Após 3 a 4 anos de investigação exaustiva, noites sem dormir e sacrifícios pessoais incalculáveis, imagine ver a sua tese de doutoramento rejeitada. Não pela qualidade da pesquisa. Não pela falta de rigor científico. Mas por erros estruturais que poderia ter evitado em meia hora de leitura atenta.
Parece impossível? Infelizmente, acontece mais vezes do que gostaríamos de admitir nas universidades portuguesas.
Sei o que está a pensar: “Comigo não vai acontecer.” Foi exatamente o que disseram dezenas de doutorandos brilhantes antes de receberem o parecer negativo do júri. A verdade inconveniente é que a estrutura da sua tese é tão importante quanto o conteúdo que ela carrega.
💡 O que é a estrutura de uma tese de doutoramento?
A estrutura de tese de doutoramento em Portugal refere-se à organização sistemática de todos os elementos — desde a capa até aos anexos — seguindo as normas específicas de cada universidade e respeitando a sequência lógica: introdução, enquadramento teórico, metodologia, resultados, discussão e conclusão.
Neste guia, vou revelar-lhe os 7 erros fatais que reprovam teses de doutoramento em Portugal — e, mais importante, como evitá-los antes que seja tarde demais. Cada erro que vou apresentar baseia-se nas exigências reais das principais universidades portuguesas e em padrões observados ao longo de décadas a acompanhar trabalhos académicos.
Está preparado para descobrir o que pode estar a sabotar o seu trabalho de anos? Continue a ler.
Anatomia da Estrutura de Tese de Doutoramento em Portugal: O Que as Universidades Exigem
Antes de mergulharmos nos erros fatais, precisamos de estabelecer uma base sólida. Afinal, como é que vai evitar erros se não souber exatamente o que as universidades portuguesas esperam de si?

Pense na estrutura da tese como a arquitetura de uma casa. Pode ter os melhores materiais do mundo, mas se os alicerces estiverem mal colocados ou se as paredes não estiverem no sítio certo, a casa desaba. O mesmo acontece com a sua investigação: conteúdo brilhante numa estrutura defeituosa é conteúdo desperdiçado.
A estrutura de tese de doutoramento em Portugal divide-se em três grandes blocos:
Elementos pré-textuais:
- Capa (com formatação específica da instituição)
- Folha de rosto
- Dedicatória e agradecimentos (opcionais, mas comuns)
- Resumo em português e abstract em inglês
- Índice geral, índice de figuras, índice de tabelas
- Lista de abreviaturas e siglas
Elementos textuais:
- Introdução (problema, objetivos, questões de investigação)
- Enquadramento teórico/revisão de literatura
- Metodologia
- Apresentação e análise de resultados
- Discussão
- Conclusão (contributos, limitações, investigação futura)
Elementos pós-textuais:
- Referências bibliográficas
- Anexos
- Apêndices
Se pensava que bastava escrever bem, está na hora de repensar. Para aprofundar os erros mais comuns na capa, recomendo a leitura do artigo sobre erros na capa da tese de doutoramento que complementa este guia.
Diferenças Entre Universidades Portuguesas
Aqui está um segredo que muitos doutorandos descobrem tarde demais: cada universidade portuguesa tem as suas próprias regras. E não estou a falar de pequenas nuances — são diferenças que podem determinar a aprovação ou rejeição do seu trabalho.
📋 Requisitos Reais — Exemplo FLUP/Universidade do Porto
Segundo as normas da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, as teses devem usar fonte Calibri 12, espaçamento 1,5 e respeitar limites específicos de páginas.
A Universidade de Coimbra (FEUC) tem exigências igualmente específicas sobre formatação, aceitação de teses por artigos e regras rigorosas anti-plágio. Já a Universidade de Lisboa pode ter requisitos completamente diferentes dependendo da faculdade.
A lição aqui é clara: antes de escrever uma única palavra, descarregue o template oficial da sua instituição e leia todas as normas. Não assuma nada.
As Novas Exigências de 2025: O Que Mudou na Estrutura das Teses
O mundo académico não é estático. Se está a utilizar informação de há cinco anos, pode estar a cometer erros que nem sequer sabe que existem.
A Ascensão da Tese por Artigos
Uma das tendências mais marcantes é a crescente aceitação da tese por artigos — também conhecida como thesis by publication. Este formato permite que o doutorando compile artigos científicos publicados (ou submetidos) em vez de escrever uma monografia tradicional.
A Universidade de Coimbra, por exemplo, já inclui nas suas normas a possibilidade de apresentar a tese em formato de artigos. Mas atenção: isto não significa menos trabalho. A estrutura continua a exigir uma introdução abrangente, uma discussão integradora e uma conclusão que unifique todos os artigos.
Digitalização e Requisitos de Submissão Eletrónica
A pandemia acelerou uma tendência que já vinha a crescer: a submissão eletrónica das teses. Isto significa que, além da estrutura do conteúdo, precisa de prestar atenção aos formatos de ficheiro exigidos, aos metadados e às questões de acessibilidade.
Segundo os procedimentos de submissão da Universidade de Coimbra, os candidatos devem entregar ficheiros em formatos específicos e seguir etapas precisas de depósito eletrónico.
Rigor Anti-Plágio e Verificação de Originalidade
As ferramentas de deteção de plágio tornaram-se mais sofisticadas e a sua utilização é agora obrigatória em praticamente todas as universidades portuguesas. A estrutura da sua tese deve refletir claramente os seus contributos originais.
Isto significa que cada capítulo precisa de deixar explícito o que é conhecimento existente e o que é a sua contribuição nova. Para um guia detalhado sobre como demonstrar originalidade, consulte o artigo sobre originalidade em teses de doutoramento.
Os 7 Erros Fatais na Estrutura de Tese de Doutoramento
Chegámos ao coração deste guia. Nos próximos minutos, vou revelar os erros que vejo repetidamente — e que transformam anos de trabalho árduo em rejeições dolorosas.

