diz: “A metodologia não sustenta as conclusões. Terá de refazer.”

O estômago revira. As mãos tremem. Todo aquele esforço pode ter sido em vão.

Mas se estás a ler isto antes de entregar, ainda há tempo de evitar este pesadelo.

O que é a metodologia de investigação?

É o capítulo que descreve e justifica todas as decisões para responder ao problema de pesquisa — tipo de estudo, amostragem, instrumentos de recolha e técnicas de análise. O “bilhete de identidade científico” do teu trabalho.

Neste artigo, revelo-te os 7 erros fatais mais frequentes — validados por orientadores e júris. Para cada erro, soluções práticas. No final, uma checklist completa para autoavaliação.

Para uma visão ainda mais completa, consulta também o artigo Metodologia Teses Mestrado Portugal: Verdades Ocultas 2025.

Vamos descobrir se a tua metodologia está no caminho certo?

Erro #1 — Desalinhamento Entre Objetivos, Questões e Método

Este é o erro mais silencioso e devastador. Como construir uma casa onde as paredes não encaixam nas fundações — bonita à superfície, condenada por dentro.

Os teus objetivos dizem uma coisa. As questões de investigação, outra. O método não serve para responder a nenhum dos dois.

Matriz de alinhamento mostrando como objetivos, questões e métodos devem conectar-se logicamente

Um exemplo que vejo constantemente:

❌ ERRADO:

Objetivo: “Compreender as perceções dos professores sobre ensino híbrido”

Método escolhido: Inquérito fechado com 500 respondentes

✅ CORRETO:

Objetivo: “Compreender as perceções dos professores sobre ensino híbrido”

Método adequado: Entrevistas semiestruturadas com análise de conteúdo

O verbo “compreender” remete para profundidade, significados, nuances — impossível captar com perguntas de escolha múltipla. Quando o júri deteta este desalinhamento, a credibilidade desmorona.

A Solução em 3 Passos

  1. Cria uma matriz de coerência — Cada linha: objetivo → questão → método → técnica de análise. Se não encaixa, tens um problema.
  2. Valida com o orientador antes de avançar — Não esperes ter tudo escrito.
  3. Revê sempre que mudares qualquer elemento — Este é um documento vivo.

O clássico de António Carlos Gil, Como Elaborar Projetos de Pesquisa, explica em detalhe como alinhar delineamento com objetivos. Leitura obrigatória.

Para aprofundar, recomendo Metodologia para Teses de Mestrado em Portugal: 5 Erros.

Erro #2 — Escolha do Tipo de Estudo Sem Justificação

Já ouvi demasiadas vezes: “Escolhi qualitativo porque não gosto de estatística” ou “O meu colega fez assim e passou.”

A escolha não pode ser preferência pessoal. Tem de ser fundamentada epistemologicamente, ancorada no problema de pesquisa.

O Que o Júri Espera

  • Justificação baseada no problema — “Escolhi abordagem qualitativa porque o fenómeno é ainda pouco explorado.”
  • Referência a autores clássicos — Creswell, Yin, Minayo, Bardin devem aparecer.
  • Coerência com a tradição da área — Se a tua área usa predominantemente métodos quantitativos, explica a opção contrária.
Abordagem Quando Usar Quando NÃO Usar
Quantitativa Medir, comparar, testar hipóteses, generalizar Explorar fenómenos pouco conhecidos
Qualitativa Compreender significados, captar nuances Quando precisas de representatividade estatística
Mista Complementar perspetivas, fenómenos complexos Tempo ou recursos limitados

Se optares por quantitativa, conhece os 7 Erros em Investigação Quantitativa. Para qualitativa, evita os Erros na Investigação Qualitativa.

Erro #3 — Amostragem Mal Dimensionada ou Sem Critérios

A amostragem é o alicerce invisível. Mal feita, tudo desaba.

O que vejo constantemente: “A amostra foi de conveniência, constituída por 47 participantes.” Ponto final. Mais nada.

Isso não chega.

Processo de seleção de amostra a partir da população total para investigação académica

Problemas Mais Comuns

  • Amostra de conveniência sem justificação — Aceitável, mas explica porquê e reconhece limitações.
  • Tamanho insuficiente para análise estatística — Testes paramétricos com 15 pessoas? Prepara-te para críticas.
  • Critérios vagos — “Adultos portugueses” não é critério. “Adultos entre 25-45 anos, residentes em Lisboa, com 3 anos de experiência em X” já é.

Checklist de Amostragem

  • ☐ População-alvo claramente definida
  • ☐ Técnica de amostragem justificada
  • ☐ Tamanho amostral calculado
  • ☐ Critérios de inclusão explícitos
  • ☐ Critérios de exclusão explícitos
  • ☐ Taxa de resposta reportada

A amostragem merece atenção redobrada. Lê 5 Erros na Amostra da Tese Que Reprovam Alunos.

