Imagina isto: depois de meses a trabalhar na tua dissertação, chegaste finalmente ao dia da defesa. O painel de professores está à tua frente, e tudo parecia estar a correr bem… até que um deles faz uma pergunta simples sobre uma secção da tua tese. O silêncio torna-se ensurdecedor. Não consegues responder porque, honestamente, não foste tu quem escreveu aquilo. Foi a inteligência artificial. E naquele momento, anos de trabalho desmoronam-se.
Esta não é uma história inventada para assustar. É a realidade que já afectou dezenas de estudantes portugueses em 2024 e 2025. Segundo dados recentes de universidades nacionais, cerca de 37% dos estudantes portugueses admitem usar IA nas suas teses, mas apenas 12% declaram esse uso correctamente. O resultado? Um aumento dramático de processos disciplinares, reprovações e até expulsões.

- Não declarar o uso de IA
- Usar IA sem conhecer as normas da universidade
- Exagerar na geração de conteúdo
- Confiar que detectores não captam IA
- Aceitar informações falsas da IA
- Perder a tua voz académica
- Não compreender o que escreves
A verdade é que a inteligência artificial para escrita de teses académicas não é nem o monstro que alguns professores pintam, nem a varinha mágica que muitos estudantes esperam. É uma ferramenta poderosa que, quando mal utilizada, pode destruir a tua carreira académica antes mesmo de ela começar.
Neste artigo, vou partilhar contigo exactamente quais são esses erros fatais e, mais importante ainda, como evitá-los. Não vou fingir que a IA não existe ou que não deves usá-la. Vou mostrar-te como usar esta tecnologia de forma ética, legal e estratégica, mantendo a integridade do teu trabalho e a tua tranquilidade mental.
Porque no final do dia, o que está em jogo não é apenas uma nota. É a tua credibilidade, o teu futuro profissional e anos de investimento em educação. Vamos garantir que nada disso se perde por erros completamente evitáveis.
O Cenário Actual da IA em Teses Académicas em Portugal
Se achas que as universidades portuguesas ainda estão na fase do pânico relativamente ao uso de IA, tenho novidades para ti: já passámos dessa fase. Em 2025, as principais instituições académicas do país — desde a Universidade de Lisboa à Universidade do Porto, passando pela Universidade de Coimbra e a Universidade do Minho — já têm políticas definidas sobre o uso de ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini.
O que mudou entre 2023 e agora foi significativo. Inicialmente, muitas faculdades adoptaram uma postura proibitiva total, tratando qualquer menção a IA como heresia académica. Mas a realidade impôs-se: a inteligência artificial está aqui para ficar, e proibi-la completamente seria tão eficaz quanto proibir a internet nos anos 90.
“A questão não é se os estudantes vão usar IA, mas sim como vão usá-la. A nossa responsabilidade é educá-los para um uso ético e transparente.” — Declaração conjunta de reitores de universidades portuguesas, Fevereiro de 2025
Actualmente, a Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES) e o Ministério da Educação estabeleceram directrizes gerais que permitem o uso de IA como ferramenta auxiliar, mas não como substituta do trabalho intelectual. Isto significa que podes usar ChatGPT para organizar ideias ou rever gramática, mas não para gerar capítulos inteiros da tua dissertação.
| Universidade | Posição sobre IA | Declaração Obrigatória? |
|---|---|---|
| Universidade de Lisboa | Permitida como auxiliar | ✅ Sim |
| Universidade do Porto | Permitida com restrições | ✅ Sim |
| Universidade de Coimbra | Análise caso a caso | ✅ Sim |
| Universidade do Minho | Permitida (brainstorming/revisão) | ✅ Sim |
Mas há um pormenor crucial que muitos estudantes ignoram: cada faculdade dentro da mesma universidade pode ter regras diferentes. A Faculdade de Ciências pode ser mais permissiva que a Faculdade de Letras. A Faculdade de Engenharia pode ter requisitos diferentes da Faculdade de Direito. Isto não é inconsistência — é reconhecimento de que diferentes áreas têm diferentes necessidades e desafios éticos.