Erro #1 — Ignorar o Template e a Identidade Visual da Instituição
Este é, possivelmente, o erro mais evitável e, simultaneamente, um dos mais comuns. Cada universidade portuguesa tem um template oficial com requisitos específicos de formatação: margens, fontes, espaçamentos, numeração de páginas, estilo da capa e lombada.
Usar o template errado — ou pior, não usar nenhum — pode resultar em rejeição automática antes mesmo de o júri ler uma palavra do seu conteúdo.
As diferenças entre instituições são reais. Enquanto a FLUP exige Calibri 12 com espaçamento 1,5, outras faculdades podem exigir Times New Roman 12 com espaçamento duplo. Algumas universidades exigem que o logótipo institucional apareça na capa; outras proíbem-no.
Solução: Antes de começar a escrever, aceda ao portal da sua faculdade e descarregue o template oficial. Se não existir template, solicite as normas por escrito ao secretariado do programa doutoral.
Erro #2 — Construir uma Introdução Que Não Define o Problema de Investigação
A introdução é a porta de entrada da sua tese. É aqui que o júri forma a primeira impressão — e, como sabemos, as primeiras impressões contam muito.
O erro fatal? Escrever introduções vagas, excessivamente longas ou que demoram páginas a chegar ao ponto.
⚠️ Sinal de Alerta
Se a sua introdução não responde claramente a “Qual é o problema?” e “Porque é que importa?” nas primeiras 3 páginas, está em risco de perder o interesse do júri antes mesmo de chegarem ao conteúdo principal.
Uma introdução eficaz deve estabelecer de forma clara e concisa: o problema de investigação, os objetivos, as questões ou hipóteses, a justificação do estudo e um breve roteiro da estrutura da tese.
Para evitar os erros mais comuns nesta secção crucial, recomendo a leitura aprofundada do artigo sobre erros fatais na introdução da tese.
Erro #3 — Quadro Teórico Desconectado da Investigação Empírica
O enquadramento teórico não é um exercício de erudição vazia. Não é um “catálogo de autores” onde lista tudo o que leu durante o doutoramento. O quadro teórico deve sustentar e justificar as suas opções metodológicas e antecipar a discussão dos resultados.
O erro fatal aqui é a desconexão: apresentar uma revisão de literatura exaustiva que depois não tem qualquer ligação à investigação empírica que se segue. O resultado? O júri questiona se o candidato compreende verdadeiramente o propósito de cada capítulo.
Para aprofundar este tema, consulte os artigos sobre problemas no enquadramento teórico e erros na revisão de literatura.
Erro #4 — Metodologia Mal Posicionada ou Justificada de Forma Insuficiente