Erro #4 — Descrição Superficial dos Procedimentos

Quantas vezes li: “Foram realizadas entrevistas aos participantes.” E pronto.

É como dizer “fiz um bolo” sem mencionar ingredientes, quantidades ou temperatura. Conseguias replicar? Claro que não.

A metodologia exige detalhe suficiente para permitir replicação.

O Que Deve Constar

  1. Instrumentos utilizados — Qual questionário? Que guião? (Em anexo, na íntegra.)
  2. Processo de validação — Pré-teste? Validação por peritos?
  3. Procedimento de aplicação — Online ou presencial? Quanto tempo? Onde? Quem conduziu?
  4. Considerações éticas — Consentimento informado? Anonimato?
  5. Limitações — Dificuldades? Recusas? O investigador honesto reporta tudo.

O manual de Antônio Joaquim Severino, Metodologia do Trabalho Científico, continua a ser referência incontornável.

Erro #5 — Ignorar as Questões Éticas

Há um pensamento perigoso: “A minha pesquisa não é médica, não preciso de preocupar-me com ética.”

Completamente errado.

Qualquer investigação que envolva seres humanos — entrevistas, questionários, observação — tem implicações éticas. O júri vai verificar.

O Que o Júri Procura

  • Aprovação de comité de ética — Cada vez mais universidades exigem.
  • Consentimento informado — Em anexo, linguagem clara.
  • Garantias de anonimato — Como anonimizaste? Onde guardas os dados?
  • Consideração de riscos — Mesmo mínimos, identifica-os.

⚠️ Atenção

Muitas universidades portuguesas exigem parecer da Comissão de Ética mesmo para inquéritos online. Verifica o regulamento antes de iniciar a recolha.

Para estudos qualitativos, o artigo de Minayo (2021), Ética das pesquisas qualitativas segundo suas características, é leitura essencial.

Erro #6 — Análise de Dados Incoerente com o Método

Imagina: entrevistas aprofundadas, testemunhos ricos, e na análise: “Contei quantas vezes mencionaram a palavra ‘motivação’.”

É colher uvas premium e fazer sumo de caixinha. Destruíste o potencial dos dados.

A análise tem de ser coerente com o método.

Incoerências Que Reprovam

  • Entrevistas analisadas como números — Contar frequências sem análise temática.
  • Escala Likert tratada incorretamente — Calcular médias sem verificar pressupostos.
  • Estudo de caso com generalização — Uma empresa não representa “todas as empresas portuguesas”.

Matriz de Coerência

Tipo de Dados Técnicas Adequadas
Entrevistas Análise de conteúdo, análise temática, grounded theory
Questionários Estatística descritiva, testes paramétricos, análise fatorial
Documentos Análise documental, análise crítica de discurso
Observação Notas de campo, categorização emergente

5 Erros na Análise de Dados da Tese Que Reprovam para evitares estas armadilhas.

Erro #7 — Falta de Validade e Fiabilidade dos Instrumentos

Se criaste um questionário “do zero” sem validação, estás em apuros. Se adaptaste um instrumento sem autorização e sem nova validação, igualmente.

Validade e fiabilidade não são luxo — são requisito básico.

Conceito de validade e fiabilidade de instrumentos de investigação académica

O Que Demonstra Rigor

  • Instrumentos já validados — Com referência ao estudo original.
  • Tradução e adaptação documentadas — Como garantiste equivalência?
  • Pré-teste com amostra piloto — Quantas pessoas? Que ajustes?
  • Métricas de fiabilidade reportadas — Alfa de Cronbach na tua amostra.

Perguntas Que o Júri VAI Fazer

  1. “Porque escolheu este instrumento específico?”
  2. “Como garantiu a validade de conteúdo?”
  3. “Qual a fiabilidade na sua amostra?”

Pesquisa instrumentos validados em repositórios como o RCAAP ou a b-on.

Checklist Final: A Tua Metodologia Está Pronta?

Antes de entregar, verifica cada ponto:

  • ☐ Objetivos, questões e método estão alinhados
  • ☐ Tipo de estudo justificado com literatura
  • ☐ Amostragem dimensionada e com critérios claros
  • ☐ Procedimentos detalhados para permitir replicação
  • ☐ Questões éticas explicitamente abordadas
  • ☐ Análise coerente com o tipo de dados
  • ☐ Instrumentos validados e fiabilidade reportada

Cada item sem checkmark é uma vulnerabilidade na defesa. Resolve agora, enquanto tens tempo.

Conceito de metodologia de investigação académica mostrando elementos essenciais de uma tese bem estruturada

A metodologia é o coração da tua tese. Cuida dela como merece — e o júri vai reconhecer o teu rigor.


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