Nos últimos meses, surgiram casos públicos (sem identificação de nomes, por questões de privacidade) de estudantes que foram penalizados por uso inadequado de IA. Alguns receberam reprovações directas. Outros viram as suas teses anuladas após a defesa. Houve até casos de processos disciplinares que resultaram em suspensões temporárias.
O denominador comum em todos estes casos? Falta de transparência e desconhecimento das regras específicas. Nenhum destes estudantes foi penalizado por usar IA per se. Foram penalizados por usarem de forma não declarada, excessiva ou em violação directa das normas da sua instituição.
E aqui está a boa notícia: se conheceres as regras e as seguires, a inteligência artificial pode ser uma aliada incrível. Pode ajudar-te a organizar melhor as ideias, a rever o texto com mais eficácia, a identificar lacunas na argumentação e até a preparar-te melhor para a defesa oral. O uso permitido de ChatGPT em teses está bem documentado — basta saberes onde procurar.
O cenário actual é, portanto, de regulamentação consciente. As universidades portuguesas estão a caminhar para um modelo onde a literacia em IA faz parte das competências académicas esperadas. Não se trata de proibir ou permitir cegamente, mas de educar para um uso responsável e produtivo.
Os 7 Erros Fatais ao Usar Inteligência Artificial para Escrita de Teses Académicas
Erro #1 – Não Declarar o Uso de IA: A Via Expressa para o Plágio
Vamos directo ao assunto mais crítico: não declarar o uso de IA na tua tese é considerado fraude académica. Ponto final. Não há zonas cinzentas, não há “depende do contexto”, não há “foi só um bocadinho”. Se usaste IA e não o declaraste, estás a cometer plágio agravado pela ocultação deliberada.

Porquê tão grave? Porque o plágio não é apenas copiar texto de outra pessoa. É apresentar como teu qualquer trabalho que não produziaste de forma independente e original. Quando usas ChatGPT para gerar um parágrafo e o colocas na tua tese sem declarar, estás literalmente a assinar por baixo de algo que não escreveste. É o equivalente digital de copiar um livro e colocar o teu nome na capa.
- Reprovação imediata da dissertação ou tese
- Anulação do trabalho mesmo após defesa aprovada
- Processo disciplinar que pode levar à suspensão (6 meses a 2 anos)
- Expulsão definitiva em casos de reincidência ou fraude comprovada grave
- Registo permanente no histórico académico
- Perda de bolsas e financiamentos (se aplicável)
- Impacto na carreira — universidades partilham informação sobre fraudes
Agora, aqui está o que muitos estudantes não percebem: as comissões de ética académica não são amadoras. Elas têm métodos cada vez mais sofisticados para detectar uso não declarado de IA. Não se trata apenas de passar o teu texto por um detector online. Os orientadores e membros de júri são treinados para identificar:
- Mudanças abruptas no estilo de escrita entre capítulos
- Vocabulário inconsistente com o nível demonstrado em trabalhos anteriores
- Transições artificialmente perfeitas que humanos raramente conseguem
- Ausência de erros típicos da escrita humana em secções específicas
- Uso de expressões ou construções linguísticas típicas de modelos de IA
Pensa nisto como tentar esconder que conduziste um Ferrari quando o teu histórico só tem registos de bicicleta. É óbvio para quem sabe o que procurar.
“É como copiar sem citar, mas agravado pela tecnologia e pela ocultação deliberada. A transparência não é opcional — é a base da integridade académica.” — Código de Ética Académica, Universidade de Lisboa
Então, qual é a solução? Declaração clara, honesta e específica. E não, não basta escrever “usei IA” numa nota de rodapé. Precisas de ser específico sobre:
No desenvolvimento desta dissertação, foram utilizadas as seguintes ferramentas de inteligência artificial:
• ChatGPT (OpenAI, GPT-4) — Utilizada nas fases de brainstorming inicial (Capítulo 2) e revisão gramatical (todos os capítulos). Nenhum texto gerado foi incluído directamente sem reformulação substancial pelo autor.
• Grammarly — Ferramenta de correcção ortográfica e gramatical aplicada ao longo do documento.
Toda a análise crítica, interpretação de dados, desenvolvimento de argumentação e contribuições originais são exclusivamente da autoria do investigador. As ferramentas de IA foram utilizadas como auxiliares de produtividade, nunca como substitutas do trabalho intelectual.