O capítulo de metodologia é onde muitos doutorandos tropeçam. Não basta descrever o que fez — precisa de explicar o “porquê” de cada escolha metodológica.
Erros comuns incluem: amostra mal dimensionada ou sem justificação, instrumentos de recolha de dados não validados, desenho de investigação incoerente com as questões formuladas, e falta de transparência nos procedimentos de análise.
A replicabilidade é um princípio fundamental: outro investigador deveria conseguir reproduzir o seu estudo com base apenas no que escreveu no capítulo metodológico.
Para evitar armadilhas específicas, consulte os artigos sobre dimensionamento da amostra e erros metodológicos comuns.
Erro #5 — Análise de Dados Sem Conexão com as Questões de Investigação
Imagine correr uma maratona na direção errada. É exatamente isto que acontece quando a análise de dados não responde às questões ou hipóteses formuladas na introdução.
O erro fatal aqui é duplo: apresentar dados sem interpretação (transformando o capítulo de resultados numa mera listagem de números ou excertos) ou perder a ligação ao quadro teórico (discutindo resultados num vácuo conceptual).
A discussão dos resultados deve fazer a triangulação entre três elementos: os dados obtidos, a teoria apresentada no enquadramento e o contributo original da sua investigação.
Para um guia detalhado sobre esta secção crítica, recomendo o artigo sobre falhas na análise de dados.
Erro #6 — Misturar Normas de Citação ou Usar a Norma Errada
Este erro pode parecer menor, mas transmite uma mensagem devastadora ao júri: falta de rigor e atenção ao detalhe. E se há algo que um doutor deve demonstrar, é precisamente rigor.
Cada área científica e cada instituição pode exigir normas de citação diferentes. Em Portugal, as mais comuns são:
- NP 405 — a norma portuguesa, ainda muito utilizada em ciências sociais e humanidades
- APA — muito comum em psicologia e educação
- Chicago — frequente em história e algumas áreas de humanidades
- ISO 690 — aceite em várias instituições
A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa disponibiliza um guia completo sobre estas normas. Para um aprofundamento específico na NP 405, consulte o Guia NP 405 da Biblioteca FEUP.
🎬 Tutoriais Zotero — Gestão de Referências (em Português)
Aprenda a usar o Zotero para gerir automaticamente as suas referências e evitar erros de formatação bibliográfica. Esta ferramenta gratuita pode poupar-lhe dezenas de horas de trabalho manual.
▶️ Aceder à Playlist de Tutoriais Zotero (8 vídeos)
Fonte: Eduplay/RNP — Tutoriais em português sobre instalação, integração com Word e estilos de citação
Solução: Use um gestor de referências como o Zotero ou Mendeley desde o primeiro dia do doutoramento. Configure-o com o estilo exigido pela sua instituição e nunca mais se preocupe com formatação bibliográfica.
Erro #7 — Deixar a Organização Final Para a Última Hora
Este é o erro que apanha os doutorandos quando já estão exaustos, sob pressão e a contar os dias para o prazo de entrega. A organização final da tese não é uma tarefa de última hora — é um processo que exige tempo, atenção e múltiplas revisões.
Erros comuns de última hora incluem:
- Índices desatualizados (figuras e tabelas que mudaram de página)
- Numeração de páginas incorreta ou inconsistente
- Anexos referidos no texto mas que não existem
- Ficheiros em formatos errados para submissão eletrónica
- Cabeçalhos e rodapés inconsistentes
- Hiperligações internas quebradas
Os procedimentos de submissão da Universidade de Coimbra são um excelente exemplo das múltiplas verificações que precisará de fazer antes da entrega.
Solução: Reserve pelo menos duas semanas exclusivamente para a revisão final e organização. Use uma checklist e peça a alguém de confiança para verificar elementos que os seus olhos cansados podem já não ver. Para estratégias de planeamento, consulte o guia de planeamento do tempo de escrita.
Resumo: Os 7 Erros Fatais e Como Evitá-los
| Erro Fatal | Consequência | Solução |
|---|---|---|
| Ignorar template institucional | Rejeição formal | Descarregar template oficial da universidade |
| Introdução sem problema definido | Júri perde interesse | Definir problema em 3 páginas |
| Quadro teórico desconectado | Falta de coerência | Ligar teoria à metodologia |
| Metodologia mal justificada | Questões sobre validade | Justificar cada escolha metodológica |
| Análise sem ligação às questões | Resultados irrelevantes | Alinhar dados com hipóteses |
| Misturar normas de citação | Perceção de desleixo | Usar gestor de referências (Zotero) |
| Organização de última hora | Erros técnicos evitáveis | Planear e verificar com antecedência |
O Futuro da Estrutura de Teses de Doutoramento: Tendências 2025-2030
Para onde caminha a estrutura das teses de doutoramento em Portugal? Compreender as tendências emergentes pode dar-lhe uma vantagem competitiva e preparar-lhe para requisitos futuros.

Maior Flexibilidade nos Formatos
A rigidez da monografia tradicional está a dar lugar a maior diversidade. Nos próximos anos, podemos esperar:
- Expansão da aceitação de teses por artigos publicados
- Teses multimédia com elementos interativos
- Integração obrigatória com repositórios de dados abertos
- Formatos digitais que vão além do PDF tradicional
Rigor Crescente na Verificação de Integridade Académica
As ferramentas de IA para deteção de plágio estão a tornar-se mais sofisticadas — e também mais capazes de detetar texto gerado artificialmente. As universidades estão a implementar:
- Verificação obrigatória com múltiplos softwares
- Declarações detalhadas de autoria e contributos
- Exigência de transparência metodológica total
Harmonização Europeia
O Espaço Europeu de Ensino Superior está a promover maior alinhamento entre países. Isto significa que os requisitos estruturais em Portugal tenderão a aproximar-se dos padrões europeus, facilitando a mobilidade académica mas também aumentando as exigências de qualidade.
🔮 Tendência 2025-2030
Espera-se que as universidades portuguesas adotem maior flexibilidade no formato da tese (incluindo teses por artigos e formatos digitais), mas com rigor crescente na verificação de originalidade e transparência metodológica.
Agora que conhece os 7 erros fatais e as tendências emergentes, a pergunta que fica é: vai aplicar este conhecimento ou vai arriscar que a sua tese se torne mais uma estatística de reprovação? A escolha é sua — mas pelo menos agora tem as ferramentas para fazer a escolha certa.




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