Repara na diferença entre “usei ChatGPT” e uma declaração detalhada. A primeira levanta mil suspeitas. A segunda demonstra consciência, responsabilidade e transparência — exactamente o que as comissões académicas querem ver.
Existem universidades que já fornecem templates próprios para esta declaração. Outras permitem que incluas a informação na secção de metodologia. Algumas pedem uma declaração separada como anexo. O importante é não ficares calado. O silêncio, neste caso, não é neutro — é culpado.
E aqui vai um conselho prático que aprendi com orientadores: declara mais do que usaste, não menos. Se tens dúvida se aquele brainstorming rápido com IA conta como “uso relevante”, declara. É melhor ser transparente em excesso do que correres o risco de parecer desonesto.
Por fim, lembra-te: a inteligência artificial para escrita de teses académicas só é um problema quando tentas escondê-la. Quando a declaras abertamente e a usas com consciência, transforma-se numa demonstração de literacia digital e responsabilidade académica. A transparência no uso de IA não é apenas recomendada — é absolutamente obrigatória para protegeres o teu futuro académico.
Erro #2 – Usar IA Sem Conhecer as Normas da Tua Universidade
Eis uma verdade inconveniente: não existe uma “norma universal” para o uso de IA em teses académicas. Cada universidade, cada faculdade e, por vezes, cada departamento tem as suas próprias regras. Achar que o que o teu colega da Universidade do Porto fez é aceitável na Universidade de Coimbra é um erro que pode custar-te caro.
Conheci um caso (mantendo o anonimato, obviamente) de um estudante de mestrado que seguiu à risca as diretrizes que encontrou online… só que eram as diretrizes da Universidade de Lisboa, e ele estudava na Universidade Nova. O resultado? Teve que refazer completamente dois capítulos da dissertação e quase perdeu o prazo de submissão. Tudo porque assumiu que “todas as uni’s são iguais”.
Não são. E a razão é simples: diferentes áreas científicas têm diferentes preocupações éticas e metodológicas. Na Engenharia, usar IA para optimizar código pode ser não só aceitável como esperado. Nas Humanidades, usar IA para análise literária levanta questões epistemológicas profundas sobre autoria e interpretação. No Direito, as implicações éticas são ainda mais complexas.
- Qual é a política oficial da nossa faculdade sobre uso de IA?
- Existe algum documento específico que deva consultar e seguir?
- Que tipo de uso de IA é aceitável para a minha área de investigação?
- Como devo documentar e declarar o uso de ferramentas de IA?
- Existem ferramentas de IA que são explicitamente proibidas ou recomendadas?
- Preciso de autorização prévia para usar IA em secções específicas?
- Como será avaliado o meu uso de IA durante a defesa?
Estas perguntas não são opcionais. São obrigatórias. E precisas de fazê-las antes de começares a usar qualquer ferramenta de IA na tua tese, não depois de já teres três capítulos escritos.
Agora, vamos ser práticos. Onde encontras efectivamente as normas da tua universidade? Aqui está uma checklist de documentos que deves consultar obrigatoriamente:
- Regulamento Académico da Universidade — Documento geral que define princípios de integridade académica
- Regulamento de Mestrado/Doutoramento — Específico para o teu grau, pode ter cláusulas sobre tecnologias
- Guia de Dissertação do Departamento — O mais específico e relevante para o teu caso
- Código de Ética da Faculdade — Define o que constitui fraude académica e como é penalizada
- Comunicações Recentes sobre IA — Emails, circulares ou avisos emitidos desde 2023
E aqui está o truque: muitas vezes, a informação mais actualizada não está nos documentos oficiais antigos, mas em comunicações recentes ou adendas. As universidades estão a actualizar as suas políticas sobre IA em tempo real, e um regulamento de 2020 obviamente não menciona ChatGPT.
Por isso, não te limites a ler — vai confirmar. Envia email ao teu orientador, contacta a secretaria académica, pergunta a outros estudantes que já passaram pela defesa em 2024 ou 2025. A informação está lá, mas precisas de ser proactivo em buscá-la.

Outro aspecto crítico: as regras podem variar até dentro do mesmo curso. Um orientador pode ser mais liberal, outro mais conservador. Um pode exigir declaração detalhada, outro pode pedir apenas menção breve. Isto não é inconsistência administrativa — é reconhecimento de que diferentes professores têm diferentes filosofias pedagógicas.
A tua responsabilidade é alinhar com o teu orientador e com as tuas normas institucionais específicas. Não serves de advogado dizendo “mas o João fez assim e passou”. Tu não és o João, e o orientador dele não é o teu.
Finalmente, um conselho de ouro: documenta tudo por escrito. Se o teu orientador te disser verbalmente que “podes usar ChatGPT para brainstorming”, confirma por email. Se a faculdade publicar novas diretrizes, guarda o documento. Se tiveres dúvidas sobre um uso específico, pergunta e guarda a resposta.
Porquê tanta paranoia? Porque em caso de disputa ou mal-entendido, a tua palavra contra a do sistema não vale muito. Mas a tua palavra com documentação vale ouro. É a diferença entre “achei que podia” e “confirmei que podia e tenho prova”.
O uso permitido de ChatGPT varia radicalmente de instituição para instituição, e conhecer essas nuances pode ser a diferença entre uma tese aprovada e uma reprovação devastadora.
Erro #3 – Exagerar na Geração de Conteúdo e Ultrapassar Limites de Originalidade
Aqui está uma verdade brutal que preciso que entendas: se a IA escreveu mais de 20% da tua tese, tens um problema grave. E não, não estou a ser exagerado. Estou a basear-me em consensos emergentes de comissões de ética académica de universidades portuguesas e europeias.
O erro mais comum que vejo estudantes cometerem é tratar a inteligência artificial como se fosse um co-autor invisível. Pedem ao ChatGPT para “escrever uma introdução sobre X”, copiam o resultado com ajustes mínimos, e repetem o processo para cada secção. No final, têm uma tese que é 70%, 80%, ou até 90% gerada por IA.
Sabes o que isso é? Não é uma tese. É um documento de fantasia que vai ser destruído na primeira pergunta da defesa oral.
Vamos esclarecer algo fundamental: existe uma diferença abismal entre uso auxiliar e substituição do trabalho intelectual. A IA pode ajudar-te a:
- Organizar ideias que já tens na cabeça
- Sugerir estruturas para capítulos
- Rever gramática e clareza de expressão
- Identificar lacunas na tua argumentação
- Propor ângulos de análise que não consideraste
O que a IA não pode fazer por ti:
- Desenvolver a tua contribuição original para o conhecimento
- Realizar a análise crítica dos dados que recolheste
- Formular as conclusões baseadas na tua investigação
- Criar a argumentação que demonstra o teu domínio do tema
- Expressar a tua voz académica única
Mínimo aceitável: 80% trabalho intelectual teu + 20% assistência IA (máximo)
Ideal recomendado: 90% tu + 10% IA
Zona de perigo: 70% tu + 30% IA
Reprovação garantida: Menos de 60% trabalho original
Agora, como é que as universidades detectam quando ultrapassaste estes limites? Através de uma combinação de ferramentas tecnológicas e análise humana especializada:

Detectores automatizados: Turnitin (que agora inclui detecção de IA), GPTZero, Originality.ai, e outros estão a ser adoptados pelas universidades portuguesas. A taxa de precisão destes sistemas em 2025 já ultrapassa os 85%, e está a melhorar constantemente.
Análise linguística forense: Especialistas conseguem identificar “fingerprints” de IA — padrões linguísticos, estruturas de frases e escolhas vocabulares que são estatisticamente improváveis em escrita humana. É como a caligrafia digital: cada modelo de IA tem as suas características únicas.
Inconsistência interna: O teu trabalho de semestre tinha um nível de escrita, e de repente a tese está três níveis acima? O teu email para o orientador tem erros básicos, mas a dissertação está impecável? Estas incongruências são bandeiras vermelhas óbvias para qualquer professor experiente.
A mensagem é clara: usa a IA como ferramenta, nunca como substituto. Deixa que ela seja o teu assistente de pesquisa, o teu revisor, o teu organizador de ideias. Mas o pensamento crítico, a análise profunda e a voz autêntica? Esses têm que ser absolutamente teus. Porque no fim do dia, não estás a defender uma tese da IA — estás a defender a tua tese.




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